Ilustrada
22/04/2008 - 02h28

Leia a íntegra da entrevista com Walter Salles

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SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo, em Buenos Aires

O cineasta Walter Salles, 52, está prestes a dar o pontapé inicial do que promete ser um ano agitado em sua carreira. Enquanto conclui os últimos toques em "Linha de Passe", longa que fica pronto em junho e estréia no Brasil no final de agosto; e o documentário "À Procura de 'On the Road'" [título provisório], sobre os integrantes da geração beat, que deve estar finalizado em outubro, o diretor de "Diários de Motocicleta" (2004) e "Central do Brasil" (1998) já tem dois outros projetos engatados.

Grigoris Siamidis/Folha Imagem
Texto: O cineasta Walter Salles Jr, posa para foto durante encontro exclusivo para a Folha de S.Paulo com o cineasta alemão Wim Wenders no hotel Electra Palace, em Thessalonica, na Grécia. O encontro foi mediado pelo jornalista Marcos Strecker, da Folha, e realizado durante o 47th Thessaloniki International Film Festival. (Thessalonica (Grécia), 22.11.2006. Foto: Grigoris Siamidis/Folha Imagem) --------------------
Walter Salles Jr. fala sobre projetos, que incluem filmagem de livros de Jack Kerouac

Um é o filme "On the Road", adaptação do romance de Jack Kerouac (1922-1969), que começa a rodar em 2009. O outro também parte de uma obra literária. Trata-se da transposição ao cinema de "O Enteado" (Ed. Iluminuras), romance do argentino Juan José Saer (1937-2005) que explora um episódio histórico real. No século 16, a esquadra do navegador Juan Díaz de Solís desbravava o Rio da Prata quando, numa parada, todos os tripulantes foram devorados por índios antropófagos, à exceção de um grumete de 14 anos, que passou a viver com os nativos. Dez anos depois, ele foi resgatado e voltou à Europa. Salles disse que foi tomado pelo livro por conter "algo fascinante: o embate entre o mundo selvagem e o dito civilizado. No final das contas, qual é qual?", pergunta-se.

Já a conclusão de "Linha de Passe" põe fim a um drama vivido por ele e Daniela Thomas, com quem divide direção e roteiro. Em 2006, um dos também roteiristas da idéia inicial, João Emanuel Carneiro, foi acusado de utilizar personagens do filme para criar os de sua novela, "Cobras & Lagartos", exibida pela rede Globo. Na seqüência, Bráulio Mantovani (de "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite") foi integrado à equipe para fazer as mudanças então necessárias na história original.

O cineasta diz que "Linha" é um filme sobre a "frátria possível", pois explora o tema da ausência do pai, que considera um drama que contém "um dos fatores explicativos do Brasil contemporâneo" e que está em seus filmes anteriores, como "Terra Estrangeira" (1996) e "Central". Em "Linha", conta-se a história de quatro irmãos que vivem na cidade de São Paulo. Os três primeiros são filhos do mesmo pai. O quarto é filho de um homem negro, que desconhece.

No elenco de jovens atores está Vinícius de Oliveira, protagonista de "Central", que agora aparece como aspirante a jogador de futebol. A já tradicional parceria com Daniela Thomas é retomada nessa obra em que o improviso nos diálogos e nas filmagens foi essencial.

Além dessas empreitadas, Salles ainda está envolvido na co-produção do próximo filme do argentino Pablo Trapero, "Leonera", que estréia em Buenos Aires nos próximos meses, e na de "Café de los Maestros", do também argentino Gustavo Santaolalla, também por ser lançado.

Leia, abaixo, a entrevista concedida pelo cineasta à Folha, por e-mail.

Folha - Como é a narrativa em "Linha de Passe"? O roteiro se desenrola a partir de vários pontos de vista. Pode explicar melhor como isso se dá?

Salles- Como se trata de cinco personagens principais, quatro irmãos e uma mãe grávida de um quinto filho, o roteiro, escrito por Daniela Thomas, George Moura e Bráulio Mantovani, segue diversos pontos de vista. Essa estrutura é bem mais complexa do que a de um filme com dois personagens, como era o caso de "Central do Brasil" ou de "Diários de Motocicleta". Mais difícil na hora da roteirização e também da montagem. Cada personagem tem de existir, ganhar densidade...

Folha - Como foi trabalhar com um roteiro a tantas mãos? Qual foi a idéia piloto que guiou o resto do texto?

Salles- A idéia do filme nasceu de dois documentários que meu irmão João Moreira Salles ("Santiago") realizou. O primeiro sobre jovens que tentam entrar em times de futebol de segunda divisão, o outro sobre o fenômeno das igrejas evangélicas no Brasil, chamado "Santa Cruz".

Quanto a escrever um roteiro a quatro ou seis mãos, é praticamente uma característica do cinema brasileiro contemporâneo. Mas quem inaugurou essa tendência talvez tenha sido a moçada no neo-realismo italiano. Todo mundo colaborava no filme de todo mundo. É a essência coletiva do cinema.

Folha - A experiência de Vinícius de Oliveira treinando por quatro anos na escolinha do Zico trouxe novos elementos para o roteiro ou apenas contribuiu para que ele desenvolvesse o seu personagem?

Salles- Na escolinha do Zico propriamente dita, não. Mas fizemos pesquisas em vários times de segunda e terceira divisão, trabalhamos com jogadores reais, e não figurantes, e isso acabou mudando a textura do filme.

Folha - Quem são os quatro atores que fazem os quatro irmãos?

Salles- Três jovens que estréiam no cinema: João Baldasserini (Dênis), José Geraldo Rodrigues (Dinho), Caique de Jesus Santos (Reginaldo), além de Vinícius (Dario). A mãe é vivida por uma ótima atriz chamada Sandra Corvelini. Também este é seu primeiro filme.

Folha - O tema da "ausência do pai" foi surgindo aos poucos ao longo dos seus filmes ou é algo que já fazia parte de suas preocupações desde o começo? A sua experiência com relação à morte de seu pai influencia?

Salles- A questão da ausência do pai precede, em muito, a morte do meu pai. Ela já está presente em "Terra Estrangeira", continua em "Central do Brasil" e agora está em "Linha de Passe". Pais desconhecidos ou que partiram são recorrentes no Brasil. O personagem de Reginaldo é inspirado no caso real de um menino que passou anos procurando o pai, sobre o qual só sabia que era negro e motorista de ônibus. De ônibus em ônibus, esse garoto aprendeu a dirigir. E, um dia, roubou um ônibus e partiu com ele em plena cidade de São Paulo, para tentar chamar a atenção do pai ausente.

Folha - Você diz que se trata de um filme sobre a "frátria possível" e que a idéia surgiu dos documentários do seu irmão. Vocês opinam no trabalho um do outro?

Salles- João viu uma montagem quase final do filme, na semana passada. Digo quase final porque ele fez uma série de observações, que foram imediatamente adotadas. O cara tem um olhar tão aguçado que só dá para mostrar para ele algo bem perto de estar pronto... Agora, estamos chegando praticamente no final do processo. Fica pronto em meados de junho e estréia no Brasil no segundo semestre.

Folha - O Brasil é o país do futebol, porém, não há bons filmes sobre o tema. "Linha" não é especificamente sobre isso, mas você tem uma explicação sobre a razão de ser tão difícil para nós, brasileiros, desenvolvermos o assunto no cinema, na literatura, etc?

Salles- Para começar, é dificílimo filmar futebol. É o oposto do boxe, que é um esporte essencialmente fílmico. São apenas dois personagens num espaço limitado. No futebol, são 22 jogadores em movimento no campo. Procuramos filmá-lo de forma livre, espontânea. O fato de o Vinícius jogar tão bem foi fundamental.

Folha - Como é o garoto que faz Reginaldo? Por que ele foi escolhido?

Salles- Caíque de Jesus Santos é extremamente talentoso, inventivo, focado. A Daniela logo o apelidou de pequeno Grande Otelo...

Folha - Todo esse modo "livre" de trabalhar nasce de algum enfado com o modo de se fazer cinema mais comum hoje? Por que achar que o improviso dá mais legitimidade a uma produção?

Salles- Cada filme é um filme. Os irmãos Coen, por exemplo, trabalham de forma precisa, milimétrica, planejando cada plano com antecedência. Já Paul Thomas Anderson descobre tudo na hora, não marca os atores, deixa-os evoluir livremente dentro do quadro. Os últimos filmes que eles fizeram são ótimos, independentemente do processo. No nosso caso, como estávamos trabalhando com atores jovens que estreavam em cinema, fazia sentido buscar algo mais solto.

Também queríamos incorporar cenas documentais no filme, roubar momentos filmados na rua, e isso só dá para fazer dessa forma.

Folha - Você fala do orçamento pequeno. Quanto foi? Por que não usar incentivos fiscais?

Salles- Depois de fazer dois filmes mais complexos do ponto de vista de produção ("Diários", em que atravessamos todo um continente, e "Água Negra"), a vontade de fazer um filme pequeno, com amigos próximos como Daniela e Vinícius e uma equipe muito jovem, era grande. Quanto ao fato de que não usamos incentivo fiscal, foi algo decorrente das possibilidades de financiamento abertas por "Diários" e do próprio orçamento do filme, que era relativamente baixo. Foi co-produzido por uma empresa que financia os filmes do Michael Moore, a MRC, e pela Pathé franco-inglesa (que distribuiu "Diários").

Faço questão de dizer que todos os outros projetos feitos na Videofilmes [produtora dos irmãos João e Walter Moreira Salles] usam verba incentivada. Não há cinematografia independente que resista sem incentivo direto ou indireto do Estado, seja no Brasil, na França, na Argentina...

Folha - Fale mais da participação do roteirista Bráulio Mantovani, em que momento ele entrou no filme e por que.

Salles- Bráulio entrou num momento decisivo. Não é segredo para ninguém que vivemos momentos difíceis. Ele veio para trazer alternativas ao roteiro, redesenhou personagens. Sem ele e sem Fátima Toledo, que preparou os atores, o filme não teria sobrevivido.

Folha - "À Procura de 'On the Road'", o documentário, e "On the Road", o filme, surgiram como idéias separadas ou complementares?

Salles- O convite para a ficção veio antes, mas o documentário foi se impondo como uma necessidade. Por mais que eu seja um apaixonado pelo livro de Jack Kerouac, não faço parte daquela geração nem daquela cultura. A melhor maneira de mergulhar a fundo naquele universo foi refazer a rota de "On the Road", encontrando e filmando os personagens do livro que ainda estão vivos, conversando com poetas como Gary Snyder ou Laurence Ferlinghetti.

A preparação não foi muito diferente da efetuada para "Diários de Motocicleta". Fiz duas vezes a viagem de Ernesto Guevara e Alberto Granado através da América Latina antes de me sentir preparado para filmá-la.

Folha - Por que o interesse pelos beats? Como eles se encaixam do ponto de vista temático, na sua filmografia?

Salles- Para começar, quase todas aquelas micro-revoluções que nos informaram nos anos 60 e 70 são o resultado das portas que os beats abriram nos anos 50. A revolução sexual, a atração pela experimentação, pelo jazz e pela cultura negra, a expansão da mente através das drogas, o interesse pela ecologia que Snyder trouxe. Quando você adapta um livro, é preciso, antes de mais nada, encontrar o elo que torna o projeto possível. Não é difícil, no caso de "On the Road", encontrar esses pontos de interesse...

Folha - "À Procura..." terá entrevistas e informações inéditas sobre o movimento. Que novo debate sobre o tema acredita que pode suscitar?

Salles- À medida que o documentário foi tomando corpo, ficou claro que a história dos beats pode ser entendida como a de filhos de imigrantes que não tinham lugar na América conservadora dos anos 50. Ginsberg era filho de imigrantes judeus e comunistas da Europa do Leste. Kerouac, de franco-canadenses. Ferlinghetti e Corso, de anarquistas italianos.

Eles colidiram com uma cultura impositiva e excludente, que não era muito diferente da dos EUA de hoje. A do "macartismo", da Guerra Fria, da política do medo. É esse arco histórico entre a América de Eisenhower e a de Bush que pode dar, aliás, uma atualidade ao filme de ficção.

Folha - Que aspecto de "On the Road" você pretende ressaltar? Viajar pela "América profunda" hoje é topar com várias questões sobre a América de Bush. O filme tem aspectos políticos?

Salles- "On the Road" pode ser visto, entre outras coisas, como um livro sobre o fim da estrada. Não há mais lugar para sonhadores como Dean e Sal. Ora, os EUA se definiram justamente no movimento e na expansão para o Oeste. Os westerns de John Ford e Howard Hawks falam disso: da constituição de uma identidade nacional. E o que acontece quando o território já está plenamente ocupado? Começa uma expansão além-fronteiras: é o desastre do Vietnã e, hoje, o do Iraque. E surge a corrida espacial. Stanley Kubrick mostra isso de modo genial em "2001, uma Odisséia no Espaço". Entre os novos territórios que aparecem no filme, há uma visão solarizada, lisérgica, do Grand Canyon, a imagem do western, da conquista territorial norte-americana por excelência, agora deformada.

Folha - Entre os atores jovens já escolhidos, alguma estrela ou você optará por molecada nova mesmo?

Salles- Os personagens de "On the Road" estão à deriva nesse território onde sobra pouco para ser descoberto. Têm entre 16 e 25 anos. Por isso, a busca de atores pouco conhecidos, ou desconhecidos, para esses papéis.

Folha - Por que adaptar "O Enteado", do argentino Saer, para as telas?

Salles- Descobrir o livro de Juan Jose Saer foi um choque. Primeiro, pela qualidade da narrativa, nossos hermanos são realmente imbatíveis nesse território. Depois, há no livro algo terrivelmente interessante: o embate entre o mundo selvagem e o dito "civilizado". No final das contas, quem é quem? É um tema que Michelangelo Antonioni desenvolveu, mas acabou não rodando em "Técnicamente Doce", seu roteiro não filmado na Amazônia [O Mais! publicou trecho inédito do texto em sua edição de 6 de janeiro, leia em www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0601200807.htm]. O roteiro de Julia Leigh, uma escritora australiana apaixonada por Saer, é extremamente fiel ao livro.

Folha - Sobre o "Cafe de los Maestros", a idéia partiu de Gustavo Santaolalla? O filme segue os passos de "Buena Vista Social Club" (1999), com um pouco mais de sensibilidade, e tem Buenos Aires como personagem mais ativo do que Havana no outro projeto. Por que você se interessou em produzir?

Salles- A idéia é do Gustavo. Por mais que ele viva nos EUA, é alguém profundamente ligado às suas raízes. Há 20 anos, ele percorreu a Argentina de cabo a rabo em um ônibus, gravando todos os músicos populares que ele encontrava pelo caminho [no projeto "Ushuaia a La Quiaca"]. O trabalho genial que faz hoje bebe desse encontro entre tradição e modernidade.

Quando ele veio me falar de "Café de los Maestros", não havia como não ajudar. Por razões afetivas, em primeiro lugar. Entrei no projeto por ele, e também para devolver um pouco do apoio que recebi dos amigos argentinos em "Diários".

Em relação ao documentário, o leque é mais aberto do que o ótimo "Buena Vista", por enfocar as muitas e muitas vertentes do tango. Não só na Argentina, mas também no Uruguai. Gustavo e o diretor do filme, Miguel Kohan, acabaram gravando as últimas apresentações de vários músicos importantes dos anos 40.

Um filme se justifica nisso, na possibilidade de gerar uma memória.

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