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Ilustrada
24/04/2008 - 16h23

Curtas ibero-americanos e tumulto marcam o segundo dia do festival de Sergipe

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PAULO TOLEDO PIZA
Colaboração para a Folha Online, em Aracaju

Curtas sergipanos e ibero-americanos, além de um princípio de tumulto, marcaram o segundo dia da mostra competitiva da 8ª edição do Curta-SE (Festival Ibero-Americano de Curtas-Metragens de Sergipe), que aconteceu na quarta-feira, em Aracaju (SE).

A mostra de filmes sergipanos teve quatro produções exibidas na noite desta quarta-feira. O primeiro filme, o documentário "Você Conhece La Conga?", de Sérgio Borges, narra um crime que chocou Sergipe na década de 1960: o assassinato e a ocultação do cadáver de uma criança em Aracaju. A obra mostra, por meio de relatos de parentes da vítima e de pessoas que acompanharam o caso, que o homicida, conhecido como La Conga, e sua história estão vivos na memória dos moradores da cidade.

Em seguida passou o curta "Verdadeira Imagem", de Karla Dias e Ítalo Lucas. O filme conta a história da Festa do Senhor dos Passos, que acontece anualmente em São Cristóvão, cidade próxima a Aracaju. Cerca de 150 mil pessoas vão até lá para acompanhar o encontro das imagens de Jesus com a de Nossa Senhora. Além do cortejo, há uma missa celebrada ao ar livre e o canto da Verônica --entoado por uma jovem virgem e de bela voz da comunidade. Considerada herança patrimonial do Estado e com mais de 200 anos, essa tradição mantém-se viva no século 21.

O terceiro filme sergipano da noite foi uma ficção intitulada "A Parede", de Graziele Andrade. Como o próprio nome diz, o personagem principal desta trama é uma fina parede que separa os apartamentos de uma idosa e de uma jovem artista que tem uma série de amantes. A história mostra que, apesar das diferenças de idade, não há muita diferença entre as ações e os conceitos das duas vizinhas.

Tumulto

Após "A Parede", foi projetado o curta "Venha Ver o Pôr do Sol", de Ricardo Jost Resende. No início do filme, protestos da platéia: o som da cópia que estava sendo rodada apresentava problemas. Após alguns minutos, a projeção foi interrompida até que a direção do Curta-SE conseguiu uma outra cópia da ficção em DVD. O disco não apresentava problemas até que, já no final, a imagem ficou estática e o som, mudo.

Novamente a platéia se manifestou, desta vez mais indignada. A direção da mostra verificou o equipamento e concluiu que o problema era do DVD, que estaria riscado. Mesmo assim algumas pessoas do público não se calaram.

Um dos espectadores desceu até a frente do cinema --onde um pequeno palanque estava instalado --e protestou dizendo que "Venha Ver o Pôr do Sol" seria prejudicado na premiação. Após um pequeno bate-boca, a diretora-executiva do Curta-SE, Rosângela Rocha, se comprometeu a reprisar os quatro curtas sergipanos do dia em um momento oportuno.

"Venha Ver o Pôr do Sol" conta a história de um rapaz que marca um encontro inusitado com sua ex-namorada próximo a um cemitério abandonado para ver "o mais belo pôr do sol". Mas suas verdadeiras intenções tinham mais a ver com vingança do que com reconciliação. Baseado em conto homônimo de Lygia Fagundes Telles, a trama explora o limiar nem sempre perceptível entre o amor e o ódio.

Curtas ibero-americanos

Após esta breve agitação, começou a mostra competitiva de curtas ibero-americanos filmados em 35 mm. Antes da projeção,o diretor de "A Cauda do Dinossauro", Francisco Garcia, brincou com a platéia. "Vamos ficar calmos para assistir aos filmes", disse. Sua obra, baseada em uma história em quadrinhos do desenhista Angeli, mostra um futuro repressor, em que uma ordem intitulada CCC (Comando de Caça Cristã) proibiu tudo, inclusive o sexo como forma de reprodução (neste futuro, as pessoas nascem sem a necessidade de transa, numa relação assexuada).

Neste cenário intimidador surge uma mulher que busca um prazer nunca antes alcançado. E a única pessoa que pode lhe proporcionar tal deleite é o "último dos Escrotos" --um velho junkie que, por não se enquadrar nos padrões impostos pelo CCC, é perseguido pelo comando. Após conhecer o orgasmo, a mulher descobre que o homem tem uma cauda de dinossauro. Ou seja, um ser em extinção.

Em seguida veio o documentário "Cine Zé Sozinho", de Adriano Lima. José Raimundo Cavalcante, o Zé Sozinho, é um cinéfilo que vive no interior do Ceará. Sua paixão pela sétima arte vem de criança, quando conheceu o cinema. Após ganhar um projetor na década de 1970, passou a rodar pelo interior do Ceará projetando filmes em salas improvisadas. Um de seus maiores sonhos era ter sua própria casa. De acordo com o diretor, Zé Sozinho é espetacular. "Queria ganhar um prêmio [em dinheiro] que desse para comprar uma casa para ele", disse Lima.

"Avant Petalos Grilados", do espanhol Velasco Broca, foi o único curta estrangeiro do dia. A história mostra a invasão da Terra por alienígenas que perseguem humanos e os matam sem piedade. A obra faz uma crítica à destruição do homem, que, pelo progresso, acaba com a vida.

Em "Bárbara", de Carlos Grandim, a travesti que nomeia o filme encontra-se com seu pai à beira da morte em decorrência de um câncer de pulmão. Por não conseguir falar, o pai demonstra pelo olhar o ódio que o fez expulsar seu único filho de casa quando descobriu que este era homossexual. Bárbara sofre com esta rejeição, apresentada não só por seu pai, mas por toda a sociedade.

O quinto curta ibero-americano do dia foi "A Peste da Janice", ficção de Rafael Figueiredo. O filme mostra toda a crueldade que as crianças podem esconder por trás de uma máscara de inocência. Janice, menina pobre que acabou de ingressar na escola onde sua mãe trabalha como faxineira, sofre com as brincadeiras maldosas de suas colegas, que afirmam que ela é doente e que têm de se livrar da "peste" que ela carrega.

Única animação do dia, "Ícarus", de Victor Hugo Borges, mostra um garoto de 4 anos cujo pai, que é aviador, dificilmente o encontra acordado. Todos os dias o menino recebe um beijo do pai enquanto dorme. Numa manhã, após uma noite mal dormida, o rapazinho é acordado por sua mãe em prantos, que lhe conta que seu pai morreu num acidente. Muito triste, o garoto passa a dormir mal sabendo que seu pai não mais o beijara. Até que uma noite seu pai (ou o espírito dele) volta e passa a beijá-lo todas as noites. Sem diálogos, o curta é narrado pelo saudoso ator Gianfrancesco Guarnieri.

Por último, "Engano", de Cavi Borges, apresenta o ponto de vista de duas pessoas diferentes ao mesmo tempo. Do lado esquerdo da tela, um rapaz no metrô faz uma ligação de seu celular. Na direita, uma mulher atende a esta chamada enquanto caminha pelas ruas. Ambientado no Rio de Janeiro (RJ), o curta mostra em uma só tomada todo o diálogo e o desencontro dessas pessoas.

A segunda parte da mostra de curtas ibero-americanos acontecerá na noite desta quinta-feira, no Cinemark do Shopping Jardins, na capital sergipana.

"Falsa loira"

Para fechar a noite, foi exibido o longa brasileiro "A Falsa Loira", de Carlos Reichenbach. Ambientado em São Paulo, o filme mostra a história de Silmara, uma jovem operária que, por causa de sua beleza, acaba se envolvendo com dois astros da música.

Invejada pelas colegas, mas desprezada pelos músicos, Silmara aprende que o conto de fadas que tanto sonhou nunca esteve tão longe da realidade.

Números

Dos 403 trabalhos inscritos no festival, foram escolhidas 70 produções --25 em 35mm; 20 vídeos; dez vídeos de bolso (produzidos com aparelhos celulares); dez vídeos sergipanos e cinco longas-metragens.

O melhor curta sergipano receberá R$ 10 mil. Já o melhor curta em 35mm com temática nordestina receberá R$ 5 mil e o melhor longa, R$ 10 mil. O Curta-SE acontece até sábado (26).

O repórter viajou a convite da organização do festival.

 

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