Ilustrada
25/04/2008 - 14h35

Tecnologia mudou o modo de se ver filmes, diz diretor de "O Banheiro do Papa"

PAULO TOLEDO PIZA
Colaboração para a Folha Online, em Aracaju

A tecnologia que propiciou a internet, o DVD e o iPod, mudou o modo de se consumir e produzir filmes. A opinião é de César Charlone, co-diretor do longa "O Banheiro do Papa". Em entrevista à Folha Online durante a 8ª edição do Curta-SE (Festival Ibero-Americano de Curtas-Metragens de Sergipe) Charlone afirmou que essa tecnologia é "alucinante".

Márcio Garcez/Divulgação
O diretor de "O banheiro do Papa", César Charlone, comenta o filme em Sergipe
Diretor de "O Banheiro do Papa", Charlone diz que tecnologia democratizou produção

Segundo o diretor, que foi diretor de fotografia dos filmes "Cidade Deus" e "O Jardineiro Fiel", sites como o YouTube mudaram a forma de se fazer e ver filmes. "Os novos formatos, como os vídeos no YouTube, passam a ter mais importância."

"Houve uma democratização com os novos meios de produção. Dá para fazer filmes direto do celular e de câmeras baratas", disse Charlone.

O diretor destaca o papel dos curta-metragens nesta revolução. Antes, esses vídeos estavam restritos a festivais de cinema, não chegando ao grande público. Agora, podem ser acessados por um clique. "Os curtas têm um frescor, um descompromisso com esta coisa comercial. Eu, particularmente, gosto muito de assistir aos curtas."

Para Charlone, esse descompromisso seria a maior qualidade dos curtas. "O padrão longa metragem está ligado a esta coisa comercial, à cadeia comercial que tende a relativizar, a mudar e a diminuir."

Isso não quer dizer que os longas estão condenados. Fazendo um paralelo com as letras, Charlone afirma que há espaço para todos os tipos de filmes. "Na literatura você tem o conto, o ensaio, a novela", cada um com suas características únicas.

Televisão

O diretor acredita que o cinema brasileiro tem um concorrente de peso: a televisão. Para ele, quanto melhor a TV, menor a presença do público nos cinemas. "A televisão brasileira é uma das melhores do mundo. Por isso o produto áudio-visual de consumo da classe média e das mais baixas [brasileiras] é a TV."

O maior exemplo disso é a rede Globo, que, de acordo com Charlone, é muito astuta. "A Globo pega assuntos em voga e faz uma minissérie, uma novela. Ela tem diversos núcleos, da mais ultra-direita até o vanguardismo de Guel Arraes. Ela consegue pegar o público."

Para o diretor, essa relação inversa entre TV e cinema ocorre porque o espectador quer se ver representado nas telas. Quando isso ocorre nas telinhas, não haveria a necessidade de procurar referências nos telões de cinema. "A TV cubana, por exemplo, é horrível, mas o cinema de lá é ótimo. Quando os cubanos querem ver a cultura própria, vão ao cinema, pois a TV de Cuba só tem produto importado."

Charlone cita também o Uruguai, país que, com o Brasil, co-produziu "O Banheiro do Papa". No Uruguai, que tem uma péssima TV, o público prestigia o cinema. O povo se sente representado no cinema. Aqui é o contrário. O brasileiro médio faz uma confissão ao ver filme nacional do tipo: 'Tá vendo? É brasileiro'", critica.

Importação

Apesar da qualidade, o cinema uruguaio não é muito conhecido em terras tupiniquins. "Isso acontece porque há um controle das grandes distribuidoras, que têm interesse em distribuir apenas filmes estrangeiros de sucesso", afirma.

Apesar disso, o cinema brasileiro faz muito sucesso no Uruguai. "Eles [os uruguaios] conhecem muito nossos filmes. O Uruguai sempre foi um grande consumidor de cinema internacional."

Essa "importação" de filmes ocorreria devido à pequena produção cultural do país. "É um país muito pequeno, que tem uma necessidade de produto cultural."

DVD

O diretor também critica o modo como os longas são lançados. "Queria ter lançado 'O Banheiro do Papa' no cinema e em DVD com preço popular ao mesmo tempo. Você faz um baita esforço, junta uma grana e acaba lançando em cinco salas, em duas cidades, num país deste tamanho."

Ele acredita que, com o lançamento simultâneo, mais pessoas assistiriam ao longa. Além disso, a pirataria seria coibida. "De repente lança em uma sala por cidade, para quem quiser ver na telona, e põe o filme em DVD em todas as bancas do Brasil. Quem sabe coloca na versão da banca um ingresso para assistir no cinema.", afirma.

"Banheiro do Papa"

"O Banheiro do Papa" recebeu seis prêmios no Festival de Cinema de Gramado e foi eleito o melhor filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2007.

O longa conta a história de Beto, um contrabandista que pretende lucrar com a visita do papa João Paulo 2º à pequena Melo --cidade uruguaia próxima à fronteira com o Brasil. Para tanto, constrói um banheiro em frente a sua casa. O problema é que o apelo turístico da visita do pontífice é superestimado pelo povo da cidade, e no final, dos 50 mil devotos esperados, apenas 8 mil vão assistir ao papa.

O repórter PAULO TOLEDO PIZA viajou a convite da organização do festival.

 

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