"Moby Dick" ataca em nova tradução
MARCOS STRECKER
da Folha de S.Paulo
Chamai-me Ismael. Podem me chamar de Ishmael. Meu nome é Ishmael. Como você traduziria a frase inicial (Call me Ishmael) do clássico "Moby Dick", de Melville? Isso não é um detalhe qualquer. Para a revista "American Book Review", é a expressão inicial mais famosa da história da literatura.
Na nova versão que chega às livrarias, é "Trate-me por Ishmael". A expressão defendida pela tradutora Irene Hirsch estará consagrada na edição mais completa da obra já lançada no Brasil. Com 656 páginas, é a primeira a reproduzir a edição crítica da Northwestern-Newberry (2001), que incorporou trechos e notas dos originais de Melville, negligenciados desde a primeira versão (1851). A última grande tradução no Brasil data dos anos 70, pela Abril Cultural. E o lançamento ganha importância já que, aqui, a obra foi popularizada sobretudo em versões resumidas.
Além de trazer a íntegra, a publicação que chega às livrarias traz um glossário de termos náuticos (o que é uma bitácula? uma toleteira? selha? mastaréu?), bibliografia, a relação das edições já lançadas no país (a primeira é de 1935) e fortuna crítica. Também é possível acompanhar em um mapa onde se passam os episódios que marcaram (e levaram ao seu naufrágio) a nau multiétnica comandada pelo obcecado capitão Ahab, empenhado em abater Moby Dick, o "Leviatã", cachalote que se tornou assassino "sem razão".
Cânone da literatura americana (tardio, só virou clássico mais de 50 anos depois do lançamento), o texto permite diversas leituras. A dimensão épica e o estatuto shakespeareano (assumido) são apenas algumas das suas facetas.
Entre as diferentes interpretações, a que talvez tenha popularizado o livro é a que o lê como um clássico da literatura de aventura, um marco do gênero. "É o maior livro marítimo já escrito", afirma D.H. Lawrence. A obra de Melville também antecipa Joseph Conrad, o que é natural, já que o autor de "O Coração das Trevas" foi marinheiro exatamente como o autor de "Moby Dick". E a obra de Melville inaugura a mitologia moderna que passou por Julio Verne, de "20 Mil Léguas Submarinas", e desembocou em "Tubarão", de Spielberg, peixe enlouquecido que é um dos principais filhotes de Moby, também furiosamente empenhado em afundar o barco de um capitão "monomaníaco" (a expressão é de D.H. Lawrence).
A base da obra teriam sido relatos dos marinheiros da famosa ilha de Nantucket (nordeste dos EUA, de onde parte de barco o personagem de "A Narrativa de Arthur Gordon Pym", de Edgar Allan Poe). Os caçadores de baleias reais sobreviveram na primeira metade do século 19 a um naufrágio causado pela fúria inexplicável e inesperada de um cachalote. Teriam superado no mar uma jornada que terminou em canibalismo (a história foi contada por Nathaniel Philbrick no livro "No Coração do Mar"). Também pode ter surgido da história da baleia Mocha Dick, que assustava os pescadores da ilha chilena de Mocha no século 19 (a história teria sido lida por Melville).
Para o co-tradutor Alexandre Barbosa de Souza, no entanto, a aventura não é o principal, e ele procurou propositalmente na edição ressaltar a força do texto em detrimento da mitologia ou da iconografia que consagrou o cetáceo. O livro é resultado de um trabalho que vem sendo desenvolvido por ele e pela tradutora Irene Hirsch desde 2003.
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