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Ilustrada
28/04/2008 - 02h17

Leia comentário sobre leitura de poesias eróticas na Virada em SP

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MANUEL DA COSTA PINTO
colunista da Folha de S.Paulo

Leia comentário de Manuel da Costa Pinto, colunista da Folha, sobre o "Desconcertos Eróticos", leitura de poesias eróticas neste domingo na Casa das Rosas, na Virada Cultural, em São Paulo:

"Fazer literatura erótica em plena era dos sites pornográficos e canais de sexo explícito na TV a cabo pode soar tão anacrônico quanto vetustas piadas de salão. E, no entanto, a Virada Cultural conseguiu abarrotar o saguão da Casa das Rosas para um recital com três representantes da chamada poesia obscena: Glauco Mattoso, Luiz Roberto Guedes e o colunista da Folha e escritor Xico Sá.

A julgar pela reação hipnotizada do público e pela qualidade dos textos, essa poesia consegue introduzir (sem duplo sentido...) na lírica algo que falta à indústria pornográfica: humor, inteligência, criatividade.

Mediado pelo escritor Claudinei Vieira (que coordena a série Desconcertos), o encontro começou com Xico Sá lendo um poema de circunstância inspirado no desaparecimento do padre que subiu aos céus em balões de gás.

Intitulado "Quase um Rondó Safado do Padre Voador", o poema descreve o dito cujo como um Robinson Crusoé vivendo fantasias eróticas numa ilha deserta. Foi um preâmbulo ameno para a sacanagem que rolou em seguida, começando pela leitura de trechos do "Manual de Civilidade Destinado às Meninas para Uso nas Escolas" --espécie de bula com regras para uma luxúria decorosa: "Não diga: Acabo de gozar como uma louca./Diga: Sinto-me um pouco fatigada.// Não diga: Ninguém me chupa como você/ Diga: Eis a língua universal" --recitou Xico Sá, entre outros versos menos publicáveis.

Coube a Glauco Mattoso contextualizar a longa tradição que vem da poesia fescenina da Antigüidade, passa pelos catecismos libertinos do século 18 e chega, por exemplo, ao "limerick", gênero anglo-saxão praticado por Luiz Roberto Guedes. Para dar exemplo desse tipo de trova satírico-escatológica, Guedes leu uma série que começa com uma homenagem à lírica latina: "Um romano chamado Brutus/ fodia uma puta, abruptus./ Mas antes do jato,/ sofreu um infarto/ morreu num coitus interruptus."

O momento mais obsceno da noite foi a leitura que Glauco Mattoso fez de sonetos cujos títulos falam por si só: "Onanista", "Punheteiro", "Buceteiro" e por aí vai, com versos de um poeta assumidamente gay, mas que celebra a safadeza sem distinções de sexo e tara: "Ó gueixas, odaliscas, felatrizes!/ Desejo vocês todas aos meus pés,/ chupando-me e se dando por felizes!"

 

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