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Ilustrada
04/05/2008 - 10h43

Para Angeli, repertório ideológico de personagem está datado

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ERNANE GUIMARÃES NETO
da Folha de S.Paulo

Meiaoito morreu. Criado pelo cartunista Angeli em suas tiras para a Folha nos anos 1980, é baseado no típico revolucionário comunista de botequim, um tipo cada vez mais difícil de achar. Nas páginas do jornal, talvez só apareça como fantasma: Meiaoito foi atropelado por um caminhão em tira publicada no dia 20 de julho de 2007.

Seu criador reconhece que, como tipo urbano, o pseudoguerrilheiro está datado, apesar de ver "resquícios" recorrentes, por exemplo nas invasões a universidades públicas brasileiras: "No meio da ocupação, há um teatro muito bem armado, de uma peça já um pouco antiga. A função do humor é mostrar esse teatro".

Folha - O que Meiaoito tem a ver com Maio de 68?

Divulgação
Meiaoito (dir.), personagem do cartunista que satiriza o movimento de maio de 68
Meiaoito (dir.), personagem do cartunista que satiriza o movimento de maio de 68

Angeli - É uma referência a um tipo característico da época, que incorporei ao Meiaoito: aquele que tinha o discurso, mas não tinha a ação. Fazia a guerrilha dentro do bar, um tipo cheio de regras, que pede carteira ideológica a todo mundo. Não é o ativista que pegou em armas, é aquele que ficou no bar --sua história de luta só existiu na cabeça dele.

Esse tipo vem do Maio de 68, mas tem muito a ver com o final dos anos 70 e o começo dos 80, quando a idéia de uma "convocação geral" já tinha se dissipado. Ele ficou. Perdeu o bonde da história.

Porém continuou proferindo palavras de ordem e julgando as pessoas no bar.

Folha - E agora ele morreu?

Angeli - Aparentemente morreu. Eu fazia charges para a Folha desde 1975 e, quando passei a fazer tiras, em 1983, criei uma leva de personagens. Ele foi o primeiro. Logo coloquei Nanico como seu companheiro. Um, seco e moralista; outro, que queria soltar as plumas.

Meiaoito foi atropelado por um caminhão da Coca-Cola. Não considero uma morte definitiva, mas me sinto bem deixando-o de lado. Antes da morte, fez uma revisão, conversou com [fantasmas de] Lênin, sua mãe e quase admitiu que era tudo uma fantasia.

Folha - Personagem e autor concluíram que esse tipo é datado?

Angeli - Bastante datado. Vejo resquícios aqui e ali, mas são pequenos. É uma tentativa de reviver uma época emocionante, de luta. Essa época ficou lá. Se houver possibilidade de luta hoje, não pode ser igual.

Folha - Um hábitat provável para seu renascimento seria o ambiente estudantil?

Angeli - Seria, mas não tenho vontade de mexer mais. Na construção dessa suposta morte, cuidei de fazer com que o personagem se mostrasse por inteiro. Achei que era melhor eu lavar a alma dele. E assim pensava a tira, sem plano.

Folha - Que influências tem do ano de 1968?

Angeli - Em 1968 eu tinha 12 anos, já sentia o cheiro de alguma coisa, que eu não entendia, mas sabia que estava acontecendo. Participei de uma militância capenga --meu lance sempre foi com a delegacia de costumes, não a política.

Até hoje existe o eco de 1968. Mas nos anos 80 havia uma mistura: bandeiras comportamentais, uma mistura da luta daqueles que resistiam à Meiaoito com aqueles que queriam pintar o cabelo de vermelho, ter uma banda. Eu era mais do lado do cabelo vermelho.

Folha - Como interpreta 1968?

Angeli - Não é uma data solitária. Faz parte de uma gama de revoluções e alterações de comportamento. Eu incluiria os hippies, a discussão sobre ecologia, nos anos 70, e temas que hoje já estão na discussão política oficial, como o uso de drogas. Desde os hippies, é tudo um conjunto, um movimento que inclui 1968, a liberação da mulher, da sexualidade. Cada grupo teve sua função.

 

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