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11/05/2008 - 09h42

Cannes vai lembrar seu festival de 68, interrompido por protestos

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SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

1968 foi o ano em que o Festival de Cannes não terminou. Para o cineasta espanhol Carlos Saura, ele nem sequer teve início.

Em 18 de maio, quando o longa de Saura "Peppermint Frappé" seria exibido na disputa pela Palma de Ouro, um protesto de cineastas cancelou a sessão e deu cabo do festival, cancelado oficialmente no dia 19, sem que houvesse premiação. Eram os gritos de protesto que tomavam as ruas de Paris no Maio de 68 ecoando em Cannes.

Foi a única vez em que uma edição do festival foi interrompida antes do fim. O festival deixara de ser realizado nos anos pós-guerra de 1948 e 1950, por falta de verbas. A guerra também adiou o início do festival, de 1939 para 1945.

A edição de 68 começou em 10 de maio, com uma sessão de "E o Vento Levou..." (1939) em homenagem à atriz Vivien Leigh, intérprete de Scarlett O'Hara, que morrera em 67, e sofreu atrasos na agenda dos dias seguintes, por causa da greve de serviços na França.

Passados 40 anos, o 61º Festival de Cannes, que começa na próxima quarta, irá rever com uma homenagem aquela edição, em que o festival foi tragado pelos fatos históricos.

Saura voltará a Cannes para exibir "Peppermint Frappé", no qual os dilemas de um triângulo amoroso metaforizam a opressão do regime franquista.

Desta vez, o filme faz parte da mostra Cannes Clássicos, com outros quatro títulos abortados em 68 -"13 Jours en France" (13 dias na França), de Claude Lelouch; "24 Heures de la Vie d'une Femme" (24 horas da vida de uma mulher), de Dominique Delouche; "Anna Karenina", de Aleksandr Zarkhi (1908-1997); e "The Long Day's Dying" (o longo dia da morte), de Peter Collinson (1936-80).

Godard e Truffaut

À frente dos que impediram a sessão de "Peppermint Frappé" em 68, estavam Jean-Luc Godard ("Acossado") e François Truffaut ("Os Incompreendidos"), nomes centrais da nouvelle vague francesa. Godard, agarrado às cortinas da sala, impedia a visão da tela e, portanto, a projeção.

Ele e Truffaut, aos gritos, protestavam contra a atmosfera festiva instalada em Cannes, enquanto estudantes e trabalhadores eram reprimidos pela polícia em suas manifestações nas ruas de Paris e Nanterre.

Os protestos de maio de 68, que começaram no meio estudantil, em reação a um projeto de reforma universitária, e tiveram adesão dos sindicatos dos trabalhadores, não poderiam ter a indiferença dos artistas, na opinião de Truffaut e Godard, à qual aderiram alguns membros do júri de Cannes.

O "levante" foi assim noticiado pela Folha na época: "Eram quase 18 horas [do dia 18] quando surgiu [a atriz italiana] Monica Vitti, membro do júri. E então deu-se a surpresa maior: ela, em lugar de ir ao encontro dos demais membros do júri, que tentavam impor a ordem, alinhou-se nas fileiras dos rebeldes, logo depois de ter apresentado sua demissão do júri. Declarou que não podia ficar alheia ao grande movimento que sacudia a França".

Vitti não foi a primeira a desertar do júri, presidido pelo escritor André Chamson. O cineasta Louis Malle abriu a fila. E foi seguido por Roman Polanski e Terence Young.

"As reações dos jornalistas foram contrastantes -clarividentes ou cegas; sombrias ou engraçadas; engajadas ou perplexas; raivosas ou fatalistas", afirma o crítico francês Jean-Christophe Ferrari, em estudo sobre a cobertura do Festival de Cannes de 68 pela imprensa francesa.

O Brasil não teve concorrentes à Palma de Ouro naquele ano. Nas 20 edições anteriores do festival, o país havia emplacado 16 longas em competição.

Neste 2008, estão na disputa Fernando Meirelles (com "Ensaio sobre a Cegueira") e Walter Salles e Daniela Thomas (com "Linha de Passe"). O longa de Meirelles abre o festival.

Além de apoiar a causa de estudantes e trabalhadores, os cineastas que interromperam o festival defendiam o cinema de autor, em oposição às produções com metas mercadológicas, um tema ainda vivo.

 

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