Rito de fé inspira Nachtergaele em estréia na direção
SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo
O ator Matheus Nachtergaele diz que começou a sentir vontade de dirigir "um pouco naturalmente". Desde o fim dos anos 90, quando a produção brasileira de cinema se reaqueceu, Nachtergaele fez quase 20 filmes. Ele interpretou personagens essenciais às histórias de "O Auto da Compadecida", "Cidade de Deus" e "Amarelo Manga", por exemplo. "Em alguns casos, eu colaborava tão estritamente com o diretor que isso [a vontade de dirigir] foi se engendrando", diz.
A vontade concretizou-se com "A Festa da Menina Morta" e fez de Nachtergaele um diretor detectado pelo radar que o Festival de Cannes usa para identificar novos cineastas capazes de experiências inovadoras no cinema. É na mostra Um Certo Olhar, paralela à disputa pela Palma de Ouro, que Cannes incluiu "A Festa da Menina Morta". A exibição do filme será na próxima quarta.
Por ser o primeiro filme de Nachtergaele, ele concorre à Caméra D'Or, o prêmio de melhor longa de estréia, além do prêmio específico da mostra Um Certo Olhar, concedido ao melhor filme da seção, que reúne 20 títulos.
Honra
"Além da honra de estar nesse recorte de filmes que se arriscam", Nachtergaele contabiliza o efeito prático da visibilidade que Cannes dá ao seu trabalho. "Como é um filme pequeno, de baixo orçamento [foi feito com R$ 1,2 milhão], corria o risco de passar um pouco abandonado aqui no Brasil, por mais que eu seja uma pessoa conhecida."
O diretor diz que a história de "A Festa...", que ele escreveu junto com o roteirista Hilton Lacerda, o "acompanha há uma década". Enquanto filmava "O Auto da Compadecida", em 1999, Nachtergaele viu "uma cerimônia laico-religiosa", misto de forró e celebração de fé, no interior da Paraíba.
Quando percebeu que aquela comunidade atribuía poderes milagrosos aos farrapos de um vestido, único vestígio encontrado de uma garota desaparecida na região, Nachtergaele reagiu com raiva. "Que bobagem! Foi o que pensei", lembra.
A irritação cedeu, mas ele seguiu perplexo com "a capacidade infinita de dar sentido ao que não tem sentido", e passou a ver na cerimônia paraibana um similar da "trajetória do homem". É esse fio temático --a produção de sentido para a vida cotidiana vista como um rito de fé-- que dá corpo às histórias de "A Festa da Menina Morta".
Sangue indígena
O local da festa migrou do Nordeste para uma comunidade ribeirinha do Amazonas, escolha em que o diretor enxerga uma "homenagem ao brasileiro, com 75% de sangue indígena e a influência clara de todas as religiões que formam a fé no Brasil". Desde o primeiro esboço que fez do roteiro, nos 20 dias que passou isolado e escrevendo, após as filmagens de "O Auto...", até a última versão revisada com Hilton Lacerda, Nachtergaele procurou fazer "um retrato íntimo" dos personagens estruturados em torno da menina, ou de seu fantasma.
O principal deles é o "santinho" (Daniel Oliveira), aquele que encontra o vestido. "É um filho de uma suicida, que vive com o pai, numa casa cheia de beatas", conta o diretor.
"Até que ponto ele é livre ou um objeto da comunidade" é uma das indagações do filme. Há muitas mais.
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