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Ilustrada
19/05/2008 - 09h56

Comentário: Atrevida, Zélia Gattai teimou em viver

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MIGUEL ARCANJO PRADO
da Folha Online

A casa de Zélia Gattai e Jorge Amado sempre foi aberta a todos. Posta no alto da rua Alagoinhas, número 33, cercada de árvores frutíferas, a Casa do Rio Vermelho, um dos bairros mais charmosos de Salvador, era ponto de encontro de gente de todos os cantos do mundo e, mais precisamente, de gente da Bahia.

Tuca Vieira/Folha Imagem
570701_1.tif. A escritora Zélia Gattai, viúva do escritor Jorge Amado (1912-2001), em seu apartamento, em Salvador, na Bahia. (Salvador, BA, 01.03.2008. Foto de Tuca Vieira/Folha Imagem) ***ARQUIVO**
Filha de dona Angelina e seu Ernesto, Zélia Gattai conviveu com grandes de seu tempo

Nos últimos anos, Zélia foi para um apartamento e não vivia mais na velha casa, onde estão as cinzas do marido, em um recanto do jardim, debaixo da mangueira. Suas cinzas serão depositadas no mesmo lugar. Com a morte dela, no último sábado (17), a Bahia perde muito de sua graça. E o Brasil também.

Filha e Angelina e Ernesto Gattai, imigrantes italianos que chegaram crianças ao Brasil, Zélia nasceu em 2 de julho de 1916 e foi criada na casa da alameda Santos, número 8, numa São Paulo que há muito deixou de existir. Seu pai foi um dos primeiros mecânicos da capital paulista, responsável pala manutenção de carros de gente graúda da cidade no começo do século 20.

O ideário de justiça social, fruto do aprendizado desde a infância com os pais, nas reuniões das classes laboriosas, transformou-se em militância no Partido Comunista. Foi na organização de um comício comemorativo à liberdade de Luís Carlos Prestes (1898-1990) no estádio do Pacaembu, que teve participação do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), que ela conheceu Jorge Amado (1912-2001), parceiro de toda uma vida, nos 56 anos de cumplicidade.

Reprodução
Zélia Gattai e o escritor Jorge Amado, em foto feita com disparador automático; escritora morreu hoje aos 91 anos em Salvador
Zélia Gattai e seu marido, o escritor Jorge Amado, em foto feita com disparador automático; veja galeria de imagens da escritora

Ao lado do marido, Zélia conviveu com os grandes e os pequenos de seu tempo. Viajou aos confins da terra. Viu e reviu muita coisa. Mas, jamais, tornou-se soberba diante da importância do sobrenome Amado. Tanto que, quando resolveu começar sua carreira de memorialista, aos 63 anos, em 1979, não quis o nome do marido. Preferiu o Gattai para assinar o primeiro tomo de suas memórias, "Anarquistas, Graças a Deus".

Zélia foi simples até quando envergou o fardão, que deixa muitos soberbos, e substituiu o marido na Academia Brasileira de Letras, na cadeira de número 23, cujo fundador foi ninguém menos que Machado de Assis e o patrono, José de Alencar.

Atrevida

No começo de 2002, a Casa do Rio Vermelho estava movimentada. Uma faixa, em frente à entrada, enviada por amigos, a chamava de "tri-acadêmica", devido também às eleições para a Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus, além da ABL. Naquele dia, Zélia confidenciou estar encabulada diante de tantas homenagens.

Filhos, empregados, netos, os cachorros Fadul Abdala e Morita e até uma trupe de teatro querendo autorização para montar o romance de Jorge Amado "Capitães de Areia" circulavam pelo espaço, fazendo-o alegre e cheio de vida, como tanto gostava.

Zélia tentava dar atenção a todos com bolo e refrigerante para os convivas. Quando parte da bagunça se foi, sentou-se diante da TV para fazer o que era uma de suas paixões: ver novela. Com a simplicidade que a acompanhou por toda a vida. Ela costumava dizer que, dos cinco filhos de dona Angelina e seu Ernesto, era a única que teimava em viver. Guerreira, fez isso enquanto pôde. Atrevida, essa menina, diria sua mãe.

Comentários dos leitores
Marcelo Francisco de Assis (7) 19/05/2008 12h44
Marcelo Francisco de Assis (7) 19/05/2008 12h44
SAO PAULO / SP
Zelia, obrigado pela sua formosa contribuição à cultura de nosso país e por engrandecer, ao lado de Jorge Amado, a nossa pátria. Deus te abençoe por tudo. Siga feliz em outra dimensão! 13 opiniões
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MARCEL VALLUIS (1) 18/05/2008 12h21
MARCEL VALLUIS (1) 18/05/2008 12h21
SAO PAULO / SP
Zélia foi-nos um grande exemplo.
Exemplo de companherismo e de atitude; de dedicação pessoal à família e, sobretudo, à cultura brasileira. Viveu adversidades sem jamais ter deixado de ser doce, sempre com palavras gentis e um sorriso no rosto. Adeus Zélia. Vá ao encontro de Jorge. Nós, aqui, continuaremos a nos deliciar com suas lembranças e suas obras!
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Silvio Luiz da Rocha (1) 18/05/2008 10h42
Silvio Luiz da Rocha (1) 18/05/2008 10h42
SAO PAULO / SP
Carta escrita a sra.Zélia Gattai antes de seu falecimento,em agradecimento ao seu trabalho que muito me ajudou em minha busca....obrigado Zélia.
Caríssima senhora Zélia Gattai Amado:
- É um enorme privilégio poder lhe escrever está carta e de haver falado com a senhora no dia 7 de setembro de 2006 pelo telefone. Me chamo Silvio Luiz da Rocha, tenho 38 anos e trabalho no ramo de telecomunicações. Nas horas vagas, sou pesquisador autônomo e voluntário do Museu do Tribunal de Justiça de São Paulo.A muito tempo venho acompanhando suas obras e lhe digo, sem sombra de dúvida, realmente são fantásticas e sensíveis ao público leitor. Em 1984, assisti pela Rede Globo de televisão a mini série "Anarquistas Graças a Deus" e só poderia dizer o quanto sou grato pela senhora por haver escrito esta obra, pois muito me inspirou para que realizasse um dos sonhos que levou 23 anos para logra-lo. No ano de 2002, após uma forte depressão que sofri, busquei forças através das pesquisas genealógicas que iniciei sobre meus ancestrais,( italianos e brasileiros) da parte paterna e materna, começando do ponto zero, fiz em alguns meses uma busca profunda e complexa, porém com grande êxito.
A princípio, comecei pelo meu avô materno (Benedicto Aparecido Gomes de Almeida) o mesmo havia lutado na revolução constitucionalista de 1932 e, ao saber disso, queria sepulta-lo na cripta do monumento do soldado de 32 (Obelisco). A partir daí , começou minha " ODISSÉIA" que me levou depois de alguns meses para Itália. Minha avó materna ( Rosa Olivia Zuin de Almeida ) foi uma das pessoas que entraram nesta pesquisa e, que por sinal, foi uma grande lutadora e minha heroína particular que após tantas lutas pela causa socialista, não havia recebido sequer uma homenagem a sua altura. Muitas portas se fecharam para uma homenagem, creio que pelo fato dela ser comunista, pois ninguém se mostrou interessado em fazer nada . Minha luta foi difícil e árdua , porém ao acessar a internet, após explicar a eles o ocorrido, consegui através de um site, uma homenagem a ela, pelo Partido Comunista de Madrid, com o título: "ROSA OLIVA, HISTÓRICA LUCHADORA COMUNISTA BRASILEÑA". Os espanhóis foram muito sensíveis ao meu apelo e fiquei surpreso com tal homenagem, pois minha avó abriu o espaço "BRASIL" que até então não havia neste site e, que sem dúvida nenhuma, enriqueceu mais a presença das mulheres socialistas brasileiras.
Quanto a Itália, bem, seria uma longa "giornata" contar tudo, porém vou tentar ser breve. Após haver feito as homenagens aos meus avós, busquei saber qual origem era minha avó materna, a Rosa, e comecei a vasculhar pela internet de onde vieram os pais dela. Procurei pela minha bisavó materna ( Luigia Bellotto) que viera da região do Veneto-Treviso, aos 10 anos de idade, com seus pais e mais 4 irmãos. Ela havia vivido no interior de São Paulo ( Caçapava) e lá ,conheceu meu bisavô materno ( Prodoscimo Zuin ),ele da região do Veneto-Padova, veio ao Brasil em 1896, após ficar viúvo e conheceu minha bisavó Luigia ao chegar ao Brasil, onde depois contraiu matrimônio. Depois de obter estas informações (pois até então não tinha nenhuma evidência) obtive tudo através de muito esforço e consegui encontrar meus parentes de origem italiana, através de documentos que o governo italiano me enviou e que foram conclusivos para alcançar a outra parte de meus ancestrais que ficaram na Itália.Realmente foi uma grande festa, pois além de descobrir outra parte de minha família, ganhei como prêmio as passagens para viajar e conhecer meus parentes em 2003.
Onde entra os "Anarquistas Graças a Deus" nesta história? Bem, entra o espírito sonhador dos italianos de uma vida melhor e digna; a luta pela causa do povo, dos operários e de todos que sofriam as injustiças sociais da época- como foi a luta de sua mãe; o esforço e a dedicação de seu pai em relação a vida e a família e, principalmente a garra de um povo, onde espelhei parte de minha vida nesta mini série e que tenho muito agradecer a senhora por esse livro que escreveu. Coincidência ou não, somos uma família de 5 irmãos !!!!!
Gostaria muito que a senhora lesse as matérias que envio, não há necessidade de fazer um longo comentário, porém qualquer nota que escreva, sobre qualquer assunto, principalmente sobre minha avó Rosa, ficarei honrado e orgulhoso de saber que a senhora Zélia Gattai Amado leu um "pedaço de minha existência".
Agradeço muito por tudo e aguardo sua resposta.
Atenciosamente
Silvio Luiz da Rocha
São Paulo, 9 de setembro de 2006
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