Ilustrada
24/05/2008 - 10h19

Kaufman estréia como diretor em trama "teatral"

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SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

O 61º Festival de Cannes exibe hoje (24) os últimos dois títulos entre os 22 que concorrem à Palma de Ouro, a ser entregue amanhã (25).

Eric Gaillard/Reuters
Michelle Williams e Catherine Keener estão no elenco do filme "Synecdoche, New York"
Michelle Williams e Catherine Keener estão no elenco do filme de estréia de Charlie Kaufman

O francês "Entre les Murs" (entre muros), de Laurent Cantet, trata da experiência de um professor com alunos de origem imigrante, baixa renda e sujeitos à violência, em Paris.

O alemão "Palermo Shooting" (fotografando Palermo), de Wim Wenders, acompanha um requisitado fotógrafo alemão que abandona a fama e tenta reconstruir sua vida em Palermo, na Sicília (Itália).

O roteirista norte-americano Charlie Kaufman ("Adaptação", "Quero Ser John Malkovich"), exibiu ontem seu primeiro longa como diretor, "Synecdoche, New York".

"Sempre escrevo sobre o que estou pensando. Naquele momento [em que escreveu o roteiro do filme], eu estava pensando sobre como é ficar velho. Essa é a nossa batalha", disse.

No longa, o diretor de teatro Caden Cotard (Phillip Seymour Hoffman) trabalha durante duas décadas na montagem do que pretende ser a sua obra-prima.

A peça é um simulacro da realidade, com o qual Cotard quer refletir sobre o quanto um indivíduo é sujeito de sua própria história. Paralelamente ao trabalho, Cotard experimenta uma vida privada em deterioração, em que passa por dois casamentos e alguns funerais de parentes próximos.

Kaufman enlaça as narrativas cinematográfica e teatral e adiciona elementos de absurdo na produção, que ele descreve como "monumental, com centenas de atores e sets".

Padres e Deus

Também estrearam ontem o cingapuriano "My Magic" (minha mágica), de Eric Khoo, e o italiano "Il Divo" (o divo), em que Paolo Sorrentino traça um perfil feérico de Giulio Andreotti, que foi sete vezes premiê da Itália e deixou o poder sob uma enxurrada de processos criminais e a acusação de envolvimento com a máfia.

"Os padres votam, Deus, não" é uma das frases com que o democrata cristão Andreotti (vivido por Toni Servillo) resume seu pragmatismo no filme.

O canadense Atom Egoyan estreou na última quinta seu "Adoration" (adoração). Com uma história que mistura intolerância racial, o poder multiplicador da internet e o terrorismo pós-11 de Setembro, o filme de Egoyan dialoga com o "Che" de Soderbergh, ao indagar o que significa, nos dias de hoje, a figura de um mártir e por quais causas é legítimo morrer e matar.

Sem favoritos

Na virtual bolsa de apostas da crítica sobre a premiação que o 61º Festival de Cannes anuncia amanhã, não há francos favoritos à Palma de Ouro.

A divisão dos críticos entre admiradores entusiasmados e detratores empedernidos foi a tônica da acolhida aos 19 filmes apresentados até a tarde de ontem no evento.

Na amostragem da revista inglesa "Screen", com a avaliação de críticos de diversos países, o turco "Üç Maymun" (três macacos), de Nuri Bilge Ceylan, exibido no terceiro dia da disputa, manteve ligeira dianteira no restante do festival.

Já para os críticos da publicação francesa "Le Film Français", o favoritismo ficou com a prata da casa "Un Conte de Noël" (um conto de natal), de Arnaud Desplechin.

A tendência do júri presidido por Sean Penn parece insondável. Até ontem não circulavam pela Croisette rumores de vazamento das preferências dos jurados.

No início do festival, Penn afirmou que queria incrementar as chances de distribuição em larga escala dos filmes a serem premiados.

Segundo esse critério, fica em desvantagem, por exemplo, "Changeling", de Clint Eastwood, que tem sua distribuição garantida pela Universal, um dos maiores estúdios norte-americanos.

 

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