Jorge Drexler tenta fazer seu "Araçá Azul" em novo disco
SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo, em Buenos Aires
Já viu um artista não gostar de ser aplaudido? Pois é o que Jorge Drexler pede à sua audiência. "Se vocês sentirem uma vontade irrefreável de bater palmas, por favor, façam isso [estala os dedos]", diz o cantor a uma imensa e surpreendida platéia no tradicional teatro Gran Rex, em Buenos Aires.
| Divulgação |
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| Cantor Jorge Drexler pede que público de seu show estale os dedos, em vez de aplaudir |
Timidez? Sim, só que essa é uma característica do uruguaio já bem conhecida por seus fãs. Há algo mais aí. Ruídos inusitados, ecos e, por que não, o estalar de dedos de um teatro lotado são alguns dos barulhos esquisitos que Drexler, 43, anda processando para compor.
"Cara B", disco duplo que chega agora às lojas, é o registro da turnê que o artista acaba de fazer pelos Estados Unidos, pela Europa e pela América hispânica, e que deve passar pelo Brasil no segundo semestre.
Na capa do álbum, vemos só o cantor e seu violão. É pura ilusão. Por trás do que se escuta nas 32 faixas está o trabalho de dois habilidosos produtores, o catalão Carlos Campi e o argentino Matías Cella. São eles os responsáveis por programar e mesclar a voz de Drexler com sinetas de bicicletas das ruas de Barcelona, som de trens sobre os trilhos, cochichos do público e sinos. Sinos? Isso mesmo.
"Na Espanha, onde gravamos os shows do disco, em toda cidadezinha há uma igreja perto dos teatros, então nos acostumamos a ouvir as 12 badaladas ao fim de cada espetáculo, e elas passaram a fazer parte deles", diz Drexler à Folha, antes do primeiro dos três concertos em Buenos Aires.
"Disparate"
Enquanto o primeiro CD traz a trajetória de um concerto do começo ao fim, o segundo, "Cara C", reúne covers e canções em italiano, catalão, português e inglês. "Estou ousando cantar e até escrever em línguas que conheço pouco ou nada. Essa irreverência para fazer as coisas aprendi com os brasileiros".
Um exemplo mais concreto? "Pegue a letra de "Soy Loco por ti América", do Caetano Veloso. É um total disparate. Há coisas que, em espanhol, não fazem nenhum sentido. A começar por "soy loco por ti" [o certo seria "estoy loco']. Os discos em inglês dele também estão cheios de erros por serem traduções literais do que ele estava pensando ao escrever. É de uma ousadia fantástica."
Cheio de admiração não só pela atitude, mas também pela obra do baiano, Drexler diz ainda que "Cara C" é sua tentativa de fazer um "Araçá Azul" [álbum de Caetano de 1973]. "É um disco cheio de canções malucas, com respirações, experimentações com a voz. Quis fazer algo parecido, ou ao menos com a mesma idéia por trás."
Desde que ganhou o Oscar em 2004 pela canção "Al Otro Lado del Río" (da trilha de "Diários de Motocicleta", de Walter Salles), Drexler continua com um pé no cinema. Atualmente, prepara a trilha da nova produção de James Ivory ("The City of Your Final Destination"), que se passa no Uruguai e na Argentina. "Fazer trilha é diferente de fazer só uma canção. É preciso bolar uma sonoridade. Não sei o que vai sair, mas tem valido a pena pesquisar e me reconectar com a música do interior do meu país."
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