Publicidade

Ilustrada
03/06/2008 - 08h26

Jorge Drexler tenta fazer seu "Araçá Azul" em novo disco

Publicidade

SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo, em Buenos Aires

Já viu um artista não gostar de ser aplaudido? Pois é o que Jorge Drexler pede à sua audiência. "Se vocês sentirem uma vontade irrefreável de bater palmas, por favor, façam isso [estala os dedos]", diz o cantor a uma imensa e surpreendida platéia no tradicional teatro Gran Rex, em Buenos Aires.

Divulgação
As dez (ou onze) mais de 2006 - coluna Sylvia Colombo - Jorge Drexler
Cantor Jorge Drexler pede que público de seu show estale os dedos, em vez de aplaudir

Timidez? Sim, só que essa é uma característica do uruguaio já bem conhecida por seus fãs. Há algo mais aí. Ruídos inusitados, ecos e, por que não, o estalar de dedos de um teatro lotado são alguns dos barulhos esquisitos que Drexler, 43, anda processando para compor.
"Cara B", disco duplo que chega agora às lojas, é o registro da turnê que o artista acaba de fazer pelos Estados Unidos, pela Europa e pela América hispânica, e que deve passar pelo Brasil no segundo semestre.

Na capa do álbum, vemos só o cantor e seu violão. É pura ilusão. Por trás do que se escuta nas 32 faixas está o trabalho de dois habilidosos produtores, o catalão Carlos Campi e o argentino Matías Cella. São eles os responsáveis por programar e mesclar a voz de Drexler com sinetas de bicicletas das ruas de Barcelona, som de trens sobre os trilhos, cochichos do público e sinos. Sinos? Isso mesmo.

"Na Espanha, onde gravamos os shows do disco, em toda cidadezinha há uma igreja perto dos teatros, então nos acostumamos a ouvir as 12 badaladas ao fim de cada espetáculo, e elas passaram a fazer parte deles", diz Drexler à Folha, antes do primeiro dos três concertos em Buenos Aires.

"Disparate"

Enquanto o primeiro CD traz a trajetória de um concerto do começo ao fim, o segundo, "Cara C", reúne covers e canções em italiano, catalão, português e inglês. "Estou ousando cantar e até escrever em línguas que conheço pouco ou nada. Essa irreverência para fazer as coisas aprendi com os brasileiros".

Um exemplo mais concreto? "Pegue a letra de "Soy Loco por ti América", do Caetano Veloso. É um total disparate. Há coisas que, em espanhol, não fazem nenhum sentido. A começar por "soy loco por ti" [o certo seria "estoy loco']. Os discos em inglês dele também estão cheios de erros por serem traduções literais do que ele estava pensando ao escrever. É de uma ousadia fantástica."

Cheio de admiração não só pela atitude, mas também pela obra do baiano, Drexler diz ainda que "Cara C" é sua tentativa de fazer um "Araçá Azul" [álbum de Caetano de 1973]. "É um disco cheio de canções malucas, com respirações, experimentações com a voz. Quis fazer algo parecido, ou ao menos com a mesma idéia por trás."

Desde que ganhou o Oscar em 2004 pela canção "Al Otro Lado del Río" (da trilha de "Diários de Motocicleta", de Walter Salles), Drexler continua com um pé no cinema. Atualmente, prepara a trilha da nova produção de James Ivory ("The City of Your Final Destination"), que se passa no Uruguai e na Argentina. "Fazer trilha é diferente de fazer só uma canção. É preciso bolar uma sonoridade. Não sei o que vai sair, mas tem valido a pena pesquisar e me reconectar com a música do interior do meu país."

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca