Ilustrada
28/06/2008 - 09h46

Orador da abertura da Flip vai abordar Machado de Assis

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MARCOS STRECKER
da Folha de S.Paulo

Em uma Flip (Festa Literária Internacional de Parati) "mais intelectualizada", como definem os próprios organizadores desta sexta edição do evento (de 2/7 a 6/7), um símbolo da academia vai abrir a festa. O crítico literário Roberto Schwarz, um dos mais influentes pensadores da cultura brasileira, será o orador de abertura, na próxima quarta, às 19h. A sua conferência vai abordar Machado de Assis, autor homenageado de 2008.

Sobre sua palestra, Schwarz adianta pouco. "Não vai ser igual ao que já escrevi, mas não vai ser muito diferente, e não vai ser um ensaio para publicação. Digamos que é um desenvolvimento", diz o autor de "Ao Vencedor as Batatas" (77) e "Um Mestre na Periferia do Capitalismo" (90), que mudaram os rumos dos estudos machadianos.

Na entrevista a seguir, Schwarz aborda Machado, cultura e política. Disserta sobre os rumos da crítica machadiana no Brasil e no exterior e afirma que é "uma curiosidade um pouco boba e malsã" saber se Capitu traiu ou não Bentinho.

O crítico comenta o relançamento após 30 anos de "O Pai de Família" (Companhia das Letras), coletânea de ensaios que viraram um marco nos anos de chumbo no regime militar ("o tema da modernização conservadora está presente em todos. Uma parte das matérias se tornou histórica, outra parte continua atual"). Sobre o cenário cultural, Roberto Schwarz diz que "nem a urbanidade de Fernando Henrique nem a determinação com que Lula levou adiante o Bolsa Família convenceram a imaginação dos artistas."

O crítico enxerga pontos de contato entre "Cidade de Deus" ("especialmente o livro") e "Tropa de Elite", de José Padilha. Sobre o filme de Padilha, diz que, "estimulado pela farda e pela empatia com os atores, o espectador pode se identificar à violência desvairada e aprovar inclusive a tortura. Ao que parece é o que aconteceu com boa parte do público". Para o crítico, em "Tropa de Elite", "os fanáticos da justiça vão mais longe que os piores malfeitores. São exemplos da desigualdade degradada."

Folha - O sr. pode adiantar resumidamente qual será a tese de sua conferência sobre Machado de Assis na Flip?

Roberto Schwarz - Vou falar de "Dom Casmurro". Como todo mundo sabe, esse romance é um quebra-cabeça refinadíssimo, inventado para não ter solução num certo plano, o que noutro plano é uma solução muito instrutiva. Capitu teria traído Bentinho, conforme ele mesmo sugere? A traição não será fantasia dele, que é um marido suspeitoso, desequilibrado pelo ciúme? Em quem acreditar? De quem duvidar? O adultério serve de isca. Atrás da curiosidade um pouco boba e malsã de saber se fulana foi ou não foi com beltrano, vão surgindo as questões da sociedade brasileira, que dão originalidade e altura artística ao conflito central.

Folha - Como explicar o interesse que Machado desperta ao mesmo tempo entre a crítica dos países "centrais" e "periféricos"?

Schwarz - A consagração de Machado nos Estados Unidos começou na década de 1950, quando os principais romances dele foram traduzidos. O reconhecimento da sua grande qualidade literária se deu sem levar em conta o Brasil ou a literatura brasileira, que pareciam não ter importância no caso. Na mesma época, entre nós, a crítica dava uma virada em direção oposta. Ela começava a descobrir a ligação profunda de Machado com a literatura brasileira anterior e com as grandes linhas de nossa realidade. O que é mais, estas ligações passavam a ser consideradas como parte de sua maestria artística. Até então elas não haviam sido vistas e o escritor, embora muito respeitado, funcionara como um corpo estranho e um milagre em nosso meio. Noutros termos, armou-se um problema. O leitor estrangeiro culto, conhecedor dos clássicos internacionais do romance, percebe que Machado faz parte da lista dos grandes. Para isso, não precisa do Brasil. Ao passo que uma parte dos leitores brasileiros, preocupada com as nossas peculiaridades e limitações, enxerga a força genial do escritor na profundidade com que soube configurar as questões locais, transcendendo o provincianismo. Ele entrava para aquela mesma lista dos grandes, mas por outra razão. O conflito entre as duas leituras tem substância histórica e merece ser discutido.

Folha - Como o sr. se sente com o relançamento de "O Pai de Família"? Seguindo as suas próprias palavras, quais são os "equívocos" mais significativos que o sr. apontaria em "Cultura e política, 1964-1969"? Ou os maiores acertos?

Schwarz - O livro está fazendo 30 anos. São ensaios escritos entre 1964 e 1978. O tema da modernização conservadora, que a ditadura trouxe ao primeiro plano, está presente em todos eles. Graças à abertura política ulterior, uma parte das matérias se tornou histórica, espero que sem perder o interesse. Com modificações, outra parte continua atual, pois ainda vivemos na sociedade que a ditadura produziu. Os conceitos e as imagens estão no tempo, e a sua alteração ou refutação pelo curso das coisas pode ser tão interessante quanto sua confirmação. Assim, por exemplo, a massa camponesa famélica de Nelson Pereira, Ruy Guerra e Glauber Rocha, intocada pelo consumo urbano, deixou de ser um eixo da imaginação. Noutro plano, há a volta à vida do liberalismo, que entregou os pontos em 1968, quando parecia esterilizado para sempre, mas adiante se casou ao consumismo e agora vai bem obrigado, fazendo estragos de novo tipo. Para concluir, a idéia de que a ditadura só reprimia e não transformava era falsa, como se verificou no momento da abertura, quando a esquerda quis retomar as idéias anteriores a 64 e teve que constatar que aquele mundo não existia mais. Etc.

Folha - Em entrevista à Folha no ano passado, o sr. apontou uma "desigualdade social degradada" bem representada pelo filme "Cronicamente Inviável", por "Estorvo" ou pelo minimalismo poético de Francisco Alvim. O sr. quer comentar?

Schwarz - No plano da cultura, a abertura política não foi o que se esperava. Sobretudo não foi o que ela mesmo esperava. Restabelecida a democracia, as forças que haviam lutado contra a ditadura descobriram, para sua surpresa, que não tinham muito a dizer diante da nova situação do mundo, em que o capital havia derrotado o trabalho de maneira avassaladora. De lá para cá, por mais que se diga, o país foi governado pelo que havia criado de melhor: primeiro a fina flor da intelectualidade de esquerda, depois a liderança sindical do ABC e o PT. Não obstante, o debate intelectual seguiu morno, enquanto não se cristalizava um sentimento novo, incômodo em toda linha, em que entretanto o público mais adiantado julgou reconhecer a realidade. Nem a urbanidade de Fernando Henrique nem a determinação com que Lula levou adiante o Bolsa Família convenceram a imaginação dos artistas, para os quais o espírito do período não estava aí. Em São Paulo, até onde vejo, a discussão recuperou o gume com "Cronicamente Inviável", de Sergio Bianchi. Este mostrava uma burguesia chateada de não viver em Nova York e revoltada com a falta de segurança em casa. Noutras palavras, os beneficiários da situação brasileira a achavam uma porcaria e se sentiam prejudicados. Do outro lado estavam os trabalhadores, impregnados do imaginário anti-social dos patrões e querendo viver como eles, completando a degradação. Acossados pelo desemprego, pela criminalidade, pela prostituição, pelo terror e pela manipulação política, os pobres esperneavam como podiam, sem projeto de luta coletiva. Formando o denominador comum aos dois campos, a disposição generalizada para o trambique. Para voltar à sua pergunta, ambos os pólos da relação estão degradados e até segunda ordem não acham inspiração regeneradora. A atual euforia, ligada à alta mundial das commodities, vai fazer diferença?

Folha - Qual sua opinião sobre o sucesso de "Tropa de Elite", especialmente como contraponto a "Cidade de Deus"?

Schwarz - A novidade e a revelação de "Cidade de Deus" --mais o romance do que o filme-- é o ponto de vista narrativo, interno à vida dos bandidos. Como esta é violentíssima e quase anônima, o leitor não se identifica com ela, embora a veja por dentro e fique estatelado. Também em "Tropa de Elite" o ponto de vista é interno, mas agora à ação da polícia. Estimulado pela farda, pela empatia com os atores, que são astros, e pela missão justiceira, o espectador pode se identificar à violência desvairada e aprovar inclusive a tortura. Ao que parece é o que aconteceu com boa parte do público. É verdade também que o espectador sem queda para os prazeres sádicos pode encarar os heróis com distância horrorizada, como anti-heróis. Nesse caso, ele vê a polícia dividida entre a corrupção e o enlouquecimento, o que não é banal e não deixa de ser instrutivo. Se estou bem lembrado, Eugênio Bucci observou que os bandidos de "Cidade de Deus" têm muito de empresários. Em "Tropa de Elite", dependendo do ângulo, os fanáticos da justiça vão mais longe que os piores malfeitores. São exemplos da desigualdade degradada, ou das afinidades de fundo entre os pólos sociais, pelas quais você perguntou.

 

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