Veja perfil de Tom Stoppard
da Folha Online
Poucos autores, e em especial poucos dramaturgos, consagram um estilo próprio de literatura a ponto de receber um verbete no dicionário. Esse é o caso de Tom Stoppard, 70, cujo adjetivo "stoppardiano" denota uma escola já iniciada com Samuel Beckett (1906-89): a de um tenso diálogo entre filosofia e humor.
| Amie Stamp/Divulgação |
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| O escritor Tom Stoppard, que participa da Flip-2008, em Paraty |
Nascido em 1937, em Zlín, na República Tcheca, o dramaturgo naturalizado inglês talvez seja mais conhecido por aqui pelo roteiro de "Shakespeare Apaixonado", filme de 1998, vencedor de sete estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e melhor roteiro, prêmio este que Stoppard dividiu com Marc Norman.
Sua estréia no teatro se deu com "Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos" (1966), peça em que põe em xeque duas personagens secundárias de uma das maiores obras de William Shakespeare, "Hamlet".
Stoppard discute aqui o caráter "secundário" das personagens ao contrapor a história principal do príncipe da Dinamarca como pano de fundo ao jogo retórico que deve ser devorado pelo leitor/espectador aos solavancos, como soluços ou engasgos de ordem metalingüística. O diálogo desdobra-se em muitas camadas, que vai da ordem metafísica de cada indagação das personagens e chega à reflexão da função do teatro.
A influência de Beckett não é frase pronta nem mera nota de rodapé. O uso que Stoppard faz de trocadilhos se espelha diretamente não apenas na obra mestra de Beckett, "Esperando Godot", mas também nas histórias de Lewis Carroll (1832-98), onde narração e [uso da] linguagem se entrecruzam nas armadilhas da ficção. Aliás, assim como Beckett e Carroll, Stoppard ilustra uma situação aparentemente cotidiana com cores absurdas justamente para expor o absurdo de regimes de ordem totalitária.
O diálogo sempre afunila o leitor a um beco escuro em que é preciso guiar-se pelo toque das mãos. É a experiência teatral exponenciada, onde o verbo não mais basta. "Every Good Boy Deserves Favour and Professional Foul" (algo como "Todo Bom Garoto Merece Seus Favores e Infrações Profissionais", de 1977) e "Cahoot's Macbeth" (1979) são exemplos pontuais desse tipo de tratamento temático e estilístico.
De sua produção mais recente, a montagem americana da trilogia "The Coast of Utopia" (algo como "A Costa de Utopia", de 2002) lhe rendeu sete prêmios Tony --o Oscar do teatro--, e talvez a consagração definitiva como um dos maiores dramaturgos da atualidade.
Na Flip, Stoppard falará sobre o processo criativo de suas principais peças, com destaque para "Rock'n Roll" (2006), peça que se dá durante a emergência do movimento democrático no leste europeu, pouco depois de eclodir a Primavera de Praga, chegando à Revolução de Veludo. As perspectivas aqui são do idealista tcheco e da intelligentsia britânica --o diálogo entre a defesa da liberdade e a defesa do proletariado. Vindo pela primeira vez ao Brasil, sua mesa, que leva o nome de "Shakespeare, Utopia e Rock'n Roll", terá como mediador Luis Fernando Veríssimo, que Stoppard diz não conhecer.
Sua presença no evento impulsiona a questão do teatro hoje, além de discutir as estratégias que a linguagem teatral oferece ao espectador para tratar de política e especialmente da crise do modernismo, temas de total relevância para o leitor inserido na sociedade que o rodeia.
Fonte: Flip
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