Veja os destaques da Flip no sábado, 5
da Folha Online
Assim como nas edições anteriores, a Flip deste ano mais uma vez se destaca por sua diversidade: uma ocasião rara em que podemos acompanhar, em um mesmo dia por exemplo, um quadrinista, um psicanalista e um dramaturgo, todos eles estabelecendo um rico diálogo com a literatura em seu sentido mais estrito.
Na mesa 12 (11h45), "A Mão e a Luva" (título-referência a um romance de Machado de Assis), os americanos Neil Gaiman e Richard Price são o ponto de confluência da formação da cultura norte-americana hoje. Gaiman é quadrinista, mais conhecido aqui no Brasil por sua graphic novel (o romance gráfico, em tradução livre) "Sandman - Noites sem Fim" (Conrad, 1989), em que emprega elementos visuais [da tradição do quadrinho às dimensões mais radicais hoje atingidas pelas experimentações gráficas] para resolver suas tramas em paralelo ao texto.
Já Richard Price pode se louvar, por exemplo, por suas parcerias com Martin Scorsese, como no longa "A Cor do Dinheiro", de 1986, o que denota seu relevo no cinema norte-americano. Autor de muitos outros roteiros, Price estreou na ficção com seu "The Wanderers" ("Os Errantes", em tradução livre), de 1974, livro em que relata a infância no Bronx, Nova York, e foi adaptado para o cinema, em 1988, por Philip Kaufman.
Em sua mais recente obra, "Lush Life" ("Vida Exuberante", em tradução livre), de 2008, o autor, depois de mais de cinco anos, retorna ao mundo da literatura para explorar uma história de crime e traições na ilha de Manhattan. Em Price, o enredo, seguindo o legado do universo noir, é o que menos importa: as camadas mais bem estruturadas da sociedade vão se desprendendo uma a uma pelos diálogos bem encaixados com seu contraponto: as personagens que estão à margem e à espera da um narrador ardiloso para trazê-las à tona.
Um pouco mais tarde (15h), na mesa 13, Contardo Calligaris debate com seu compatriota Alessandro Baricco o papel da memória na literatura, como saída para legitimar uma identidade errante (a italiana, a brasileira, a relação com Nova York). Colunista da Folha de S. Paulo, temas como relações pessoais, arte e os choques culturais dão o tom de seus escritos e ressaltam sua posição destacada no jornalismo opinativo brasileiro.
Seu "O Conto do Amor" (Cia. das Letras, 2008) marca sua estréia como romancista e faz da dolorosa busca da memória paterna o seu objeto de estudo.
Ao fim do dia, na mesa 15, o dramaturgo Tom Stoppard falará às 19h a respeito do processo criativo de suas principais peças, desde o seu clássico "Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos" (1966), peça em que dá a duas personagens "secundárias" de "Hamlet", de Shakespeare, a responsabilidade pelo destino da Dinamarca, até o recente "Rock'n Roll" (2006), de tom diretamente político, estabelecendo como cenário o conturbado Leste Europeu durante o processo de abertura democrática.
A presença de Stoppard na Flip ajuda a entender a realidade de um novo teatro, concebido em seus primórdios por Samuel Beckett, onde a linguagem serve mais como armadilha do que instrumento de observação e análise precisas, o que manifesta a fragmentação que cada vez mais estraçalha nossos espíritos.
Fonte: Flip
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