Veja os destaques da Flip no domingo, 6
da Folha Online
No último dia da feira, um dos destaques será justamente a literatura que não lemos. Mas conhecemos, seja por tato social, pretensão intelectual, ou mera estratégia de conquista amorosa (parafraseando Woody Allen). E para pôr em paralelo esse tema ruidoso e controverso, teremos a presença de uma Ana Maria Machado, ocupante da cadeira 1 da Academia Brasileira de Letras, autora de centenas de livros e um dos principais nomes da nossa literatura contemporânea, que, além de sua literatura adulta, tem produção festejada no universo infanto-juvenil.
Na mesa 16, a mais inusitada da feira, às 10h, Pierre Bayard e Marcelo Coelho discutirão como o número reduzido de leitores nos nossos tempos pode ou não justificar a tese de que muito se conhece e pouco se lê. O famoso e ralo conhecimento das ditas enciclopédias virtuais e dos sites de buscas ultrapassou a leitura propriamente dita do livro. Não que haja uma defesa, ou mesmo uma crítica, de um ponto em detrimento do outro, mas certamente a questão é fundamental para considerarmos mesmo a lógica sobre a qual o mercado editorial hoje parece se guiar.
Com seu livro "Como Falar dos Livros que Não Lemos?" (Objetiva, 2008), o parisiense Pierre Bayard questiona as consagradas literaturas obrigatórias: ler um Shakespeare, um Cervantes, ou mesmo, na esfera nacional, um Machado de Assis, não necessariamente significa reconhecer o valor desses autores e de suas obras. Aquele que não leu o livro deve opinar a respeito desse, não exaltando a cultura do "não li e não gostei", mas para impor o seu papel cultural dentro de uma sociedade que é formada por leitores e também por não-leitores. Trata-se aqui de libertar a literatura de imposições que parecem mais sociais do que pertencentes a seu próprio domínio.
Para o ensaísta, ficcionista e articulista da Folha de S. Paulo, Marcelo Coelho, as teses de Bayard devem providenciar bastante material para um debate quase providencial no nosso país: em pesquisa recente (28 de maio de 2008) realizada pelo Ibope, a pedido do Instituto Pró-Livro, 45% dos brasileiros afirmaram que não gostam de ler; e mais: dentre aqueles que dedicam seu tempo livre para ler, os livros são preferidos apenas para leituras mensais (como afirmam 14%).
Referência para quem faz e quer fazer crítica cultural, o livro "Crítica Cultural: Teoria e Prática" (Publifolha, 2006) aborda questões como a indústria cultural, a influência do marxismo na crítica brasileira, e os mais freqüentes equívocos feitos no Brasil. Oferecendo ao leitor uma visão diacrônica, amarrada pela trajetória histórica da atividade crítica, Coelho examina o olhar cultural, graças a sua capacidade de observação e seu raciocínio intelectualmente poderoso.
Logo depois, às 15h, na mesa 18, Ana Maria Machado falará ao público de Paraty com Luiz Fernando Carvalho e o embaixador e crítico Sérgio Paulo Rouanet. Autora de mais de cem livros, com obras traduzidas em diversas línguas, Ana Maria, da Academia Brasileira de Letras, dará sua valiosa contribuição na discussão a respeito da atualidade de Machado de Assis, o homenageado do ano.
Por sempre ter tratado de aspectos bastante variados de nossa cultura, a autora fecha os debates promovidos pela Flip não só com a propriedade de ocupar uma cadeira na Academia fundada por Machado, mas também por realçar o aspecto versátil do evento: intensa ativista na promoção da leitura, é o contraponto perfeito com o debate anterior.
Fonte: Flip
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