Órfã, Suécia promove 1ª semana Bergman após morte do cineasta
DIÓGENES MUNIZ
enviado especial da Folha Online à ilha de Farö (Suécia)
Como superá-lo? Quase um ano após a morte de um de seus filhos mais ilustres, é essa a pergunta que paira (sem resposta) sobre a Suécia, onde termina neste domingo (29) a 15ª Semana Bergman, a primeira desde a morte do cineasta.
| Seijbold Gunnar/Efe |
![]() |
| Bergman comparecia a todos eventos em sua homenagem na ilha; cineasta morreu em 2007 |
O evento acontece em uma remota ilha com cerca de 600 habitantes situada no leste do país. O acesso só é possível pelo mar Báltico. Ventos fortes e planícies de pedra e pinheiros compõem a paisagem austera, às vezes hostil, do lugar escolhido por Ingmar Bergman (1918-2007) como lar, local de filmagens e leito de morte.
É neste cenário que cineastas, atores, turistas e principalmente fãs do autor de "Morangos Silvestres" se reúnem anualmente para rever obras-primas e discutir seu o legado --ou fardo. O Instituto Sueco de Cinema aproveita também para mostrar sua nova safra de produções. Neste ano, o destaque ficou para o belo "Everlasting Moments", de Jan Troell, ambientado no país durante o século passado.
"Se Bergman estivesse fazendo filmes hoje, ele não teria chance alguma", diz o produtor sueco Martin Thomas Dahlström, para quem o mercado nacional de cinema atualmente é baseado na "camaradagem". Segundo o Instituto Sueco de Cinema, o volume de longas-metragens lançados pelo país caiu de 44 para 29 na comparação entre 2006 e 2007.
| Diógenes Muniz/Folha Imagem |
![]() |
| Lápide que o cineasta Ingmar Bergman divide com sua última mulher na ilha de Farö (Suécia) |
"Bergman tinha muito poder. Ele sabia disso e manipulava esse poder a seu favor", pondera a produtora local Anita Oxburgh, que participou da Semana Bergman para divulgar o longa-metragem "Wolf".
As discussões sobre o futuro da cinematografia nacional, diz ela, não estão atravancadas pelo vácuo deixado por um gênio, mas pela impossibilidade de atingir as máximas disparadas por ele. Ele dizia, por exemplo: "É preciso entreter o público. É preciso obedecer sua consciência artística. É preciso fazer cada filme como se fosse o último."
Tatuagem
Durante a Semana Bergman, que começou no dia 24, também houve espaço para tietagem. Livros, canetas, camisetas e até tatuagens com o rosto de Bergman foram vendidos. Um tour pela ilha de Farö (apelidado pela organização de "Safári Bergman") destrinchou locais onde o cineasta rodou filmes como "Persona", "Vergonha", "Através de um Espelho" e a série "Cenas de um Casamento".
Ao chegar na ilha, é fácil conseguir histórias sobre o temperamento do artista, embora elas possam aumentar de um narrador para outro. Entre idas e vindas, Bergman viveu em Farö por cerca de quatro décadas. Misantropo, conseguiu um acordo informal com os faröenses para que nunca indicassem sua moradia a curiosos.
| Diógenes Muniz/Folha Imagem |
![]() |
| Garoto observa o pôr do sol na ilha de Farö, que serviu de cenário para filmes do cineasta |
O cineasta compareceu, ano após ano, a todos os eventos realizados em sua homenagem na ilha, com exceção de edição 2007, algumas semanas antes de morrer.
No início, ao ser questionado sobre a criação do tributo, agiu com rispidez. O aval só foi dado com a condição de que ninguém chegaria perto de sua residência para incomodá-lo, relatam os organizadores.
Nas últimas celebrações, no entanto, mostrou-se cada vez mais receptivo e interessado na programação, chegando a freqüentar debates e até discutir com os palestrantes.
Seu corpo está enterrado próximo à igreja local, ao lado da última mulher, Ingrid Karlebo von Rosen, morta em 1995. É a lápide mais isolada do cemitério, com vista para o mar.
O jornalista viajou a convite do Instituto Sueco
Leia mais
- Wim Wenders presidirá júri do 65º Festival de Veneza
- Spielberg dirigirá versão cinematográfica da série "The 39 Clues"
- Filmes sobre Suécia e Libéria ganham prêmios Tribeca em NY
- Corpo de Ingmar Bergman é enterrado na Suécia
- Suécia investirá R$ 5,5 milhões para a manutenção das obras de Bergman
Livraria da Folha
- Roteiristas de Hollywood e da Europa comentam seus filmes mais importantes
- Sete apaixonados por cinema apontam seus dez filmes preferidos
- Livro revela as maiores gafes do cinema e aponta mais de 3 mil erros em filmes famosos
Especial




