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Ilustrada
01/07/2008 - 18h18

Leia resenha de "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga", de Ingo Schulze

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da Folha Online

"Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga", Ingo Schulze

Os grandes dilemas enfrentados pelo atual cenário político e cultural europeu, em especial depois da queda do muro de Berlim, são temas trabalhados pelo novo livro do alemão Ingo Schulze, a ser lançado nessa edição da Flip, "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga" (Cosac Naify).

Reprodução
Capa de "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga", de Ingo Schulze
Capa de "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga", de Ingo Schulze

Contos de fato manufaturados "à moda antiga", por seguirem os princípios estruturais da novela antiga [em que há um fio que amarra e puxa uma história à outra], expõem a ferida aberta de um mundo transformado, fragmentado em identidades buscando uma à outra, vítima de um choque lento e sistemático do corpo social. Esse passado recente --e mesmo o mais imediato, do instante cotidiano-- se edifica a partir de uma linguagem simples para adequar-se ao terreno do conto, onde a reprodução do premente, do que se encontra em uma urgência desesperada, dá autenticidade ao relato.

Geralmente na faixa dos 30 ou 40 anos, as personagens de Schulze passam, em cada conto, por um momento imprevisto, uma espécie de revés que, mais que uma epifania joyceana, não se percebe na contigüidade sufocante de sua narrativa. Encerra a sorte de cada personagem à ordenação involuntária do mundo que a rodeia. Um mundo, que pelas profundas transformações recentes, ultrapassa seu controle e, mais, sua própria compreensão.

A sensibilidade de um conto como "Nos Confins da Estônia" sugere ao leitor toda uma vida que está além, e que é contada em suas entrelinhas, em contraste e contraparte do que está retratado na imagem microscópica eleita pela narração.

Há uma perda irreparável em suas histórias no universo dessas personagens, mas, além disso, o autor parece discutir o papel do contar frente a um mundo que lhe escapa --a narração, ainda que seja a única maneira de solidificar a observação desse mundo, se compromete quando o espaço ao redor está reduzido em pequenos estilhaços.

Em outro conto do livro, "Escritor e transcendência", o autor alemão se distancia da tendência, vulgarizada desde a segunda metade do século passado, de uma metalinguagem fácil. Aqui, inventa um narrador na primeira pessoa que também escreve ficção, e que, desde que saíra foto sua em um jornal de Dresden, era chamado de "meu Púchkin" pela vizinha doandar superior.

Temas como as intervenções da Stasi (a polícia política da Alemanha Oriental) antes de 1984, paranóias com conspirações das mais diversas, relação entre realidade e ficção elevada à potência máxima com o papel desse narrador--personagem que se insere em histórias que desdobram pelo conto. O narrador afirma que escrevera sobre a história da vizinha que acabara de contar no conto:

"Eu escrevi sobre Henrietta e sobre você', foi o que eu disse à minha mãe ao telefone. Talvez por meio dessa história pudesse ser caracterizado, melhor do que com explicações digressivas, como as coordenadas e modelos do comportamento do sistema desaparecido ainda se revelam por toda parte.
'Escuta só!', interrompeu minha mãe. ' Acoisa ainda não terminou!'
'A senhora X. deu notícias?'
'Ah, é uma história bem diferente!'"

A sensibilidade com que expõe ao leitor esse "estar ao mesmo tempo no mesmo espaço" soterra por completo a perspectiva, até esse momento, aproximada do leitor. Como a referência ao celular do título, o alcance da linguagem atinge o excesso, ao passo que condiciona essas estruturas verbais sobrepostas uma a outra.

Desmistificando a falsa noção de que a literatura alemã é densa ou cerebral demais, Ingo Schulze lança seu "Celular, Treze Histórias à Moda Antiga" e revela o frescor da mais nova expressão literária alemã, com seu humor permeado pelo peso do muro que caiu, mas que ainda se mantém erguido nas relações sociais mais cotidianas.

 

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