Leia resenha de "Acenos e Afagos", de João Gilberto Noll
da Folha Online
"Acenos e Afagos", João Gilberto Noll
Em sua estréia pela editora Record, João Gilberto Noll narra uma espécie de epopéia às avessas, com uma linguagem calcada na tradição de vanguarda, onde a libidinagem dá o tom para criar uma narrativa cheia de percalços à moda da mais deliciosa prosa nacional.
| Reprodução |
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| Capa do novo livro de João Gilberto Noll, "Acenos e Afagos" (Record) |
Marcada pelo humor, seu "Acenos e Afagos" (Record, 2008) é uma epopéia moderna que dá complemento à sua premiada obra, com cinco livros ganhadores do prêmio Jabuti.
Não à toa o gaúcho releu seus cinco livros anteriores enquanto revisava as provas desse último livro, não só para dar amarra ao todo, mas para levantar os possíveis aspectos comuns que poderiam ser revisados e puxados pelo fio desse longo percurso como ficcionista.
Reconhecendo e legitimando o desajuste identitário presente em toda a sua obra, Noll faz o retrato de um homem sem qualidades, mais ou menos como o fez Robert Musil, em seu "Homem Sem Qualidades", de 1930 (Nova Fronteira), mas aqui sem o mesmo caráter político e existencial atingido na obra do austríaco: elege aqui a libido "quase sempre homoerótica" como afirma Sérgio Sant'Anna na orelha do livro.
Sem aquele tipo de desenfreada busca por expiação de um pecado, escapismo que pode comprometer a qualidade de uma obra literária, quando tornada pretensa ou banal, Noll vale-se do mesmo ardil de "A Fúria do Corpo" (Record, 1981).
Não se trata de quem guia a escrita, que tipo de narrador, mas sim do que parece mover essa história onde transbordam amor, sedução e a constante inquietação do corpo. Como um corpo a narrar e exercer sua sorte sem nenhum tipo de preocupação moral ou moralista.
O único freio de Noll é o da memória das personagens que, para não criar uma postura de autocomiseração ou recriação de uma vida no ontem, deixa vagar suas histórias pela diluição de suas próprias identidades na sensualidade, na androginia e na errância.
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