Ilustrada
02/07/2008 - 07h59

Psicanalista francesa diz que Brasil foi inspiração para seu livro

FABRÍCIO GERARDI
THIAGO BLUMENTHAL
Colaboração para a Folha Online

Foi uma conferência em Belo Horizonte, em 2004, que inspirou a psicanalista e historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco a escrever o seu mais recente livro "A Parte Obscura de Nós Mesmos" (Jorge Zahar, 2008), que será lançado no Brasil durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que começa nesta quarta e vai até domingo (6).

Divulgação
A historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, que participa da Flip-2008
A historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco, que participa da Flip-2008

"De certo modo, o Brasil está presente no livro --aliás, também por ser o meu mais recente livro, é o meu preferido", disse Roudisnesco à Folha Online.

Ouça trecho, em francês, em que a psicanalista fala do Brasil

Ouça trecho, em francês, em que a psicanalista fala do Brasil

A psicanalista explica por que não acredita em uma suposta crise da psicanálise, mas pondera sobre seus riscos, os "freudismos", a literatura como algo independente do viés psicanalítico. Mais: ao falar de seu último livro, Roudinesco diz que o Brasil foi responsável direto por sua última produção.

Leia entrevista concedida à Folha Online por telefone, de Paris.

Folha Online - Cada vez mais há uma tendência de estabelecer a interpretação de obras literárias a partir de um ponto de vista psicanalítico, o que acaba por comprometer, às vezes, tanto a obra como a própria psicanálise. O que a sra. pensa sobre essa tendência?

Elisabeth Roudinesco - Bem, o que mais me interessa mesmo é mostrar como a literatura preparou a psicanálise. Trato, por exemplo, da história na psicanálise na França, especialmente durante o surrealismo, e da literatura como espelho de sua história, sem a interpretação psicanalítica. Quando escrevo sobre a tragédia de Édipo, tento observar justamente como ela foi completamente deformada pelas mais diversas interpretações --trata-se, mais, de um percurso histórico.

Folha Online - Na psicanálise atual, há uma crise por conta dos exageros de uma hermenêutica freudiana e, se sim, como podemos detectar esses exageros? Fale um pouco sobre a psicanálise na França.

Roudinesco - Creio que não há nada em particular na França, prefiro falar em termos mais gerais. Penso que poderia haver uma crise na psicanálise se esta estiver subjugada ao discurso da psiquiatria. Para mim, essa dita crise mais se refere aos inúmeros ismos criados, o que, infelizmente, é um fenômeno comum a qualquer área do conhecimento.

Folha Online - Seu último livro "A Parte Obscura de Nós Mesmos" trata da perversão vista como parte fundamental de nossa sociedade. Isto não seria um paradoxo?

Roudinesco - Talvez sim, não sei, mas busco ultrapassar a mera questão do bem e do mal no homem, como algo que legitime, já é algo que lhe é intrínseco. Fato interessante é que tive a idéia desse livro no Brasil, em Belo Horizonte (MG), onde fiz uma conferência em 2004. De certo modo, o seu país está presente no livro --aliás, também por ser o meu mais recente livro, é o meu preferido.

Folha Online - Parece haver um equilíbrio de linguagem em suas obras. Como não perder o perfil científico de seus livros ao não valer-se de termos técnicos, jargões, ou seja, a linguagem do especialista?

Roudinesco - Apesar de direcionado a um público já com uma formação literária, "A Parte Obscura de Nós Mesmos" pode ser lido por um público mais amplo, por justamente evitar jargões desnecessários - assim, eu me faço compreender. Penso que um livro não deve ser avaliado pelo número de leitores: se por um público grande e leigo, ou se por um público restrito à academia. Antes de tudo, é preciso escrever bem, é isso o que realmente importa.

 

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