Estreante na Flip, alemão Schulze relaciona realidade e literatura
FABRÍCIO GERARDI
THIAGO BLUMENTHAL
Colaboração para a Folha Online
Um dos expoentes da literatura alemã na atualidade, Ingo Schulze fala sobre transformações e literatura. Seu modo de analisar o presente de uma sociedade transformada pela queda de um Muro de Berlim é profundo e preciso.
Em entrevista à Folha Online, Schulze demonstra ter conceitos bem claros a respeito de literatura, de seu papel e das transformações ocorridas na sociedade alemã dos últimos 30 anos.
Primeira participação de um escritor alemão na Flip, Schulze, com sua simpatia discreta e com suas muitas histórias das várias partes do mundo por onde passou, é sem dúvida uma das principais atrações da 6ª edição da festa. Ele falará à mesa 6, na sexta, 4, acompanhado por Modesto Carone e Rodrigo Naves.
Leia entrevista concedida à Folha Online, por e-mail.
Folha Online - Em seu livro "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga" (Cosac Naify, 2008), o sr. parece chamar atenção à dificuldade do viver o silêncio, tão necessário ao escritor em uma era como a atual (a do celular). Como um livro pode levar o título de "Celular" e ao mesmo tempo trabalhar a matéria narrativa à moda antiga? Fale sobre o processo de criação do livro.
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| O escritor alemão Ingo Schulze, que participa da Flip-2008, em Paraty, no Rio de Janeiro |
Ingo Schulze - Esse aparente desacordo surpreendeu a mim mesmo. O silêncio do qual trato é um tipo de sismógrafo, que fala sobre as mutações do mundo. Eu escrevi boa parte dos contos desse livro em 2006, quando busquei, além de uma espécie de isolamento, um retorno à tradição oral, em que cada história puxa a outra e a mensagem é transmitida de pessoa em pessoa. Particularmente, sempre achei os contos tradicionais muito artísticos, por isso procurei também essa forma bem simples. Precisei então dessa herança para contrapor com a era do celular, que começou por volta de 1995 e propagou-se rapidamente, em dois ou três anos. Trata-se de um artifício bem simples, como um contar de histórias hoje.
Tive que interpretar isso por mim mesmo --e isso não é fácil-- e dizer: na era do celular, nós, pelo menos na Alemanha, nos vemos cada vez mais vencidos por problemas diversos, como o empobrecimento do país, entre outros.
Folha Online - Em muitos aspectos, as transformações causadas pela queda do Muro de Berlim servem de inspiração a seus livros. O quanto o sr. acha que a literatura pode afetar a vida dar pessoas, no sentido de um pensamento mais crítico frente à sociedade em que vivem, mesmo quando esquadrinha aspectos específicos dessas mudanças?
Schulze - De fato sou mais leitor que escritor, e, como tal, devo dizer que sem literatura não poderia viver. Não se trata somente de um hobby, mas de algo que eu necessito. Quando acontece de eu não ler por alguns dias ou por uma semana inteira, tenho essa sensação de não viver completamente. Como seria viver sem livros?
De fato, sobre as transformações que acontecem na Europa Oriental, e até mesmo na China, Índia e em outras regiões do mundo, experimentamos essa realidade sempre a partir da literatura.
Folha Online - Quem e como são os alemães depois da queda do muro?
Schulze - Eu considero sempre proveitosas duas ou mais experiências sociais diferentes no mesmo país. Pena que tirou-se pouco proveito dessa relação: a parte oriental desapareceu, enquanto o outro lado piorou. Muito me interessa o que aconteceu no lado ocidental durante o declínio progressivo do bloco oriental. Os problemas se tornam mais sensíveis no leste.
Folha Online - Há sempre uma perda irreparável nas suas histórias, seja em relação à sorte de suas personagens ou na própria narrativa. Mais do que o retrato de um mundo transformado que ultrapassa o controle da personagem, essa perda discute o papel do narrador hoje?
Schulze - Certamente. Muitas de minhas personagens contam o que lhes aconteceu. Como leitor, percebe-se muito rápido o quão inseguro é o narrador. Mas no diálogo entre leitor e narrador, desenvolve-se uma consciência tal que funciona, mesmo em uma epifania cotidiana.
Folha Online - Quão reais são suas personagens e qual a relação entre o mundo narrado e o mundo real?
Schulze - Naturalmente as experiências vêm do real. Mas a invenção pertence à narrativa: a consciência está na cabeça e não no papel. Não creio que o mundo narrado seja menos real que o mundo real, o mundo do cotidiano. Em "Celular, Treze Histórias à Maneira Antiga", o leitor encontra essa tese, de que a vida imita a literatura.
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| Capa de "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga", de Ingo Schulze |
Folha Online - De que modo a experiência na ex-União Soviética influenciou sua visão de mundo? O que o sr. encontrou lá?
Schulze - Como se olha para uma pessoa do Ocidente como alguém que nasceu lá. É difícil generalizar que muitos olham para o sistema oriental com particular desdém. Considero um privilégio poder estabelecer essa diferença, pois conheci o velho sistema e agora estou aprendendo sobre o novo. Ambos iluminam minha visão de mundo.
Folha Online - Li uma matéria em um jornal alemão que afirmava que seu estilo é leve e refinado, algo difícil de encontrar em autores alemães contemporâneos. O sr. concorda com essa afirmação? O que o sr. tem em comum com outros autores de sua geração na Alemanha, qual sua relação com eles?
Schulze - Geralmente quem afirma tais coisas é a crítica especializada. Um autor pode optar por não seguir o influxo de seu país. A literatura alemã é muito importante para mim, gosto desde Alfred Döblin, Joseph Roth, até Kafka (Franz), Uwe Johnson, Peter Weiss, Johannes Brobowski, Wolfgang Hilbig, Katja Lange-Müller, entre muitos outros. Mas sem os russos ou sem a União Soviética, não teria escrito o meu primeiro livro: sem os contos, não teria escrito o segundo e por aí vai. Outra literatura muito importante para mim é a húngara.
Eu me relaciono com muitos colegas, que lêem meus manuscritos e eu os deles, mas não estamos organizados em grupos ou em encontros regulares. No entanto, posso afirmar que, em uma festa de aniversário, quase todos os convidados são escritores.
Folha Online - Quais são os maiores desafios e objetivos em sua escrita?
Schulze - Para mim é uma questão de cada vez mais desenvolver o estilo, e começar sempre algo novo. Não quero ficar sozinho com minha experiência. Quero mostrar o mundo em gota d'água e esperança, que os leitores acreditem, que eu me faça sua voz.
Folha - "Celular" é o seu segundo livro publicado no Brasil. O que mais o senhor sabe sobre o país?
Schulze - Em 2002, estive brevemente no Brasil, em São Paulo, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro e Porto Alegre. É difícil dar uma impressão geral. No Brasil, as pessoas te olham muito mais nos olhos, isso me chamou bastante atenção. Elas vão à rua para olharem umas às outras, achei isso muito bonito, senti saudades, como se estivesse em Berlim. Lembro-me de ter comprado dois ou três cocos, foi incrível.
Achei também muito fortes as diferenças sociais. Não quero me referir com isso somente ao grau de instrução, mas, sobretudo, ao fato de que muitas pessoas, por pouquíssimo dinheiro, vigiavam carros nas ruas. Por muitas vezes me senti envergonhado.
Mesmo nem sempre havendo palavras em comum, devido à distância lingüística, encontrei-me com pessoas muito marcantes.
Folha Online - O sr. está trabalhando em algum projeto novo?
Schulze - Em agosto será lançado um novo livro meu intitulado "Adam und Evelyn" (Adão e Evelyn), um romance sobre a busca do paraíso perdido.
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