Convidada da Flip, psicanalista francesa revela os "perversos" da atualidade
MARCOS STRECKER
Enviado da Folha de S.Paulo a Paraty
Foi depois de uma conferência realizada em Belo Horizonte, em 2004, que a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco decidiu se aprofundar em seu tema mais recente, a perversão. Uma das convidadas da 6ª Festa Literária Internacional de Paraty, ela é a conferencista da segunda mesa do evento, que acontece hoje às 11h45 na Tenda dos Autores, com mediação de Eliane Robert Moraes, professora de estética e literatura na PUC-SP e autora de "Sade - A Felicidade Clandestina".
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| Psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco diz que Brasil foi inspiração para seu livro |
Ainda que não saiba exatamente o que vai falar em Paraty ("nunca fui à cidade, estou encantada de ter sido convidada"), Roudinesco está lançando "A Parte Obscura de Nós Mesmos" (trad. André Telles, ed. Zahar), título que tem a ambição de criar uma "história dos perversos" no Ocidente, expandindo o tema da perversão sexual, que já é objeto de vários estudos especializados.
Em certo sentido um ensaio que dialoga com a "História da Sexualidade", de Michel Foucault, a obra enfoca como cada época definiu a "parte maldita", o lado obscuro de pessoas que as sociedades procuram esconder ("vidas infames, anônimas, miseráveis").
"Meu livro também tem caráter literário", ressalta a autora (não é uma obviedade para uma edição da Flip que tem na interdisciplinaridade uma de suas marcas). O estudo aborda desde o Barba Azul e os santos místicos da Idade Média até personagens da literatura moderna, em especial o Gregor Samsa de Franz Kafka ("A Metamorfose") e o Dorian Gray de Oscar Wilde ("O Retrato de Dorian Gray"), passando pelo obrigatório Marquês de Sade.
Para Roudinesco, no entanto, aos olhos atuais, Sade, o "príncipe dos malditos" --que foi produto do século do Iluminismo e atravessou a duras penas os conturbados anos revolucionários entre várias prisões-- não passa de um "personagem trágico". Ou seja, quase uma figura menor, não-criminal, vista com os olhos de hoje.
O desdobramento lógico do estudo é a abordagem da perversão para fins de Estado e o maior exemplo explorado é o do nazismo, tendo como protagonista Rudolf Röss, comandante de Auschwitz. "O pior é quando a perversão faz o mal em nome do bem", disse a escritora, que tem prestígio como historiadora da psicanálise e é autora de trabalhos importantes como "A História da Psicanálise na França".
Para a sociedade atual, segundo Roudinesco, pedófilos (que substituíram em nossos dias a figura do "invertido") e terroristas são as grandes expressões da figura perversa. Um bom exemplo recente é o do austríaco Josef Fritzl, o engenheiro que manteve durante anos a própria filha prisioneira no subsolo de sua casa.
Para ela, esse episódio moderno representa "tipicamente" o crime da perversidade sexual, "como o famoso 'Vampiro de Dusseldorf' ou os serial killers americanos" (e estes últimos não seriam um fenômeno tipicamente americano, podendo ser reproduzidos em qualquer sociedade). "Fritzl ainda usou um bunker, que lembra a época dos nazistas."
"No Brasil é permitido construir bunkers?", pergunta a autora. "Na França são proibidos, com exceção daqueles abrigos antiatômicos públicos, para o caso de guerra. A Suíça e a Áustria são provavelmente os únicos países da Europa que permitem a sua construção", diz.
Para a autora, no entanto, o crime que é "fruto de um momento de loucura" não pode ser classificado como perverso, já que este pressupõe o deleite e o prazer com o delito cometido. O caso Isabela Nardoni, por exemplo, não se enquadraria na descrição.
Os terroristas, quando manifestam um objetivo político claro, também não se enquadrariam. Já Osama bin Laden é um exemplo de perverso, visto que o ataque de 11 de Setembro foi planejado com o intuito da espetacularização. "Não foi um ato de guerra, mas um espetáculo da destruição de um prédio que não matou apenas americanos, mas pessoas de várias nacionalidades, com extrema crueldade." Para ela, "no caso da Al Qaeda, não há uma finalidade, é o puro espetáculo do deleite da destruição".
No campo da arte, Hitchcock é de certa forma um mestre da perversão já que, segundo ela, "quase todos os seus criminosos são perversos". Para ela, à exceção de 'Psicose', "quase sempre trata-se de um crime perfeito".
Professora na Escola Prática de Altos Estudos, co-autora com Jacques Derrida de "De que Amanhã..." (Zahar), Roudinesco foi uma das principais vozes contra o "Livro Negro da Psicanálise", um compêndio organizado por Catherine Meyer que causou controvérsia na França.
Analisando o cenário atual da psicanálise, a escritora afirma que está ocorrendo uma "medicalização do comportamento" (em paralelo com a visão triunfante da ciência no final do século 19) e particulariza o caso americano: "Medicalizar o comportamento sexual e não ter dinheiro para o serviço público de saúde, isso sim é uma perversão", diz, rindo.
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