Cineasta argentina diz que sua maior influência foi a avó
LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online, em Paraty
A cineasta argentina Lucrecia Martel, que lança nesta sábado (5) durante a sexta edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) seu terceiro longa-metragem, "La Mujer Sin Cabeza" ("A Mulher Sem Cabeça"), disse à Folha Online que suas influências foram as histórias contadas por sua avó. Fora isso, disse que não lia ficção, mas livros técnicos como de ciência, de medicina e alguns ensaios.
| Ligia Braslauskas/Folha Online |
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| Cineasta Lucrecia Martel concede entrevista coletiva em Paraty, onde ocorre a 6ª Flip |
Martel explicou que na Província de Salta, onde nasceu e cresceu [ela foi para Buenos Aires com 19 anos], não havia cinema e que, portanto, ela não teve em sua formação como cineasta uma lembrança de filmes passados em telas, mas, sim, das imagens que se formavam em sua mente quando escutava histórias do uruguaio-argentino Horacio Quiroga (1878-1937).
"Para mim aquilo eram histórias da minha avó. Quando a ouvia, não imaginava que eram de alguém tão conhecido", disse a cineasta.
Questionada pela Folha Online sobre a presença de temas políticos em sua obra, Martel explicou que após o final da década de 70 --a ditadura argentina durou de 1976 a 1983-- formou-se uma geração que não se manifestava, houve uma sensação de torpor e que ela, assim como outros cineastas e intelectuais de sua geração e de países que enfrentaram situações políticas semelhantes às da Argentina, sentiram a necessidade de fazer algo. "Mas eu não busquei isso, foi natural. É uma questão de confrontar a existência individual com a história coletiva", afirmou.
Sobre seu mais recente filme, "A Mulher Sem Cabeça", Martel disse que a idéia partiu da necessidade de mostrar algo muito comum na Argentina, que é a forma que as pessoas têm de deixar passar coisas importantes, relevantes. "Elas simplesmente fingem não ver... é um filme em que se mostra a reação das pessoas em situações sensíveis", disse.
Ela também explicou a importância que dá à escolha do som para os filmes. "Isso realmente é fundamental. O som toca a pele, é uma coisa privilegiada, desperta todo o corpo, nada pode fazer isso. Quando penso no som de um filme, imagino-me submersa em uma piscina" [a saber, a cineasta não entra em piscinas].
Questionada sobre sua opinião a respeito do casal Kirchner (Cristina e Néstor, presidente e ex-presidente da Argentina, respectivamente), Martel afirmou que eles não têm boa comunicação com a população. "Eles têm um discurso político e econômico que é contrário à situação do país."
Nesta sexta, às 11h45, Martel participa de mesa de discussão com o gaúcho João Gilberto Noll, de quem ela disse infelizmente nunca ter lido nada.
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