Ilustrada
03/07/2008 - 16h30

Ator Marcelo Médici leva 120 mil paulistanos às gargalhadas

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ROBERTO DE OLIVEIRA
da Revista da Folha

Sábado de festa em Santo Amaro. Um garotinho se agita de um lado para o outro. Sob seu comando, oito crianças, distribuídas estrategicamente aos fundos do quintal de um casarão. Ao redor deles, como numa arena, parentes dos mais próximos aos mais distantes. Dia de estréia da versão infantil de "Lampião e Maria Bonita", baseada na minissérie de Aguinaldo Silva, exibida pela Globo em 1982, com Nelson Xavier e Tânia Alves. Naquele espaço da zona sul paulistana, os protagonistas do "espetáculo" eram Marcelo Médici, 10, que também acumulava a função de roteirista e diretor, e sua inseparável prima Simone.

Maria do Carmo/Folha Imagem
Ator Marcelo Médici já levou 120 mil paulistanos às gargalhadas com seu espetáculo de humor
Médici já levou 120 mil paulistanos às gargalhadas com seu espetáculo de humor

Foi a primeira peça encenada pelo ator, que ganhou projeção nacional em 2005 com o gago Fladson de "Belíssima", novela de Silvio de Abreu. Por enquanto, Marcelo já levou 120 mil paulistanos às gargalhadas com o espetáculo "Cada um com Seus Pobrema", em cartaz no teatro Shopping Frei Caneca até 3 de agosto. Na seqüência, terá um grande desafio: vai atuar na remontagem de "O Mistério de Irma Vap".

À época de Lampião mirim, o então garotinho morava numa casa antiga no Parque da Saúde. Apesar de espaçosa, ela não oferecia o desenho propício para abrigar um "teatro", como o quintal sombreado de tia Genita, lá em Santo Amaro.

Mas Marcelo logo se despediria daquele "palco", após mudar-se para o Pacaembu (zona oeste), onde passou parte de sua infância. Vive lá até hoje com os cães Preta e Juca, além dos novos agregados, os filhotes Nina e Ula, todos da raça maltês. Até a quarta-feira da semana passada, contava com a companhia da avó Dolores, que morreu aos 93 anos.

Marcelo, 36, lembra que adorava bater perna ao lado da mãe pelas ruas do centro de São Paulo. Henriqueta, que morreu há dez anos, mantinha um cassino clandestino num apartamento de pé-direito alto na rua Barão de Limeira, Campos Elíseos, enquanto o pai se dedicava ao comércio -atualmente, seu Genival, 61, é um dos donos de uma cantina, a Sesto, no Paraíso.

Quando não estava ao lado da mãe, Marcelo ficava aos cuidados da babá Jô. Uma mulata de quase 2 m, um pouco vesga, que gostava de desfilar de calça de lycra branca, collant de cobra e salto alto pelo comércio da simpática rua Tupi.

Só no finalzinho da adolescência, ele descobriu o que há tempos desconfiava. Jô, na verdade, era um travesti. "Um dia vi o nome Jorge no RG. Mas minha mãe disse que era do pai dela. Depois, dona Henriqueta me confessou que não teria coragem de demiti-la por conta disso", diz ele. Jô cuidou de Marcelo por cerca de três meses.

"Saramandaia", o terror

É desse universo de figuras pelo caminho de Marcelo que o ator busca inspiração para criar os seus personagens. O jeito engraçado como fala a faxineira Cleuza, de "Cada um com Seus Pobrema", por exemplo, ele tirou de conversas que ouvia dos parentes paternos, todos pernambucanos, que, por sinal, assistiram à sua "estréia", lá em Santo Amaro.

Não há como negar que Jô também contribuiu muito para o processo criativo do ator. A babá escondia um segredinho, aprendeu Marcelo, mas nunca deixou de ser amável com as crianças. Tia Penha é justamente o contrário: escancara ódio e repúdio contra os pequenos.

Nem só de passado o ator se alimenta. Na época em que interpretava o último mico-leão-dourado da terra, no antigo espaço alternativo Next, bem no coração do centrão paulistano, Marcelo conta que estacionava o carro a três quadras do teatro.

No caminho até lá, observava o comportamento dos travestis que circulavam pela área. "Teve dias que quase me atrasei. Ficava lá, prestando atenção nos gestos, nas gírias. Tudo isso contribuiu para dar forma ao bicho", diz, rindo.

A TV também foi uma fonte. Fã de Oscarito, Marcelo conta que o humor da antiga "TV Pirata" foi o que mais o influenciou. Chico Anysio e Jô Soares completam o elenco.

O ator confessa que nunca foi noveleiro. Vai além. Conta que morria de medo da abertura de ''Saramandaia'' (1976), novela de Dias Gomes repleta de personagens esdrúxulos, como lobisomem e gente que expelia formigas pelo nariz.

Naqueles idos dos anos 70, o garotinho se amarrava mesmo era em "Vila Sésamo", com Garibaldo, o famoso pássaro que contracenava com a novata Sônia Braga.

"'Gabriela' eu não assisti, porque passava tarde da noite e minha mãe não deixava. Mas tenho o disco, de vinil, até hoje", diz ele. Além de outras duas "pérolas": a trilha sonora de ''Grease'' e o LP dos Secos & Molhados, "com aquela capa incrível, espécie de banquete, com a cabeça dos integrantes numa mesa", conta o ator. Além de divertido, eclético esse rapaz.

 

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