Escritor alemão e cineasta argentina abrem terceiro dia da Flip
da Folha Online
As duas mesas da manhã desta sexta-feira, terceiro dia da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), levaram ao público o escritor alemão Ingo Schulze, que participou do debate intitulado Formas Breves, ao lado do escritor e tradutor Modesto Carone e do crítico de arte Rodrigo Naves, e a cineasta argentina Lucrecia Martel, que falou sobre o tema ficções, com o escritor gaúcho João Gilberto Noll.
Schulze, que acaba de lançar "Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga" (Cosac Naify, 2008), foi questionado sobre sua forma de escrever, livre do peso da história nazista da Alemanha, da repressão pré-queda do Muro de Berlim.
Ele explicou que gosta de falar das coisas cotidianas, do estar com a família, comer, beber, divertir-se. "Há, sim, a história, o passado. Hoje em dia achamos que na história da antiga Alemanha oriental tinha algo até que podia ser bom, apesar de toda a repressão. Mas a queda do muro era um sonho. Alguém da minha geração não pode sentir culpa. Eu não tenho essa culpa porque nasci depois da divisão", disse o Shulze, que nasceu em 1962.
Sobre a leveza de seu estilo, argumentou que há momentos que não poderão ser mais vividos e que é muito importante poder admirá-los da maneira correta, como em uma passagem de seu livro em que traduz de forma admirável a presença de uma simples casca de laranja coberta por formigas.
"Na literatura, quando nos aproximamos da epifania, é o mesmo que estar atento ao cotidiano, a coisas simples, como beber e comer. Esse espaço é invisível, onde existe alguém ou alguma coisa que faz a vida valer a pena", disse.
Carone também falou de tempos de repressão, da época do regime militar no Brasil (1964-1985) e do uso da metáfora na literatura. Lembrou de um texto que escreveu em referência à mão pesada de Erasmo Dias, que era o então secretário de Segurança Pública. No conto, ele coloca a situação em torno de um homem que quer controlar o crescimento das unhas e dos pêlos, e que um dia se olha no espelho e pergunta: "O que será que eles [os pêlos] pensam do que está acontecendo?".
Ficções
Na segunda mesa do dia, a união de Martel e Noll foi menos empolgante. A cineasta contou sobre as gravações de seu filme "A Mulher Sem Cabeça", que será lançado neste sábado na Flip, da importância dos recursos sonoros para o cinema e falou também da questão do tempo.
"No cinema é possível unir passado, presente e futuro, e isso é incrível."
A cineasta, que gravou seus três longas-metragens onde nasceu e cresceu, a Província de Salta, expôs sua dependência com as origens. Ela disse que filmar em Buenos Aires seria muito mais barato, claro, mas que sempre que faz um roteiro de um longa tem como cenário Salta.
"Eu gosto de estar lá, a comida é ótima, tem a família, os lugares. A cena é aquela", explicou.
Noll leu dois trechos sobre a libido --um da fase idosa e outro da fase infantil-- e discorreu longamente sobre a forma como está digerindo seu mais recente trabalho "Acenos e Afagos" (Record, 2008).
"Ele acaba de ser lançado, não é fácil. Agora começo a entender algumas coisas das personagens, a vê-las de outra forma", explicou.
O escritor falou também sobre a questão do tempo imposto sobre as cenas de seu livro e mostrou como a questão da libido exacerbada pode transmitir sua grandeza em forma de tempo, na espera, na anulação até a chegada do outro.
"O desejo que ele [personagem] sente é tão forte, que é como se ele se colocasse na posição de lótus para esperar o tempo passar... a vida, a graça só recomeça quando o outro está."
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