Publicidade

Ilustrada
04/07/2008 - 18h22

Pior crime organizado é feito pela internet, diz inglês na Flip

Publicidade

LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online, em Paraty

"A extorsão virtual é cada vez maior e o pior crime organizado atualmente é feito pela internet." A afirmação é do jornalista inglês Misha Glenny, autor do recém-lançado "McMáfia" (Cia. das Letras, 2008) e nome conhecido quando o assunto é crime organizado, devido sua análise e experiência em coberturas de redes de crime pelo mundo.

O tema "a globalização do crime", discutido na tarde desta sexta-feira (4) em mesa da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), perdeu um pouco de sua força com a ausência do jornalista Caco Barcellos, cuja desistência foi anunciada hoje pela organização do evento. Em seu lugar, participou o também jornalista Guilherme Fiúza, autor do livro "Meu Nome Não é Johnny".

Divulgação
Inglês Misha Glenny, que participa da Flip-2008, em Paraty
Escritor britânico Misha Glenny, que participou da Flip-2008, em Paraty

Mediada por Paulo Markum, da TV Cultura, a conversa entre os dois jornalistas acabou virando uma mistura do conhecimento técnico de Glenny com a opinião de Fiúza.

Em sua primeira fala, Glenny citou o cibercrime, explicando como é fácil nos dias de hoje realizar lavagem de dinheiro de forma rápida e barata pela internet. E disse que a extorsão virtual está cada vez mais ampla. "Com um bom 'hacker' é possível encontrar bancos, inclusive brasileiros, que fazem remessas de dinheiro sem perguntar a a origem do valor. Isso tudo em cinco minutos", afirmou.

Glenny chamou de ineficiente o trabalho que as polícias de todo o mundo realizam para combater o tráfico de drogas, que gera dinheiro para o crime organizado.

Na opinião do especialista, que realizou estudos nos países chamados de Brics (Brasil, Índia, China e Rússia), a polícia sabe o que acontece e quão grave é a crise, mas não diz nada porque tal anúncio pode ser desolador e passar a idéia de que a luta está perdida. Ele disse também que falta seriedade no tratamento que é dado ao assunto. "Temos de lidar com o consumo de drogas como adultos. De forma geral, esse debate é infantil."

Sobre a expansão do cibercrime no Brasil, disse que isso se explica pela forma aberta que o brasileiro tem de se relacionar e porque gosta de falar. "Em todos os lugares, quando procuramos a polícia ou os criminosos para falar, há uma dificuldade enorme de conseguir as informações. Isso não aconteceu durante minhas pesquisas no Brasil. Aqui todo mundo gosta de falar e dar depoimentos, fiquei impressionado, foi muito bom", disse Glenny.

Betancourt

Questionado se teria de alterar informações de seu livro --já que dedica um capítulo inteiro à Colômbia-- após a libertação da franco-colombiana Ingrid Betancourt pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Glenny disse que "de jeito nenhum". "Fiquei realmente muito feliz com a libertação de Betancourt. Isso mostra um excelente trabalho da polícia colombiana, o enfraquecimento das Farc e o distanciamento que Chávez [Hugo, presidente da Venezuela] está tomando em relação ao grupo, mas, definitivamente, não significa o fim do narcotráfico na região", disse.

Ele explicou que desde a implantação do Plano Colômbia, há cerca de 7,5 anos, a produção de drogas na região, em relação ao território cultivado para isso, só cresceu, e que 70% dos fundos destinados à Colômbia nunca foram liberados pelo Congresso dos Estados Unidos.

"Johnny"

Já o autor de "Meu Nome não é Johnny" disse que após o lançamento do livro muitos jornalistas o procuraram para opiniões a respeito do crime organizado, e que ele sempre tinha de lembrar que não possui conhecimento neste assunto e que seu livro se trata de pessoa uma pessoa, que é a "história de um único cara".

Questionado sobre a possibilidade de seu livro ser visto como "protetor" dos usuários de drogas brancos e de classe média, como se estivesse sendo condescendente com isso, Fiúza disse que pode ser possível que ele passe sim a mão na cabeça das pessoas, mas é porque avalia que dizer apenas "pare de usar drogas" não leva a nada. Para ele, é preciso usar meios para chegar ao jovem com uma linguagem que ele entenda.

"Eu, quando dou palestras sobre esse assunto, falo de uma maneira que eu possa me aproximar daquele jovem que está ouvindo, de forma que ele não tenha medo. Se eu disser apenas 'pare de usar drogas', aquele que usou e acha bacana se afasta na hora, não é esse o caminho", explicou.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca