Ilustrada
05/07/2008 - 15h02

Encontro de Gaiman e Price na Flip explora técnica de diálogos e criação

LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online, em Paraty

Uma das mais esperadas mesas de discussão desta edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) ocorreu neste sábado, quando reuniu o roteirista e escritor de ficção Richard Price e o criador de quadrinhos inglês Neil Gaiman. A conversa foi mediada por Marcelo Tas.

Após a leitura de trechos de livros dos dois escritores, Tas começou a conversa abordando o emprego do diálogo, tipo de narrativa que ambos dominam bem. Price disse que o diálogo real é um pesadelo, pois para ficar bom ele tem de ser limpo, trabalhado. "Você tem de tirar todos os "ãh", "uhm". É preciso que as coisas sejam um pouco mais ordenadas que a vida real, sem perder a realidade."

Gaiman fez coro à fala de Price, acrescentando que aprendeu a fazer diálogo quando era jornalista e tinha de transcrever entrevistas gravadas. "As pessoas quando falam nunca terminam seus pensamentos, não falam frases inteiras. Então aprendi a interpretar e a transformar os diálogos naquilo que as pessoas queriam dizer, e não no que disseram", disse Gaiman.

Ele explicou ainda que, quando começou a fazer quadrinhos, percebeu que o diálogo real é inútil. "Na fala do quadrinho [aquele balãozinho que fica acima ou abaixo da cena e contém diálogos ou pensamentos das personagens] há 30 palavras no máximo, então você tem de colocar o pensamento todo naquele espaço, e de forma clara."

Price disse também que usa muito o recurso da improvisação em seus textos, como um exercício de representar. Ele afirmou achar importante escrever em ambientes diferentes, e não dentro da casa onde se vive. "Um dia eu estava em casa, escrevendo uma cena, e tenho por hábito falar em voz alta, dando a entonação da coisa. Aí disse: 'Eu quero transar com você', e me dei conta de que minha filha pequena estava de mãos dadas com uma amiguinha, ambas olhando para a minha cara. Já imaginou essa criança chegando a casa dela e dizendo aos pais que ouviu o pai de sua amiga dizer que queria transar com ela?", explicou.

Sandman

Gaiman disse que o processo de ilustração de seus quadrinhos passa por várias fases, pois ele, mesmo de maneira amadora, sempre gosta de desenhar seus personagens, acrescentando que dá total liberdade para os artistas agirem e sugerirem mudanças. Os ilustradores, segundo Gaiman, são escolhidos por indicação ou por material enviado para avaliação às editoras.

Sobre o processo de criação, explicou que tem por hábito dobrar uma folha de papel até que ela fique com 24 quadrinhos. "Isso é muito importante para dar a seqüência tanto nos textos como na imagem. Num romance, tanto faz quando o leitor vai virar a página, mas no quadrinho isso é diferente."

Best-seller

Sobre seu mais recente livro, "Lush Life" (algo como "vida exuberante"), que entrou para a lista de best-sellers do "New York Times", e conta histórias do bairro de Lower East Side, Price mostrou ter feito um longo trabalho de pesquisa. Segundo o autor, A região talvez seja a mais importante de Nova York.

"No passado, milhares de imigrantes chegaram ao local. Hoje a região é meio sentimentalista, todo mundo tem um avô ou um parente que morou ali", disse.

Ele traçou o perfil atual do Lower East Side, falando que as pessoas vão aos cafés com seus laptops, a noite é agitada e já não há mais o perigo de antes. "Eu não sabia o que ia encontrar quando comecei a pesquisar a área. Ainda é um lugar de continuidade, todo mundo sabe quem foi preso, mas não sabe quem se formou na universidade."

Questionados sobre a violência do dia-a-dia, os dois mostraram pontos de vista bastante distintos. Gaiman disse preferir morar em locais que não sejam muito violentos, acrescentando que o fato de ter sido educado como um garoto do campo o inclina a viver em locais onde ele não precise trancar as portas.

Já Price respondeu dizendo que gostaria de esclarecer que ele não vive nos Estados Unidos, mas em Nova York, e que lá não há lugares para se esconder. "Eu prefiro que meus filhos morem em Nova York a aprendam a lidar com a violência diária a viver num bunker", explicou.

Ele criticou a forma preconceituosa como as pessoas vêem a violência e disse que, de uma forma geral, as elas esquecem que 90% dos crimes são realizados por pessoas em suas próprias comunidades.

Internet

Tas citou o sucesso do site de Neil Gaiman, que nasceu como um blog e acabou se transformando numa página que já foi visitada por 1,4 milhão de pessoas.

Ele disse que muitos escritores ainda têm preconceito contra a internet, mas que ele se surpreendeu com o resultado e com a troca que ela pode proporcionar.

Gaiman explicou que o blog foi criado para que ele pudesse contar os bastidores de seu processo de criação e que escrever acabou virando uma mania, uma dependência. "Ele [o blog] nasceu quando eu escrevia "American God", em 2000, e deveria acabar em 15 de setembro de 2001. Mas devido aos pedidos para que continuasse a escrever, após os ataques de 11 de Setembro, não consegui mais parar."

Embora seu site possua um relógio com contagem regressiva que aponta seu próprio fim, previsto para daqui a 12 semanas, o próprio Gaiman admitiu que não sabe se vai parar. "Eu adoro escrever para a internet, contar o que fiz no Brasil, por exemplo. Mas penso que estou a ponto de parar, sempre, logo...".

 

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