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Ilustrada
06/07/2008 - 12h56

Para francês, canonização da leitura traumatiza e ameaça a cultura

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LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online, em Paraty

A primeira mesa do último dia da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) teve como palestrantes o psicanalista e escritor francês Pierre Bayard, autor do recém-lançado "Como Falar dos Livros que Não Lemos" (Objetiva, 2008), e Marcelo Coelho, autor de "Noturno" (Iluminuras, 1992), "Jantando com Melvin" (Imago, 1998) e "Crítica Cultural: Teoria e Prática" (Publifolha, 2006) e colunista da Folha de S.Paulo. A mediação da conversa foi feita pelo psicanalista e também colunista da Folha de S.Paulo Contardo Calligaris.

Bayard leu trecho do seu livro, que analisa a necessidade ou a obrigatoriedade da leitura e a discussão que isso pode gerar. Podemos falar ou refletir sobre livros que não lemos? E que tal a discussão entre duas pessoas sobre um determinado livro não-lido? Para Bayard, a nossa relação com o livro não pode estar relacionada com a imposição que é feita pela leitura.

Coelho tirou risos do público ao dizer que havia lido o livro de Bayard, mas como já fazia tempo esquecera parte do conteúdo. Ele comentou uma passagem do livro em que Bayard fala das dificuldades que enfrentamos quando temos de discutir coisas sobre as quais não temos conhecimento ou falar com o próprio autor de um livro não-lido.

O francês diz em seu livro que autores preferem que não sejam feitos comentários detalhados sobre suas obras, querem apenas elogios, referindo-se ao fato de alguns escritores preferirem o silêncio à surpresa de um comentário. Ele mesmo contou ter passado por uma situação desse tipo. Ao encontrar um escritor francês, ouviu elogios e uma análise sobre um de seus livros, mas discordou totalmente da abordagem dada pelo colega. Bayard afirmou que a situação o deixou tão transtornado [talvez pelo fato de não ter conseguido se fazer entender ou pelo outro ter tido uma compreensão tão distinta da dele] que teve de ir a uma farmácia comprar um ansiolítico.

A mesa teve ainda como discussão a pressão pela absorção compulsiva de cultura. "Acho que o livro tem um lado cínico, quando ele fala que ninguém lê tanto assim, e é também afetuoso tanto com os que realmente lêem como com aqueles que se sentem oprimidos por não ler tanto", disse Coelho. Ele mesmo citou a Flip e disse que não se tratava apenas dos livros que não foram lido, mas de autores que nunca foram vistos pelo público, como alguns presentes na festa literária desta ano.

"Há pessoas que se traumatizaram com a canonização de certos livros que você é obrigado a ler. Essa pressão por livros que têm de ser lidos tem de acabar, porque na verdade isso é uma tentativa de determinar que livros devem ser lidos. As pessoas têm de ler aquilo que querem ler", disse Bayard.

O francês falou dá pressão exagerada existente na França pela obrigatoriedade da leitura. Citou as fichas de leituras que são impostas aos alunos e contou que ele mesmo faz as de seus filhos. "Tornei-me um especialista em preencher essas fichas, mas elas são tão complicadas, pedem tantos detalhes desnecessários para o conhecimento do livro, que meu filho disse estar perdendo o interesse pela leitura. Acho que alguns métodos de ensino têm de ser mudados."

Coelho afirmou que a idéia da obrigatoriedade é ultrapassada, e criticou a disseminação de resumos --feita inclusive por grandes editoras. "As pessoas devem ler, mas não devem ficar aterrorizadas pela obrigatoriedade da leitura", disse.

Questionados por Calligaris sobre a importância da cumplicidade do gosto literário entre casais, Coelho disse achar importante um casal ter gostos musicais e literários parecidos, mas que isso é uma coisa que se aprende sozinho, um mundo onde a pessoa vive com ela mesma. Para ele, o casal deve concordar sobre a paixão pela leitura, não pelo mesmo estilo.

Para Bayard, o mais importante é a multiplicidade de leituras, a troca.

 

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