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10/07/2008 - 17h41

Jornalistas da Globo contam aventura na China

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MIGUEL ARCANJO PRADO
da Folha Online

A jornalista Sônia Bridi, 44, lança nesta quinta-feira (10), em São Paulo, o livro "Laowai (Estrangeiro) - História de Uma Repórter Brasileira na China".

A obra traz o relato dos dois anos (2005 e 2006) em que ela atuou como correspondente internacional da TV Globo em Pequim, ao lado do marido, o repórter cinematográfico Paulo Zero, 50, responsável pelas fotos da obra. Desde 2007, os dois são correspondentes da Globo em Paris, na França.

Divulgação
Pedro Bridi, Paulo Zero, Sônia Bridi e Mariana Bridi na China
A família, Pedro, Paulo Zero, Sônia Bridi e Mariana, posa durante passeio na Muralha

Bridi e Zero montaram a primeira base de uma TV brasileira na China. Em seus lugares ficaram o repórter Pedro Bassan e o repórter cinematográfico Wanderley Serbonchini.

O casal recebeu a Folha Online no fim da tarde desta quarta-feira (9) em uma das mesas da lanchonete da TV Globo São Paulo, para um bate-papo sobre o livro e o período em que a família viveu em Pequim.

Ao saber o nome do repórter, Bridi lembrou-se de uma matéria que ainda não foi ao ar. "Fizemos uma reportagem linda no monte de Saint-Michel, que é o São Miguel Arcanjo, na França. O Paulo fez imagens belíssimas e lembramos a história do anjo guerreiro. A matéria ainda está lá na gaveta do 'Fantástico' (risos)", contou.

Bridi e Zero são pais de Pedro, 6, que estava com apenas três anos quando os jornalistas foram transferidos para a China. Ela ainda é mãe de Mariana Bridi, 23, que se integrou à família em Pequim nos seis meses finais da permanência no país.

Formada em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, Sônia Bridi está na TV Globo há quase 20. Paulo Zero atua na emissora há cerca de 30 anos. Filho de diplomatas, ele só morou no Brasil 17 dos seus 50 anos.

"Depois de adulto, só morei no Brasil aos 42 anos, quando vim trabalhar em São Paulo, depois de Nova York. Não tinha CPF nem carteira de trabalho", conta ele.

Os dois se conheceram no escritório da TV Globo de Nova York, há 12 anos. "Havia sido transferida de Londres contra a minha vontade. O Paulo me acompanhou na minha primeira matéria e vimos que tínhamos muitas afinidades", diz Bridi.

Com o fim recente de seus respectivos casamentos, logo resolveram compartilhar não só o trabalho, como também a vida. "Aprendi a respeitar o destino", fala a jornalista.

"Tem hora em que estou gravando: 'O presidente francês Nicolas Sarkozy...', e o Pedro grita: 'Mamãe, eu quero fazer cocô!'", conta Bridi, rindo, sobre a rotina familiar.

A entrevista foi interrompida algumas vezes por colegas da TV Globo que queriam matar as saudades do casal, entre eles o repórter Márcio Canuto, que acompanhou parte do bate-papo. Leia, a seguir, techos da conversa com o casal:

Folha Online: Como surgiu a oportunidade de ir para a China?

Sônia Bridi: Estávamos em São Paulo havia cinco anos. Tínhamos montado apartamento, mas queríamos novos desafios. O Schroder [Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo] sabia desse nosso interesse e, quando apareceu a China, ele achou que o casal podia entrar nessa aventura. A gente adorou.
Paulo Zero: É claro que fomos forçados por uma oferta irrecusável.

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A correspondente da TV Globo na China Sônia Bridi
Bridi posa em Pingyao; ela foi a primeira correspondente da TV brasileira na China

Folha Online: Houve algum receio em ir para a China?

Bridi: Claro, ainda mais quando se vai com uma criança de apenas três anos. Eu ia ficar longe da Mariana. Meio mundo literalmente longe da minha filha, que estava na universidade [psicologia e artes cênicas] e não podia ir. Além do mais, não falávamos a língua, não conhecíamos os gestos. Você sabe o que é isso aqui [faz um gesto com os dedos da mão]. É o número oito. Essa é diferença cultural. Esse é o lado difícil. Mas, ao mesmo tempo, qual outro lugar do planeta onde tudo está acontecendo senão a China? Há mudanças na economia, na política. É claro que tem a censura, mas até ela é um desafio. Os números grandiosos da mega China nos fascinaram.

Folha Online: Como vocês se viraram com a língua? Imagino que os chineses não falem inglês tão bem assim...

Zero: (risos) É verdade...
Bridi: Eu acho que a geração que vai estar com 20 anos em 2020 vai ser uma geração bilíngüe. Mas nessa geração de agora, que é a minha geração, são raros os que dominam o inglês. Muitas vezes os chineses acham que falam e você não entende uma palavra. A gente teve sorte de achar uma boa interprete. Ela era tão atenciosa que queria até pegar um táxi para nós. Eu dizia, 'espera aí, eu não sou retardada!' (risos). A gente não sabia dizer vá para rua tal.
Zero: Mas a gente sabia falar: direita, esquerda, em frente, pare, ali. Com isso a gente se virava (risos). E a gente também dirigia em Pequim.

Folha Online: Vocês aprenderam mandarim [o idioma chinês]?

Bridi: Aprendemos pouquíssimo, mas o suficiente para fazer piadinhas.
Zero: A gente sabia pedir comida no restaurante.

Folha Online: E como vocês lidaram com a diferença cultural, sobretudo no caso do filho de vocês, que só tinha três anos?

Bridi: A gente queria que ele aprendesse o máximo da cultura chinesa, não tínhamos receio. Isso enriquece uma criança, faz com que ela aprenda a respeitar as diferenças e a não discriminar. O Pedro falava muito bem chinês, mas agora ele diz que esqueceu. Outro dia eu perguntei pra ele: 'Você é Chinês?'. Ele respondeu: 'Não, eu sou brasileiro'. Agora ele se concentra no francês.
Zero: Ele virou nosso tradutor. Ele traduzia o que falávamos para a babá e até nas ruas.

Folha Online: Como vocês lidaram com a censura chinesa?

Bridi: O problema era chegar ao ponto onde a imagem estava acontecendo. Era chegar ou não no entrevistado e ele querer falar. Em 2005, o 'Manual do Jornalista Estrangeiro na China' tinha a lista de cidades que poderiam ou não ser visitadas. O controlador de Pequim sempre precisava saber de nossas viagens, bem como deveria ser avisado o controlador da cidade para onde íamos. A delegacia local é avisada sempre que um jornalista se hospeda no hotel. Você está sempre sob os olhos de alguém.
Zero: Eles não vêem as matérias. Eles censuram as fontes, o acesso. Além de cobrar para fazermos imagens de qualquer monumento.
Bridi: Se você consegue romper o acesso, eles punem quem falou com você, para criar a cultura do medo: se você falar com o laowai [estrangeiro] você será punido. Essa é a mensagem.

Folha Online: Do que vocês têm saudade?

Zero: Comida e massagem (risos). Tinha uma casa de massagem do lado da nossa casa. Às vezes, em Paris, eu chego exausto e a Sônia nunca quer me fazer massagem (risos).
Bridi: Eu sinto falta da curiosidade dos chineses. Cada vez que o Paulo armava a câmera ficava aquele bando de chineses olhando a lente. Eles querem se aproximar do mundo.

Folha Online: Do que vocês não têm saudades?

Zero: De cheiro ruim de banheiro, inclusive o do nosso apartamento.
Bridi: Chinês não sabe fazer encanamento, definitivamente. Eu também não sinto saudade de ouvir barulho de cuspida, de arroto e de pum no avião. Imagina só como era pegar um vôo doméstico com cheiro de pum? (risos) Eu também não sinto saudades de ter que negociar uma matéria por três meses, de não ter acesso à informação. Você sabe que nós jornalistas somos viciados em informação, não é?

Folha Online: E jornalista sem Google é uma loucura...

Zero: É mesmo (risos).
Bridi: Lá você não abre Wikipedia, não abre blog... Vai entrar num site ou no MSN e está bloqueado. O Google não existia para a gente, já que só tínhamos acesso ao Google em chinês, o que não adiantava pra nada. Eu só aprendi a usar o Google no ano passado. Antes, eu não sabia o que era o Google (risos).

Divulgação
Paulo Zero, Dalai Lama e a correspondente da TV Globo na China Sônia Bridi
Paulo Zero, dalai-lama e Sônia Bridi posam após gravação de uma entrevista para a Globo

Folha Online: Vocês tiveram algum choque cultural?

Bridi: O que mais me balançou é a dificuldade que eles têm de mostrar afeto e de se relacionar afetivamente. As crianças são cercadas de carinho mimo e atenção. Aí cresce e os pais, de repente, não tocam mais, não abraçam. Isso para mim, brasileira, foi um choque muito grande.
Zero: Eu já tinha ido três vezes à China, já conhecia. Acho que já esperava por isso. Então não tive um choque cultural.
Bridi: Mas você ficava com raiva quando eles faziam coisas erradas no trânsito (risos).

Folha Online: Quais valores chineses chamaram a atenção de vocês?

Bridi: O valor que eles dão à meritocracia. Você sobe na vida pelo seu esforço, você estuda e consegue melhorar a vida dos seus filhos. A gente é de família que teve o privilégio de ter boa educação e, lá, vimos pais que mal tem dinheiro para comer, mas separam um dinheirinho para colocar o filho em uma escola melhor, porque lá não tem escola pública. São valores que a gente já reconhecia, mas vê-los exercidos em massa nos surpreendeu.

Folha Online: Vocês voltam agora à China para cobrir as Olimpíadas de Pequim?

Bridi: Embarcamos no dia 22 e ficamos cerca de um mês.
Zero: Vou chegar lá e pegar uma massagem logo de cara.
Bridi: Você acredita que o Paulo passou nossos dois anos na China me perguntando: 'Por que você não faz um curso de massagem?'. Olha só, cheio de más intenções (risos).

Laowai (Estrangeiro) - História de Uma Repórter Brasileira na China
Autor: Sônia Bridi (textos) e Paulo Zero (fotos)
Editora: Letras Brasileiras
Quanto: R$ 39,90

Lançamento
São Paulo
Quando: quinta-feira (10), às 19h
Onde: livraria Cultura (av. Paulista, 2073, Bela Vista; tel. 0/xx/11/3170-4033)

Rio
Quando: terça-feira (15), às 19h
Onde: Travessa Ipanema (r. Visconde de Pirajá, 572, Ipanema; tel.0/xx/11/3205-9002)

Florianópolis
Quando: quinta (17), às 19h
Onde: livraria Saraiva do shopping Iguatemi (av. Madre Benvenuta, 687 - 3° andar, Santa Mônica; tel.0/xx/48/3234-3474)

 

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