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11/07/2008 - 09h16

"Teatro brasileiro atual é esboço", diz diretor do grupo Tapa

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LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo

Em "O Ensaio", de Jean Anouilh (1910-1987), nova peça do grupo Tapa, um grupo de aristocratas busca espantar a modorra da estada num castelo campestre, na década de 50.

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"Teatro brasileiro atual é esboço", afirma Eduardo Tolentino, diretor do grupo Tapa
"Teatro brasileiro atual é esboço", afirma Eduardo Tolentino, diretor do grupo Tapa

Decide então encenar "A Dupla Inconstância", texto de Pierre de Marivaux (1688-1763) sobre a paixão de um nobre por uma plebéia às vésperas da Revolução Francesa. "É um texto pré-dilúvio montado num cenário pós-bomba atômica", descreve o diretor Eduardo Tolentino.

Para ele, a indefinição que caracteriza os momentos históricos em que "O Ensaio" e "A Dupla Inconstância" são ambientadas também serve de síntese, nos dias atuais, à dramaturgia brasileira. "Sinto que estamos num vácuo. Ainda não há uma dramaturgia brasileira contemporânea, mas um esboço." O diretor aponta a principal deficiência da escrita ficcional praticada hoje no país. "Há uma concentração em alguns temas, inclusive de gente que não vem desses lugares. Sinto a ausência de uma dramaturgia que fale do que se conhece, que saia do cangaço e do narcotráfico. Queria saber, por exemplo, como é [a vida] na zona leste [de São Paulo], no Morumbi.

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Cena de "Camaradagem", do grupo Tapa, eleito melhor espetáculo em 2006 pela APCA
Cena de "Camaradagem", do grupo Tapa, eleito melhor espetáculo de 2006 pela APCA

Da ocupação da Amazônia à Lei Seca, há uma vastidão de coisas para se falar sobre o Brasil." Tolentino avalia ser necessário um investimento pesado na formação de profissionais: "É preciso realizar seminários, com textos [de participantes] corrigidos e reestudados. O teatro brasileiro tem uma coisa meio maluca: várias dramaturgias se desenvolvem e param. Foi assim com Arthur Azevedo (1855-1908), Nelson Rodrigues (1912-1980), Plínio Marcos (1935-1999) e Ariano Suassuna.

A sensação é que os processos são interrompidos, jogados fora, e começa-se algo inteiramente novo, sem gerar um diálogo que vá se transformando."

Embate

A afirmação vem de alguém com conhecimento de causa: nos últimos 29 anos, o Tapa de Tolentino levou à cena textos de Rodrigues, Marcos, Jorge Andrade (1922-1984), Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) e vários outros autores locais. Longe de ser pessimista, o diretor enfatiza que "tem gente começando a escrever coisas interessantes". "Há uma certa perversidade urbana que aparece de forma curiosa. Mas falta um grande embate conjunto, como houve nos anos 60, quando Plínio Marcos, José Vicente (1945-2007), Antonio Bivar e Leilah Assumpção formaram um grupo dramatúrgico paulistano que disse a que veio."

"Ensaio"

De volta ao "Ensaio", inédito no Brasil, Tolentino conta que a peça estava "no baú de possibilidades" havia 17 anos. "Foi um texto bem namorado. Mas quisemos montar de fato a partir de 2000." Aí veio a crise financeira que quase paralisou o grupo. "Quando começamos [em 79], vivíamos de bilheteria. Hoje, o patrocínio e a subvenção estatal sustentam as produções; passamos dois anos sem nenhum deles", diz Tolentino.

Com a injeção de recursos públicos em 2007, o Tapa reengatou o namoro com o texto de Anouilh, em que o desejo de um conde por uma jovem de origem simples transborda os limites da "peça dentro da peça" -o que desperta o ódio da mulher do nobre. A investigação crítica das classes dominantes, tarefa a que o grupo se dedicou em montagens recentes, segue presente aqui, mas não é o foco. "O paralelo com a contemporaneidade se dá sobretudo no retrato da dissolução das relações afetivas, no esfacelamento do amor", aponta Tolentino.

"O ENSAIO"
Quando: estréia hoje; sex. e sáb, às 21h; dom., às 19h; até 28/9
Onde: teatro Imprensa (r. Jaceguai, 400, São Paulo, tel. 0/xx/11/ 3241-4203); classificação: 14 anos
Quanto: R$ 40 (sex. e dom.) e R$ 50 (sáb.)

 

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