Teatro Oficina estréia "delírio" do outro Martinez Corrêa
LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo
Um príncipe vê sua amada ser levada por uma borboleta negra durante um piquenique nos Jardins da Babilônia.
Na longa busca por ela, esbarra num rei Sol recém-chegado de uma liquidação na José Paulino (templo do consumo no bairro do Bom Retiro, em São Paulo), conhece uma Lua que cantarola "Meu Mundo Caiu" e, por fim, embrenha-se numa selva de Maracangalha habitada por King Kong e por uma Mãe Natureza que espinafra os serviços da Telefônica.
Isso para não falar do ganancioso produtor sir B. de Milho Raton Santos... Sim, é a nova peça do Oficina, "Cypriano e Chan-ta-lan", de Luis Antônio Martinez Corrêa (1950-1987) e Analu Prestes. E sim, o diretor, Marcelo Drummond, reconhece tratar-se de um "samba do crioulo doido": "É completamente antropofágica, tropicalista. Não há regra, é um absurdo, um delírio, um sonho. E sonho não tem lógica. Só atualizei certas referências e me preocupei em ser politicamente incorreto".
Em dezembro de 2007, no aniversário de 20 anos do assassinato de Luis Antônio, o grupo havia feito uma leitura "encenada e festejada" (nas palavras de Zé Celso) do texto. De lá para cá, diz Drummond, a porção musical foi reforçada (com a adição do trio Druques à banda de apoio) e a estrutura original, "deformada": "O Luis jamais faria com tanta gente [além do elenco fixo do Oficina, estão em cena 21 alunos do Bixigão, projeto social mantido pela companhia]. Ele era mais apolíneo, rigoroso. Eu vou na sensibilidade do momento, não sou tão preocupado com a coisa formalmente bem-feita. Busco a energia". Essa energia desvairada é muito bem-vinda, diz Prestes. "[O texto] É alucinógeno, mesmo, totalmente "Alice no País das Maravilhas". Dá para fazer uma coisa enlouquecida."
Do porão
Em 1969, ela entrou no projeto como cenografista e figurinista. Aos poucos, no porão do Oficina, foi ajudando Luis a criar improvisações e colocar de pé a dramaturgia. No fim, levou o crédito de co-autora. "Foi uma farra: inventei um chapéu gigantesco de pastora e quase não entrava no porão", lembra.
A irmã de Luis e Zé Celso, Maria Helena Martinez, prepara um livro sobre o primeiro. O volume terá uma breve biografia dele, análises críticas das obras que adaptou e dirigiu e depoimentos de colegas.
"Ele foi um escafandrista, mergulhou fundo nas nossas raízes. Nunca foi de fazer texto de superfície. Seu maior mérito foi o de valorizar o teatro musicado brasileiro, que vivia na sombra", afirma ela, em referência à premiada (e inacabada) trilogia "Theatro Musical Brasileiro", idealizada por Luis.
CYPRIANO E CHAN-TA-LAN
Quando: estréia hoje; sáb e dom., às 21h; até 16/8
Onde: teatro Oficina (r. Jaceguai, 520, tel. 0/xx/11/3106-2818); classificação: 14 anos
Quanto: de R$ 5 (para moradores do Bixiga) a R$ 30
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