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Ilustrada
17/07/2008 - 22h28

Comentário: Novo Batman supera anterior com Coringa e idéias dos quadrinhos

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VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online

ALERTA: SE VOCÊ É CONTRA "SPOILER" --TEXTO QUE REVELA FATOS CRUCIAIS DE UMA OBRA --, NÃO SIGA EM FRENTE

O espectador vai sair da sala do cinema após as pouco mais de duas horas do filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas", que estréia nesta sexta-feira, com a sensação de que viu um filme melhor que o antecessor na atual série, "Batman Begins".

De fato, ele supera o episódio inicial em muitos aspectos. Mas vai perceber que são tantos os aspectos em que o novo filme supera o anterior, assim como são tantos os que ficam devendo em relação a "Batman Begins", que, se "O Cavaleiro das Trevas" é melhor, é por pouco.

Uma coisa em que o novo filme é inegavelmente melhor é o Coringa, interpretado por Heath Ledger (que morreu em janeiro aos 28 anos em decorrência de uma overdose causada por remédios prescritos). Algo que incomodava no Coringa interpretado por Jack Nicholson em 1989, no "Batman" de Tim Burton, é que ele não convencia como vilão agressivo, como um homem realmente perigoso; ele era, por assim dizer, "brincalhão" demais.

Divulgação
Heath Ledger encarna Coringa no fime "Batman - O Cavaleiro das Trevas"; veja galeria de imagens
Ator Heath Ledger, que morreu em janeiro, encarna vilão Coringa no fime "Batman - O Cavaleiro das Trevas"; veja galeria de imagens

Ledger não: a presença dele é sempre ameaçadora; todo o tempo em que ele está em cena é tenso, ficamos nos mexendo na cadeira para nos prepararmos para o próximo ato violento. Como o "truque de mágica" que ele faz com um lápis quando invade uma reunião dos chefões da máfia de Gotham para dizer que irá matar o Batman por metade do dinheiro das operações do crime organizado.

As piadas desse Coringa não são engraçadas; são cortantes, agressivas -o que não impede o espectador de dar um sorriso nervoso, ou mesmo rir. Como, por exemplo, quando ele se disfarça de enfermeira para tirar o promotor Harvey Dent (já então desfigurado e com sua personalidade dominada pelo "Duas Caras") de um hospital que ele próprio irá implodir -mas não sem antes ter de lidar com o mau contato no botão do detonador.

Batman, a polícia e Dent saem no encalço do vilão, mas ele está sempre um passo à frente de todos --e mesmo quando se põe as mãos nele, ele dá um jeito de escapar. O Coringa deste filme é uma guerra civil de um homem só: mata juízes, civis, policiais e até cúmplices (preste atenção na seqüência do assalto a banco), e cria uma confusão tal que o capitão James Gordon (que neste filme é promovido a comissário) acha melhor chamar a Guarda Nacional para combater. Guarda Nacional... para enfrentar um homem só.

Uma definição bem adequada do Coringa é dada pelo mordomo Alfred (Michael Caine, sempre impecável): para ele, o vilão não age com lógica, não está atrás de nenhum resultado objetivo sobre o qual se possa negociar. "Algumas vezes, as pessoas querem apenas ver o mundo pegar fogo", diz.

Christian Bale é outro ponto forte: mais uma vez se sai muito bem tanto no uniforme do herói como nos ternos caríssimos e muito bem cortados de Bruce Wayne. Ele continua seguindo à risca o conselho dado por Alfred no primeiro filme sobre como um playboy deve se comportar. Em "Batman Begins" ele compra um hotel para suas acompanhantes tomarem banho no chafariz; neste, ele manda juntar duas mesas em um restaurante fino --e ele pode; afinal, é o dono do lugar. A uma festa em sua cobertura, ele chega de helicóptero, acompanhado de três beldades, impressionando todo mundo.

Herbert Tsang/Reuters
Confira imagens da carreira do ator Christian Bale, que volta a interpretar papel de Batman
Confira imagens da carreira do ator Christian Bale, que volta a interpretar papel de Batman

O uniforme mudou --ele encomenda um novo a Lucius Fox (Morgan Freeman), o CEO da Wayne Enterprises e gênio inventor. Precisa de mais mobilidade para a cabeça --com o uniforme do primeiro filme, para olhar para os lados ou para trás, Batman precisava girar o corpo junto. Fox é um personagem estratégico, é o "sidekick" (assistente) perfeito para o herói. Com um parceiro como Fox, o Robin nunca vai ser necessário.

O capitão/comissário Gordon tem um papel bem mais presente na história --e a escolha de Gary Oldman para interpretar o policial foi uma das mais felizes: basta ver o quanto o personagem se aproxima (fisicamente inclusive) do que foi retratado na graphic novel "Batman: Ano Um", de Frank Miller.

As seqüências de ação mais uma vez são de tirar o fôlego. E é de lamentar o que acontece com o "Tumbler" --o "bat-tanque" do primeiro filme--, mas o "Bat Pod" não deixa nem um pouco a desejar (a seqüência do caminhão é impressionante).

O filme ainda tem a seu favor a fotografia: o sobrevôo em Hong Kong é de dar vertigens --e a escapada do Batman de um edifício com um executivo chinês envolvido com os criminosos de Gotham é das melhores do filme. A cena do herói saindo em seu "Bat Pod" de uma via subterrânea em direção à luz é das mais bonitas também.

Sim, mas...

O filme deixa a desejar quando se comparam as duas histórias. Assistir a "Batman Begins" é como ver um campeão em cubo de Rubik (o cubo mágico) montar o brinquedo: não há giros em falso, não há voltas desnecessárias; todo giro do roteiro faz o "clique" certo, nada fica sobrando.

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Confira o trailer do filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas", que entra em cartaz nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros
Confira o trailer do filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas", que entra em cartaz nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros

Já no novo filme, a primeira coisa que causa algum incômodo é a discussão sobre o que é ser o herói que Gotham precisa. Claro que é uma questão relevante: Wayne acha que Dent é o "cavaleiro branco", o homem que a cidade precisa para livrá-la do crime, e Dent acha que o Batman é que está fazendo um bom trabalho. A dúvida, no entanto, parece estar sempre presente e ver essa indecisão se arrastar ao longo do filme acaba cansando um pouco.

Outro ponto fraco são justamente os muitos giros que a história dá: há uma conspiração para matar o prefeito, que ganha uma grande importância; também há um plano secreto da polícia; depois há uma invenção para rastrear pessoas pelos celulares, com a qual o Batman pretende encontrar o Coringa. O dispositivo é genial, mas as cenas dele em funcionamento são frenéticas demais, atrapalha a visão do que está acontecendo.

A seqüência do "experimento social" a que o Coringa submete os tripulantes de duas embarcações --uma com pessoas inocentes e outra com prisioneiros-- parece durar um pouco mais que o necessário... tem lá seu efeito dramático, mas cansa o expectador.

A trilha sonora no primeiro filme foi bem utilizada; no segundo, no entanto, é muito presente. Em "Batman Begins", foi usada com o "timing" ideal. Aqui parece que foi usada em excesso.

Quadrinhos

Reprodução
Confira destaques de Batman em HQ
Confira destaques de Batman em HQ

Ainda que não seja uma adaptação de nenhuma obra específica em quadrinhos para as telas, alguns outros elementos desse universo serão reconhecidos pelos fãs. O Coringa, por exemplo, pergunta em diversas ocasiões se sua vítima quer saber como ele recebeu as cicatrizes nos cantos da boca --e, a cada vez que pode, conta uma história diferente. Isso lembra "A Piada Mortal", a graphic novel de Alan Moore, na qual o vilão diz que se tem de ter um passado, prefere que seja de múltipla escolha.

E a história dele não é contada como foi quando Nicholson interpretou o vilão, seguindo bem de perto a origem nos quadrinhos (e também narrada em "A Piada Mortal"). No filme de Tim Burton, o personagem fica de fato com a pele toda branca, depois de cair em um recipiente com produtos químicos. No novo filme, o Coringa apenas usa maquiagem, o que faz parecer mais verossímil a existência de um criminoso tão violento.

O truque com o lápis também parecerá familiar ao leitor de quadrinhos: o vilão fez um truque parecido na graphic novel "Asilo Arkham".

Outra característica do filme que lembra os quadrinhos: Batman passa a contar com a ajuda (não solicitada) de uma milícia, uniformizada como ele --que mais atrapalha que ajuda. Na graphic novel "Batman - O Cavaleiro das Trevas", de Miller, uma gangue desfeita depois que Batman derrota seu líder passa a ser um grupo de seguidores do herói (somente em português o nome da graphic novel é o mesmo do filme no Brasil; no original, a obra de Miller se chama "The Dark Knight Returns").

 

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