Filme "1,99", de Marcelo Masagão, investiga consumismo
SÉRGIO RIZZOdo Guia da Folha
Comparado a "Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos" (99), primeiro longa de Marcelo Masagão, bem sucedido exercício de colagem, ou ao posterior "Nem Gravata, Nem Honra" (02), documentário sobre as diferenças entre homens e mulheres, "1,99 - Um Supermercado que Vende Palavras" parece superprodução. O princípio de usar uma tese como ponto de partida para reiterada demonstração reaparece, mas os recursos se ampliam: agora no território inequívoco da ficção, o cineasta instala dezenas de atores em um cenário criado para o filme.
Trata-se de um supermercado peculiar. Suas gôndolas não trazem produtos, mas caixas brancas de diversos formatos, com inscrições que remetem a slogans publicitários. Os clientes caminham pelos corredores, enchem os carrinhos com as mensagens de sua preferência e, a certa altura, começam a interagir. Do lado de fora, outras pessoas aguardam a sua vez de entrar. Como na sociedade de consumo, não cabe todo mundo.
Masagão desenvolve a idéia principal com base, entre outras fontes, no livro "Sem Logo", de Naomi Klein, sobre a fetichização das marcas. Longos e cuidadosos movimentos de câmera e a incessante trilha sonora --composta, em sua maioria, pelo belga Wim Mertens-- carregam de virtuosismo a experiência, que poderia, sem prejuízo substancial para o resultado, ser mais breve.

