Luzes "multiplicam" bailarinos em "Sombrero"
ADRIANA PAVLOVA
Colaboração para a Folha de S.Paulo
Antes de mais nada, não espere de Philippe Decouflé uma dança intelectual repleta de reflexões. O coreógrafo francês é mestre na arte de entreter platéias com belas imagens, personagens engraçados e gestual poético.
A mistura, que garante reverências no mundo todo, volta a São Paulo hoje, quando a Cie. DCA (Decouflé & Complices Associés ou Dance Compagnie D'Art) abre, tardiamente, a décima temporada anual de dança do teatro Alfa.
| Arnold Groeschel/Divulgação |
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| Bailarinos dançam espetáculo "Sombrero", em cartaz no teatro Alfa até o próximo domingo |
Decouflé em pessoa não vem, mas, em compensação, diz que mandou um dos seus mais bonitos espetáculos em mais de duas décadas de criações. Para brincar com luzes e sombras, "Sombrero" (2006) traz elementos característicos de sua linguagem: projeções de vídeo (paixão do coreógrafo), um pouco de circo e acrobacia. Tudo ao som da música do inglês Brian Eno.
"É um jogo de imagens fantásticas, uma diversão. Brinco com luzes e sombras e, com a ajuda de projeções de vídeo, um bailarino pode dançar sozinho e ao mesmo tempo fazer duo com outro projetado na tela", disse o coreógrafo à Folha, por telefone. "É um tema aparentemente simples, mas a partir dele fiz um dos espetáculos dos quais mais me orgulho e que me deixa muito feliz."
Curiosamente, o próprio Decouflé diz que "Sombrero" não tem nenhuma grande surpresa.
O diferencial é a mistura de elementos. "Há um pouco de teatro de sombras chinês, de cinema mudo e de projeção que permite que mais bailarinos estejam em cena. Mas novidade mesmo não há, tudo já foi inventado", diz ele, que começou a carreira estudando circo.
Revelado ao mundo em 1992, quando assinou as festas de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Albertville (EUA), Decouflé consolidou aos poucos sua platéia brasileira. A Cie. DCA esteve aqui em 1992, 1996 e, por último, em 2000, com "Shazam!", no mesmo teatro Alfa.
Saga divertida
No começo de "Sombrero", o casal François e Françoise surge como narrador de uma saga divertida, cuja história é apenas desculpa para uma seqüência de imagens fantásticas.
Bailarinos dançam com suas projeções em tamanho família, há jogo de luzes em preto-e-branco, mas também projeções psicodélicas, além de homens com seus grandes chapéus, os sombreros à mexicana. Uma festa de imagens sem muitas explicações teóricas.
"É uma história de amor universal, de um casal que se perde, se procura e se acha. É uma estrutura poética, por isso não vale procurar muitas explicações sobre o que acontece." "Sombrero", afirma o autor, é um jogo de palavras em francês, porque "ombre" quer dizer sombra, e "sombre" quer dizer escuro. "É uma brincadeira, mas também gosto da imagem dos mexicanos com grandes chapéus, os sombreros, que toda criança francesa em idade escolar aprende a desenhar."
Apesar de ter tido mestres como o mímico Marcel Marceau (1923-2007) e o coreógrafo Merce Cunningham, 79, com os quais estudou e trabalhou, Decouflé diz que "Sombrero" não tem nenhum tipo de influência de outros criadores. Ao contrário: "Não há mímica de Marceau, apesar da ligação com filmes mudos em preto-e-branco. Na minha idade, cheguei a um ponto em que me preocupo só com que eu faço. Não tem nada de um nem de outro".
Sobre o Brasil, ele conta que sempre lembra a primeira vez em que veio, porque chegou um mês antes do Carnaval, em Salvador, e todo mundo dançava nas ruas: "Adorei. É a primeira coisa que me vem à cabeça quando se fala do Brasil".
Cie. DCA - Sombrero
Quando: hoje, sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h
Onde: teatro Alfa (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 0/xx/11/5693-4000)
Quanto: de R$ 40 a R$ 110
Classificação: não recomendado para menores de 12 anos
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