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08/08/2008 - 08h37

Ícone do cinema de horror, Zé do Caixão aponta sucessor

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SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

Na tela, Zé do Caixão segue em busca do herdeiro perfeito em "Encarnação do Demônio", que estréia hoje nos cinemas.

Eduardo Knapp/Folha Imagem
Diretor José Mojica Marins (Zé do Caixão) e o roteirista Dennison Ramalho, do filme "Encarnação do Demônio", que estréia nesta sexta feira
Roteirista e "sucessor" Dennison Ramalho posa ao lado do diretor José Mojica Marins (Zé do Caixão), de "Encarnação do Demônio"

A saga começou em 1964, com "À Meia-noite Levarei sua Alma", que lançou o personagem do coveiro exterminador.

Fora da tela, o diretor do filme, autor e intérprete de Zé do Caixão, José Mojica Marins, 72, definiu o seu sucessor no terreno do cinema de horror.

O apadrinhado de Mojica é Dennison Ramalho, 34, co-autor (com o cineasta) do roteiro de "Encarnação do Demônio" e diretor de dois curtas de horror, "Nocturnu" (1998) e "Amor Só de Mãe" (2002).

"Ele tem uma mente criativa, uma mente diabólica. É mais ou menos aquilo que encontrei na Espanha, o [pintor surrealista] Salvador Dalí... Bem loucão. Ele é o Salvador Dalí reencarnado", afirma Mojica.

Ramalho dedicou seu primeiro filme a Mojica. "Acho que isso me deu sorte. Ganhei os prêmios de melhor curta e melhor diretor no Festival de Gramado, uma coisa que nunca tinha imaginado", diz.

Unhas grandes

Com o impulso dos prêmios, o diretor gaúcho se mudou para São Paulo, para "filmar mais", e aproximou-se do ídolo que arrancara seu sono, na primeira vez em que o avistou.

"A molecada na escola falava que existia um tal Zé do Caixão, um cara que tinha as unhas grandes", lembra Ramalho. O estudante tinha apenas cinco anos de idade quando assistiu na televisão ao "Show do Outro Mundo", de Mojica.

"Fiquei cinco dias dormindo de porta aberta, com a luz do corredor acesa, absolutamente aterrorizado", diz Ramalho. As noites insones seriam sua primeira afinidade com o mestre.
"Sofro de uma insônia fantástica. Comecei a tomar sonífero aos 18 anos. Mas tenho um aliado muito grande --o pesadelo. Só tenho pesadelos. É minha maior inspiração, porque só vêm coisas bizarras, que fogem à imaginação do homem comum", afirma Mojica.

Na adolescência, Ramalho começou "a caçada pelos filmes" de Mojica. Em 1995, veio a São Paulo, tentar obtê-los pessoalmente com o diretor. Tornaram-se amigos.

"Eu não sei falar em 'americano'. O Dennison passou a ser o meu tradutor", diz Mojica, cuja versão "para exportação", Coffin Joe, ganhou relevo fora do país, enquanto aqui o diretor vivia anos de ostracismo.

O mais significativo projeto de Mojica a adormecer na gaveta era o roteiro de "Encarnação do Demônio", escrito em 1966, para dar seqüência à história de Zé do Caixão.

Condição

Ver o filme realizado era um sonho de Ramalho e também do diretor e montador Paulo Sacramento. Juntos, os dois decidiram levá-lo adiante, com uma condição: Mojica deveria interpretar Zé do Caixão.

O diretor planejava entregar o personagem a outro ator, para não ter de envelhecê-lo. "Devo ao Dennison essa idéia que tivemos de deixá-lo 40 anos na prisão, para sair envelhecido", diz Mojica, citando o ponto de partida de "Encarnação do Demônio", quando Zé do Caixão ganha de novo a liberdade.

A partir daí, o coveiro retoma sua busca pela "mulher superior" e impõe cruéis torturas aos desafetos e traidores.

Ramalho diz que havia "vários caminhos" possíveis a seguir no roteiro. Ele sugeriu um. "Cheguei para o Mojica e falei: os fãs adoram violência pesada e tortura; eu adoro violência pesada e tortura; você adora violência pesada e tortura. Vamos nessa e vamos ser mais malignos do que os que estão fazendo isso hoje."

Erotismo e terror

Mojica não imaginava mesmo fazer mudanças em sua velha fórmula. "Acho que não existe nenhum filme de terror que funcione se não casar erotismo com terror", afirma.

O erotismo, nesse caso, é a subjugação da mulher, de acordo com o gosto "sádico" do público, conforme afirma Mojica.

"Queira ou não, sem mulher o povo não vai ao cinema. Todos têm um pouco de sadismo, porque todo mundo quer ver a mulher ser torturada. Para valer, o filme tem que ter a bela e a fera. Não adianta pôr um homem bonito para fazer essas coisas com uma mulher. O povo não aceita", diz o cineasta.

 

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