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08/08/2008 - 14h16

Embaixador da meditação, David Lynch fala sobre criatividade em SP

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RAFAEL CALIXTO
Colaboração para a Folha Online

"Um homem apaixonado por idéias". Assim o cineasta David Lynch se definiu, nesta quinta-feira, durante sua passagem por São Paulo. O norte-americano esteve na capital paulista para lançar seu livro "Águas Profundas: Criatividade e Meditação", em que explica a prática da meditação, aplicada em sua vida e obra.

Ricardo Moraes/AP
Cineasta norte-americano David Lynch fala sobre criatividade em São Paulo
Cineasta norte-americano David Lynch fala sobre criatividade em palestras em São Paulo

Como não poderia deixar de ser, o autor de "Veludo Azul", "Cidade dos Sonhos" e dá série "Twin Peaks" falou muito sobre sua produção cinematográfica. Conhecido por filmes envolvidos em muita abstração, Lynch focou a abordagem em seu processo de criação em palestras concedidas na Livraria Cultura e na FAAP --Fundação Armando Álvares Penteado.

O cinema é um "mundo de idéias", insistiu o cineasta durante a entrevista. "Tudo começa com uma idéia. Quando você tem uma idéia, você se apaixona por ela, e deve segui-la", argumentou o diretor.

Mas as idéias de Lynch são recebidas de formas diferentes pelo público, dividindo opiniões, acumulando críticos e fãs por onde seus filmes são exibidos. "Essas idéias têm um significado para mim, mas quanto mais abstrato, mais margens para interpretações diferentes a obra pode apresentar", disse.

"No cinema, você pode dizer coisas que seriam impossíveis de se dizer", complementou.

Segundo o diretor, a complexidade desde o roteiro também gera um trabalho extenso com os atores. No começo das gravações, sempre há muita conversação com os atores, que sempre trazem muitas idéias, mas a maioria delas não está condizente com o requisitado.

Dessa forma, explicou, ele reprova o que não é cabível e o processo se repete, até chegar a um ponto satisfatório.

Lynch, que diz praticar meditação há 35 anos, duas vezes por dia, concluiu fazendo um paralelo com o título de seu livro. "Se você quer um peixe pequeno, pode pescar em água rasa. Mas para algo maior, terá que ir buscar bem no fundo", metaforizou, concluíndo sua tese de que as idéias são "a alma do negócio" no cinema.

Imbróglio com os EUA

Apesar de ser nascido nos Estados Unidos, David Lynch não possui uma relação muito amistosa com a indústria cinematográfica americana e só faz seus filmes na Europa.

Quando teve a oportunidade, não deixou escapar e alfinetou: "É absurdo pensar que você não pode ter liberdade criativa, e Hollywood não a dá aos diretores, é tudo ao redor de se fazer mais dinheiro".

O diretor também deixou transparecer sua preferência pelo candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, em uma clara referêcia: "[a situação nos EUA] está chegando perto de ficar menos conservadora".

Além disso, chegou a afirmar que se considera "ignorante" sobre o cinema contemporâneo, pois disse gostar muito de trabalhar --o que não o dá muito tempo de sobra para acompanhar a produção de outros diretores.

Passado e futuro

Lynch falou sobre sua motivação para iniciar a carreira, assim como o futuro da sétima arte. O diretor do "Império dos Sonhos" revelou que, quando criança, não recebia livros de colorir de seus pais, mais sim folhas em branco.

Em sua opinião, essa foi uma grande motivação. "Quando você se limita ao desenho, você tem sua criatividade limitada. Uma folha em branco te dá liberdade de criação", afirmou, evidenciando que adorava desenhar quando garoto.

Sobre uma próxima produção, Lynch persistiu na "tese das idéias". Se o próximo filme vai ser com storyline linear ou abstrata, "tudo depende da idéia pela qual eu me apaixonar".

Uma coisa o cineasta garante: "o cinema digital é o futuro". Para ele, o cinema analógico é similar a "um dinossauro, grande e devagar".

 

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