Biografia relembra pioneiro editorial
MARCOS STRECKER
da Folha de S.Paulo
Em época de magos, IPOs (abertura de capital em bolsa), marketing viral e leilões milionários de best-sellers que nem sequer foram escritos, é um refresco o lançamento de "José Olympio: O Editor e Sua Casa", biografia de um dos pioneiros iluminados do mercado editorial brasileiro.
| Divulgação |
![]() |
| Carlos Drummond de Andrade (à esq.), José Olympio e Manuel Bandeira em foto de 1954 |
Mais que a memória de J.O. (1902-1990), o livro que consumiu quase seis anos de trabalho do autor e também editor José Mario Pereira apresenta uma síntese da cultura brasileira no século 20, incluindo a nata da literatura nacional do início da década de 1930 até o final dos anos 80.
No período em que o país se modernizou, J.O. tinha consciência de seu papel de formador. Ostentava no escritório, além de um mapa do Brasil, um quadro com a máxima de Monteiro Lobato, outro fundador da indústria editorial ("um país se faz com homens e livros").
Foi em São Paulo que J.O. começou. Em 1934, transferiu a casa recém-aberta para o Rio, na rua do Ouvidor, que virou "centro intelectual do Brasil", na capital da República.
Já nos anos iniciais, J.O. conciliava opostos e costurava a rede de contatos e interesses que permitiram a ele construir uma editora de prestígio. Enquanto publicava Getúlio Vargas, tentava tirar Graciliano Ramos da cadeia. Ou então promovia a obra de outro esquerdista encrencado com o Estado Novo, Jorge Amado --que aliás trabalhou como vendedor da "Casa", como era chamada a empresa.
Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, José Cândido de Carvalho, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa são apenas alguns dos nomes abrigados na editora.
Cânones
E não foi apenas na ficção que J.O. imprimiu seu caráter "civilizador". Ele publicou obras que se tornaram cânones, como "Raízes do Brasil", o ensaio de Sérgio Buarque de Holanda que inaugurou em 1936 a prestigiosa coleção "Documentos Brasileiros". A série era dirigida por Gilberto Freyre, que assinou o prefácio do título inicial (a oitava impressão de "Raízes..." teve prefácio de Antonio Candido).
A "Casa" também inovou com o acabamento de luxo em coleções que eram vendidas de porta em porta. E foi igualmente revolucionária ao inovar na apresentação gráfica, submetendo as edições ao tratamento cuidadoso de ilustradores como Santa Rosa, Poty (famoso pelas capas de Guimarães Rosa), Eugenio Hirsch e Gian Calvi. A refinada produção visual contou ainda com a pena de Anita Malfatti, Athos Bulcão, Portinari, Carybé, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Farnese de Andrade, Iberê Camargo e Oswaldo Goeldi, só para citar alguns.
Para representar essa fortuna visual em edição fartamente ilustrada, José Mario Pereira reuniu o acervo original doado para a Biblioteca Nacional, mas também complementou a coleção com minuciosa pesquisa em sebos.
O livro, que não esconde a admiração do autor por J.O., traz como bônus alguns apêndices saborosos, como texto do secretário Sebastião Macieira, que registra em linguagem protocolar a história da empresa. Ou então o depoimento de Wilson Martins, que narra o episódio da censura do Partido Comunista a "Memórias do Cárcere", publicado por J.O. com a subtração forçada de partes escritas por Graciliano Ramos.
Há ainda o relato de Gilda Oswaldo Cruz, que era incumbida de receber "sem demora ou protocolo" qualquer desapadrinhado que se considerasse escritor e desejasse submeter originais. Ela relata o ocaso da editora (atualmente um selo do grupo Record), quando afundava em dívidas e passou a ser administrada por Geraldo Jordão Pereira, filho de José Olympio.
Outra "avis rara" do mercado editorial, Pereira, que morreu este ano, foi o fundador nos anos 90 da Sextante, editora que publicou esta edição e é dirigida pelos netos de J.O., Marcos e Tomás Pereira.
José Olympio: O Editor e a Sua Casa
Autor: José Mario Pereira
Editora: Sextante
Quanto: R$ 150 (424 págs.)
Exposição: livros, documentos e ilustrações que contam a história da editora estão em exposição até 23/8 na Biblioteca Nacional (Espaço Eliseu Visconti), r. México s/nº, fundos, Rio, tel. 0/xx/21/3095-3879; grátis


