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22/04/2004 - 04h23

"Picasso" da reportagem, Gay Talese desafia não-ficção

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CASSIANO ELEK MACHADO
da Folha de S.Paulo

De todos esses seres que andam por aí enfiando microfones, gravadores e bloquinhos de anotações na cara dos passantes ele é indubitavelmente dos maiorais. Gay Talese fazendo reportagens é Picasso com suas tintas, Ferrari de tanque cheio --só que melhor.

São algumas de suas façanhas: ter feito de um simples conjunto de vírus instalados na garganta de Frank Sinatra o resfriado mais famoso da história; descrever os nova-iorquinos como um bando que consumia 34 km de fio dental todos os dias; fazer da construção de uma ponte no Estado de Nova York uma obra tão épica quanto a da pirâmide de Gizé.

Essas e outras pencas de lições clássicas do que se convencionou chamar "new journalism", o novo jornalismo, foram reunidas por Talese no livro "Fame and Obscurity". Veteranos-apaixonados-pelo-jornalismo-com-status-literário e não tão veteranos assim, mas fuçadores-de-sebo-apaixonados-por-jornalismo-com-status-literário já cruzaram com essas reportagens, em português, no velho volume de capa alaranjada "Aos Olhos da Multidão", que a editora Expressão e Cultura lançou aqui em 1973.

Todos os outros, e aqueles dispostos a reler histórias como "Frank Sinatra Está Resfriado" em uma tradução mais bem-acabada, agora contam com uma nova edição do livro, rebatizado com seu título original, "Fama e Anonimato", que a Companhia das Letras publica em sua coleção Jornalismo Literário.

Com 71 anos, o norte-americano da pequenina cidade de Ocean City olha para essas reportagens que ele colheu nas ruas de Nova York nos anos 60 como o velho alfaiate examinando um terno impecável no armário --e pronto para começar mais um paletó.

"Uso hoje em dia as mesmas ferramentas de 50 anos atrás, quando era um 'foca'. Vou para as ruas, encontro com as pessoas sobre as quais quero escrever e circulo pelo ambiente em que elas vivem até saber o bastante", conta Talese à Folha. "Aí escrevo, lustro e relustro cada frase, parágrafo por parágrafo", complementa na entrevista feita por... fax. "Internet? Google? Não uso nada disso. Não confio na internet."

Com seus métodos "velha-guarda" --Talese critica até o uso de gravadores pelos repórteres--, o companheiro de "new journalism" de Tom Wolfe, Truman Capote e outros se mostra em forma.

Autor de livros-lição do jornalismo artesanal, como "O Reino e o Poder", de 1969 sobre o "New York Times", onde trabalhou por 12 anos), e "A Mulher do Próximo", de 1980 (sobre a sexualidade americana dos anos 50 a 70), ambos lançados aqui pela Companhia das Letras, Talese ainda não trancou sua máquina de escrever.

A nova edição de "Fama e Anonimato" traz dois exemplos disso, os inéditos "Na Ponte", no qual o velho repórter volta para a Verrazano-Narrows, ponte que "biografara" 40 anos antes, reportagem que publicou na revista "New Yorker" em dezembro de 2002, e "Como Não Entrevistar Frank Sinatra", texto do final dos anos 80 que serve como "making of" do célebre perfil do cantor.

Talese, que diz à Folha estar para terminar entre julho e agosto seu próximo livro, projeto secreto que envolve do "decepado" John Bobbitt a uma jogadora de futebol chinesa que perdeu um pênalti em 1999, afirma estar próximo de "elevar a um novo patamar os desafios da não-ficção".

O escritor, que se autodefine como "artesão que prefere usar a mão e as agulhas do que a máquina de costurar", diz que as velhas lições do que se chamava "novo jornalismo" estão indo ao ralo.

O problema não seria apenas os "Jayson Blair" (repórter que publicou histórias inventadas no "New York Times"), que Talese classifica de "o extremo da preguiça e desonra". "Acho que a mídia tem sido muito acrítica com os líderes americanos desde 11 de Setembro. A injustificável 'invasão' do Iraque teria sido mais bem debatida se a mídia tivesse atuado com mais dureza com Bush, Rumsfeld e Rice antes."

FAMA E ANONIMATO
Autor:
Gay Talese
Tradutor: Luciano Vieira Machado
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 52 (536 págs.)

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