Veja depoimentos de "heroínas" retratadas pelo fotógrafo J.R.
ADRIANA FERREIRA SILVA
Enviada especial ao Rio pela Folha de S.Paulo
A seguir, confira depoimentos de algumas 'heroínas' retratadas pelo fotógrafo J.R. no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, durante a realização do projeto "Women Are Heroes", que chegou ao fim no último sábado. Veja galeria de imagens.
Leia reportagem sobre as fotografias de J.R.
| J.R./Divulgação |
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| Rosiete Marinho ficou preocupada quando a equipe do fotógrafo chegou ao morro carioca |
Rosiete Marinho, 45
"Quando eles [a equipe de J.R.] chegaram fiquei preocupada. A gente não sabia que tipo de homenagem era essa que eles queriam fazer às mulheres. Mas, quando vimos o que era o projeto, só de receber essa homenagem, nós, que somos faveladas, ficamos com a auto-estima lá em cima. Me senti realizada de ganhar amigos de tão longe. Do outro lado do mundo. Nunca mais vou me esquecer.'
Lindinalva Marinho de Oliveira, 63, a "dona Linda"
"Quando tirei a foto, não sabia o que eles iam fazer. Foi uma surpresa. Não sabia que iam aparecer só meus olhos. Gigantescos! Durante a entrevista que eles fizeram, falei sobre esse lugar [o morro], que eu amo tanto. Acabei me emocionando. Ninguém nunca fez isso aqui antes. É uma arte."
| J.R./Divulgação |
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| Projeto já passou pela África e Oriente Médio e agora estampa retratos no Rio de Janeiro |
Juraci Vilela Gomes, 53, a Jura
"Aqui [no Morro da Providência], o povo fica meio desconfiado quando chega gente de fora. Não podemos nos envolver com casos de polícia, por exemplo, para não arrumar problema. A maioria das mães já perdeu alguém: filho, sobrinho, marido. E geralmente é a polícia [quem mata]. Então, a gente confia só se conhece mesmo a pessoa. Por isso, só de morar aqui, me sinto uma heroína. Enfrento tanto coisa. Vejo tantas coisas acontecendo no dia-a-dia. É uma luta diária."
Doralice dos Santos Dias, 67, a "dona Glorinha"
"Moro aqui, no Morro da Favela [antigo nome do Morro da Providência], na favela de meus amores, desde que nasci, e me sinto uma heroína sim. Adorei fazer a foto [para o projeto]. Cheguei a chorar quando vi o resultado. Foi a maior emoção quando vi meu retrato ali, enorme.'
Roberta Cristina, 24
"Por tudo o que já passei na vida, me considero sim uma heroína. Tenho só 24 anos, mas já fiz coisas que pessoas mais velhas do que eu não fizeram. Fiz tudo muito cedo: namorei cedo, morei junto cedo, engravidei cedo. Não vivi minha mocidade."
| J.R./Divulgação |
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| "Se eu ficar aparecendo, dando depoimento, o foco deixa de ser o trabalho", disse J.R. |
Eugênia Mendes da Silva, 63
"Me acho uma heroína porque saí de Pernambuco e mudei para o Rio quando ainda era uma menina, com 13 anos. Vim morar com meu pai, mas minha madrasta não me queria; então, fui trabalhar em casa de madame. Com 19 anos, conheci um rapaz. Ficamos juntos dois anos, separamos e conheci outro rapaz, com quem tive cinco filhos. Fomos casados 32 anos, até que ele morreu. Tenho nove netos e, há quatro meses, perdi um deles. Tinha oito meses e morreu de dengue. Me sinto uma mãe vencedora, mas não gostaria de terminar minha vida aqui, no Morro da Providência, onde moro há 53 anos. Queria ir lá para baixo, para um lugar com menos ladeira, mais tranqüilo. Mas me sinto feliz. Vi meus netos e filhos nascerem e crescerem."
Aline Mendes da Silva, 30
"O projeto [de J.R.] trouxe muita vida à favela. Somos uma comunidade carente, completamente ignorante de arte. Todo trabalho artístico será recebido com esse imenso carinho. Quando vi as fotos pregadas, lá de longe, senti uma enorme satisfação. Nós, favelados, não somos nada. Só números: do CPF, do RG, título de eleitor. Quando um morre, morre um número. Por isso, é tão importante o que J.R. fez. Há muito tempo não acontece uma coisa como a que está acontecendo aqui hoje [a projeção das imagens feitas pelo fotógrafo foi feita em uma rua da favela, na noite de sábado]."




