Ilustrada
24/04/2004 - 07h11

Fonogramas históricos podem ser ouvidos de graça na internet

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PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

Duas pontas da história da música popular, com quase um século de diferença de idade, resolveram se dar as mãos para um passeio extraordinário. Desde as 18h de ontem, qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode ir à internet e ouvir, de graça, cerca de 13 mil músicas brasileiras gravadas originalmente em discos de vinil de 78 rotações por minuto.

O espetáculo tem o alcance do período de vida do velho 78 rpm, que no Brasil nasceu em 1902, com a invenção da música gravada, e morreu em 1964, enquanto nascia a ditadura militar.

Tanta música assim foi recuperada dos discos originais, digitalizada em MP3 e/ou WMA e despida dos chiados característicos. E Orlando Silva, Pixinguinha, Carmen Miranda, Noel Rosa e Aracy de Almeida foram morar no ciberespaço, endereço www.ims.com.br, no site do Instituto Moreira Salles, mantido pelo Unibanco, que alavanca o projeto.

De início, só poderá ser ouvida, como num rádio virtual --o download não será possível. O que chega primeiro a um mundo virtual palpável é a coleção particular real (mas até aqui inalcançável) do fotógrafo e pesquisador carioca Humberto Franceschi, 73, forte no intervalo de 1902-27, quando as gravações eram feitas de forma mecânica, não elétrica --é um tesouro praticamente inédito aos ouvidos brasileiros.

Seu acervo foi restaurado pelo Instituto Sarapuí (ligado ao banco Icatu), sob patrocínio da Petrobras. Com a disponibilização, o IMS testará a receptividade do projeto, mas também a possibilidade de ele enfurecer as gravadoras que produziram os fonogramas, mas às vezes nem os possuem mais em seus arquivos.

"Não acredito que vá haver problemas, esse não é o terreno preferencial das gravadoras", afirma o superintendente-executivo do IMS, Antônio de Franceschi, 61.

"Os direitos autorais de 1934 para trás já estão em domínio público. Quando não é assim, estaremos pagando direitos estritamente dentro das normas", diz.

O coordenador de música do IMS, José Luiz Herencia, 27, completa: "Nosso objetivo é cultural e de pesquisa, não de entretenimento. Se alguém precisar de uma cópia para fins profissionais, cederemos se trouxer comprovante de que pagou direitos".

O próximo passo do IMS será a introdução da formidável coleção de um colega de faculdade de Franceschi, o historiador, pesquisador e crítico José Ramos Tinhorão, 76. São mais 5.000 discos de 78 rpm e 6.500 LPs, de Donga a Celly Campello e João Gilberto.

Não é só. O IMS administra coleções dos estudiosos Walter Silva e Antonio Daurea e acervos de partituras e documentos de Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Elizeth Cardoso --quer envelopá-los todos na tela do computador.

Segundo o superintendente, "o objetivo é disponibilizar, até maio de 2005, 100 mil músicas". Ele diz contar com "apoio de instituições públicas e investidores privados", mas não revela o montante do investimento da instituição, que não possui fins lucrativos. "É grande, substancial", limita-se.

E não acabou. Há outros projetos equivalentes em execução. Um é a digitalização da Discoteca Oneyda Alvarenga, do Centro Cultural São Paulo (CCSP), levado pela Prefeitura de São Paulo sob patrocínio da Petrobras.

O coordenador de acervo sonoro do CCSP, Evaldo Piccino, 35, promete que a consulta à discoteca será desburocratizada com a implantação do novo sistema, em outubro. "Gostaríamos de ter um acervo unificado com os outros projetos, mas isso depende de muitas iniciativas", diz.

Outro projeto, implementado no Museu da Imagem e do Som de Fortaleza (MIS-CE), é o da coleção do cearense Nirez, 70, de 22 mil 78 rpm. Cria-se, assim, um pólo nordestino de preservação da memória da música brasileira.

Mais cuidadosos que o IMS, o CCSP e o MIS sonham se radicar na internet, mas por enquanto só preparam a disponibilização para audição em suas dependências.

"A partir de agora, a probabilidade de perder o que foi produzido em 60 anos de música no Brasil é zero", diz Ricardo Carvalheira, 46, do estúdio Cia. de Áudio, que está digitalizando os acervos.
"O que se falou durante toda a década de 90, que tudo que se produziu aqui de música corria o risco de ir para o lixo, não procede mais", completa Carvalheira.

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