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Ilustrada
25/08/2008 - 08h00

"Fui muito radical, todos pensam que sou um monstro", diz artista francesa

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SILAS MARTÍ
da Folha de S.Paulo

Ela tem chifres e se excita com os contornos de um fêmur. Ama o fígado, o pâncreas e admira o design esplêndido das entranhas sem perder tempo com sentimentos. Orlan declarou tudo isso, entre deboche e poesia, em seu manifesto por uma arte "mais carnal".

A francesa que escandalizou o mundo das artes nos anos 90 retoma, numa palestra hoje, no Museu de Arte Contemporânea da USP, as diretrizes de seu manifesto e todo o processo que a levou a protagonizar o primeiro "extreme makeover" da história da arte.

Na linha da chamada body art, corrente artística que explorou os limites do corpo como suporte para performances de todo tipo, Orlan foi radical. Numa série de nove cirurgias plásticas transmitidas ao vivo pela televisão em 1993, ela se transformou, com implantes no queixo, na testa, nas bochechas e ao redor dos olhos.

Sob os efeitos da anestesia, fez pintura a dedo com o próprio sangue e chegou a implantar chifres na testa --os quais ela nunca removeu. Para completar o espetáculo, seus enfermeiros-performers também vestiam o melhor da moda durante os rituais. "Acho que fui mesmo muito longe", admite Orlan em entrevista à Folha, por telefone, de Salvador, onde abriu o ciclo de palestras no Brasil que termina no Oi Futuro, no Rio, nesta sexta. "Hoje todo mundo pensa que eu sou um monstro, mas não é bem assim."

Era uma espécie de transcendência estética o que ela buscava na mesa de cirurgia. Orlan, que diz ter vindo de uma família libertária, muito liberal para sua época, conta que descobriu a religião por meio da arte. Numa alusão nada hermética à iconografia cristã, chegou a fabricar sudários do próprio rosto usando os esparadrapos ensangüentados de suas operações --a série cirúrgica, aliás, foi batizada "A Reencarnação da Santa Orlan".
"Meu corpo se tornou um espaço de reflexão", afirma a artista. "O que eu fiz foi usar a cirurgia para fazer um auto-retrato pessoal, mas sei que foi forte demais, radical demais."

Dor visual

Orlan tem hoje um rosto muito diferente do que tinha antes de suas cirurgias-performances, mas não se acha feia. "A beleza nunca foi meu problema", dispara. "Eu amo as coisas mutantes, essa diferença foi construída com vontade, e é isso o que importa, o resultado artístico, não o plástico."

Retratada como diva ainda com suturas, pontos e sangue coagulado no rosto, Orlan tentou mostrar que a beleza não passa de convenção. Depois, num processo menos radical e menos doloroso, passou a fazer intervenções digitais em fotografias da própria cara, incorporando, em cada série, traços de uma etnia ou tribo num determinado momento histórico.

"Nas minhas operações, eu nunca sofri", lembra. "Quem sofria era o público." Orlan diz que era anestesiada de modo a não sentir dor e ficar lúcida o suficiente para pintar com o próprio sangue, dar orientações e acompanhar o processo.

Está aí o principal contraponto à arte da sérvia Marina Abramovic, performer que estará na próxima Bienal de São Paulo, notória porque sofreu em cena e fez o público sofrer junto com sua dor sem anestesia. "Somos muito amigas, mas ela se dá outras regras do jogo, sofre", diz Orlan. "Eu gosto do corpo pleno que não sente dor, o corpo saudável, que goza."

ORLAN

Quando: hoje, às 14h, em São Paulo; 29/8, às 19h30, no Rio
Onde: MAC-USP (r. da Reitoria, 160, tel. 0/xx/11/3091-1118; livre); Oi Futuro (r. Dois de Dezembro, 63, tel. 0/xx/21/3131-3060; livre)
Quanto: entrada franca

 

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