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02/05/2004 - 09h10

Fernanda Montenegro encara velhice em filme e critica "Lula paz e amor"

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MARCELO BARTOLOMEI
enviado especial a Recife (PE)

Aclamada no exterior com "Central do Brasil" (1998), a maior atriz do cinema, do teatro e da TV brasileira está de volta. Fernanda Montenegro aparecerá nos cinemas a partir do próximo dia 28 ao lado de Raul Cortez em "O Outro Lado da Rua", de Marcos Bernstein, filme que reflete as consequências da velhice num país que cuida pouco dos idosos.

Surpresa com a receptividade do público jovem na sessão de abertura do Cine PE - Festival do Audiovisual, que vai até 5 de maio, a atriz afirma que ainda tem muito fôlego na carreira, diferentemente das previsões que ela própria tinha para quando chegasse aos 74 anos.

Divulgação
Fernanda Montenegro em "O Outro Lado da Rua"
Em entrevista à Folha Online, ela revela que está à espera dos resultados propostos pelo governo Lula, em quem vota há 20 anos, e diz que não quer criticar a atual gestão sem antes viver as consequências do que tem sido feito.

Para a atriz, no entanto, a imagem "Lulinha Paz e Amor" --criada na época da campanha eleitoral, há pouco mais de um ano-- pode se transformar num fator negativo para o governo. "Foi uma arapuca. Acho que ainda tem de ter um tempo, mas vão cobrar isso a vida inteira dele."

Desacreditada em relação à esperança --que ela julga ser algo muito chato--, a atriz ainda se toca com os aplausos vindos dos diferentes públicos a que submete seu trabalho. Foi assim na abertura do Cine PE, onde 2.600 pessoas lotaram o teatro onde foi exibido seu filme. "Mais do que a metade da platéia era de gente moça. Eles gostaram, aplaudiram muito, se comoveram. É interessante. Foi muito bonito e tocante."

Leia trechos da entrevista em que Fernanda Montenegro fala do filme, da velhice, da sua carreira e das perspectivas para o Brasil:

Folha Online - O que chamou sua atenção no projeto do filme "O Outro Lado da Rua"?

Fernanda Montenegro -
É um filme impressionista, um filme não-cronístico... um filme que não dá certezas na história. Ele trabalha com a vontade e com a contra vontade dos personagens. Tem uma riqueza para o ator, que às vezes o cinema custa a oferecer. Não senti no filme a busca só de resultados e ganchos... agora está na moda, está na onda. É um filme muito individualizado, de uma temática também nada "sedutora", a não ser quando é visto como piada.

Folha Online - De onde veio a inspiração para fazer a personagem Regina, uma mulher em crise na terceira idade?

Fernanda -
De fora veio a observação dos velhos de Copacabana, que é uma realidade. É um bairro onde o idoso é muito auto-suficiente, vive com seus cachorrinhos, passeia na sua praia, toma seu banho, faz ginástica na areia, joga dama, faz cooper, xadrez, carteado, crochê. É uma geração que ficou em Copacabana quando a capital se mudou para Brasília. Geralmente, a maior parte é de ex-funcionários públicos aposentados. Muitos tiveram um passado de prestígio nas autarquias, mas na aposentadoria vai minguando o status... o apartamento é o mesmo, mas muito decaído... têm mais ou menos uma certa pretensão ainda ao poder.

Folha Online - A senhora tem conhecidos que passam pela mesma situação?

Fernanda -
Os meus amigos são ligados a uma profissão, a um lado de qualidade cultural também especial. Mas andando por Copacabana a gente vê isso. É um bairro emblemático. Podem dizer que é um filme que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, mas não é verdade. É um filme que corresponde a uma vivência brasileira num bairro que é emblematicamente do Brasil. Você tem lá desde o maior pervertido, o maior facínora, a até a alta esfera econômica e cultural... alguns velhos sábios da Grécia ainda moram lá.

Folha Online - A senhora tem medo da velhice?

Fernanda -
Eu achei que quando eu chegasse na minha idade eu estaria acabada. Como eu cheguei, vi que ainda tenho fôlego, e muito. Mas tem uma senhora aí esperando na curva do caminho (deixa eu bater na madeira), que é inevitável... Quando a gente é jovem, acha que isso está muito lá no futuro, mas às vezes está na esquina te esperando. Chega uma hora, no entanto, que não dá mais.

Folha Online - A Regina, do filme, vive uma solidão que é pertinente à idade...

Fernanda -
Ela busca ser útil. Do ponto de vista dela, ela não é uma dedo-duro. Ela presta um serviço e de graça. Na minha imaginação, ela seria uma aposentada, uma alta funcionária do Ministério da Justiça que decaiu. Ela trata o criminoso com uma visão de que ele deveria ser punido, tem uma certa intimidade com a justiça. Quando ela encontra aquele juiz, ele não vai dizer a ela que juiz não mata, que juiz não se vende... não vende a pátria. É um desafio para ela. De onde viria isso, estes valores? De dentro dela, sim, mas também de uma herança social. Ela não senta numa cadeira de balanço, ela não é a "Patolina" [personagem de Laura Cardoso no filme] que faz crochê na praça. Ela não abre mão. Ela é como a maioria das pessoas de idade de Copacabana, que pinta o cabelo com o chamado louro menopausa, ela tem uma roupinha atrevidinha que compra à prestação naquelas casas de médio porte, e tem tudo que precisa para se expor lá fora, o tênis, a cachorrinha. Já dentro de casa, e o filme deixa isso bem claro, é o território da solidão, da doença, da quase derrotada. Mas ela não fica em casa, ela não é uma burguesa, ela não cuida daquela casa. Ela vai para a rua e a casa que se dane.

Folha Online - Qual foi o maior desafio para fazer este filme?

Fernanda -
Quando você lê um roteiro ou um personagem numa peça, você intui que ali há uma possibilidade imensa, dá para ver de "ene" maneiras. Mas você tem que optar por uma só. Para fazer esta opção, você tem que se forrar de razões que você vê e, às vezes, a alquimia do trabalho te empurra para uma zona misteriosa que você nem sabe o que está por ali. Não é uma ciência exata, é uma sensação que você tem de transformar numa "realidade". Este é o grande desafio: como pegar uma personagem, como incluir esta personagem e dar uma consequência a ela. Se outro ator ou atriz fizer aquilo, vai fazer diferente, tão bem ou melhor. Então o que entra nisso? A sua vivência, a sua curiosidade, a possível ousadia de ver o contrário do que estão dizendo que você deve ver. Se ao invés de chorar, eu rir, tudo tem uma forma diferente. São estas opções de criatividade dentro daquilo que você ainda consegue observar.

Folha Online - Sexo ainda é um tabu para a sociedade. Na terceira idade, mais ainda. Como foi fazer a cena em que os personagens se relacionam na cama?

Fernanda -
Foi muito fácil. Em primeiro lugar eu propus ao Marcos [Bernstein]: não vamos ficar fazendo experiências de trepadas aqui para você escolher qual você quer. Me diga o que você quer da cena: uma coisa mais violenta, mais delicada, mais desnuda, só intuída... Ele disse: eu vou colocar a câmera aqui e, quando vocês deitarem, eu quero o Raul nesta posição e você nesta [mostra com as mãos as posições da cena]. A cena nasce nos primeiros toques, nos primeiros beijos, que são muito carentes, na memória perdida de trepadas já não dadas há algum tempo, cada um por alguma razão, necessidade do afago de pele. Eles não são crianças, sabem e devem ter experimentado tudo em suas vidas e era um encontro de carências, não de sexo hormonal, de glândulas, mas de um sexo humanizado, necessitado e ansiado. É aí que se executa este ato de amor. A platéia [na exibição do filme no Cine PE] recebeu as cenas em silêncio.

Folha Online - Como anda a saúde do teatro brasileiro?

Fernanda -
Acho que estamos fazendo o teatro que se pode fazer. Diversificado, não mais centralizado no Rio e em São Paulo. Nunca foi centralizado, mas a gente não queria ver. Faz-se teatro no Brasil inteiro. Às vezes criações coletivas, textos reavaliados, experiências mais loucas, experiências quadradas, muita coisa mamada de Peter Brooke ainda, de Gerald, de Zé Celso, de Antunes, mas tudo isso é teatro, é uma caminhada que, se você não tem 10 mil espetáculos explodindo, mas apenas um, você já ganhou o seu tempo e o seu fazer. Eu não sou da "sinistrosa".

Folha Online - A senhora viu a carta que 32 artistas e produtores de São Paulo fizeram em protesto às novas propostas para as leis de incentivo cultural que foi enviada ao MinC?

Fernanda -
Isso não chegou no Rio de Janeiro.

Folha Online - Como a senhora avalia o governo atual?

Fernanda -
Como eu não sou da "sinistrosa" e como votamos num fenômeno, não quero satanizar. Não quero sinistrar.

Folha Online - A senhora votou no Lula?

Fernanda -
Eu votei. Há 20 anos que eu voto no Lula e, misteriosamente e particularmente, estou falando isso só agora. Não quero satanizar o processo. Estas leis estão chegando, não sei quais são, fala-se que é isso, fala-se que é aquilo. Toda lei, quando ela é feita, precisa ser experimentada para saber se deu certo ou não. Estou esperando que venha a lei. Estou esperando algum resultado desta lei para poder me posicionar. A priori, condenar... não sei porque estaria condenando. Acho que todos têm o direito de protesto, de reivindicar, de concordar ou não concordar. Estou apenas falando de mim. Estou à espera.

Folha Online - A sua espera pode ser entendida como esperança?

Fernanda -
Eu acho esperança uma coisa muito chata. A esperança posterga sempre. Não há nada pior que a esperança, é uma coisa passiva. A pessoa não age porque está na esperança. Vamos acabar com isso e ficar na espera, esperar os resultados.

Folha Online - Isso tudo é sua opinião sobre a Cultura, mas e sobre o país, de uma maneira geral?

Fernanda -
Eu acho que o grande inimigo do Lula é o Lula bonzinho, o "paz e amor". Foi vendida uma imagem... acredito piamente que este homem seja de paz e amor. Mas o "Lulinha" de paz e amorzinho foi uma arapuca. Acho que ainda tem de ter um tempo, mas vão cobrar isso a vida inteira dele. Talvez no afã de ganhar se foi além do humano e do possível. O estupor do país é este. Criou-se uma imagem... o soturno, o façanhudo, o homem de feições amarradas também não funciona. Mas foram para um oposto porque as condições do país eram aquelas e todo mundo sabia. Eles estavam indo para o governo e sabiam disso. Se houve uma mudança como houve, é porque o país queria uma mudança. Não estou, mais uma vez, satanizando o governo que passou. É uma espera. É um longo parto. Vamos ver o que acontece. Não estou fugindo da pergunta, mas é que não tenho resposta para isso. Sou uma cidadã e me nego a jogar mais lenha nesta fogueira, se é que tenho algum poder para colocar um pedaço de lenha em alguma coisa.

Folha Online - Qual sua expectativa em relação a "O Outro Lado da Rua", que será lançado no próximo dia 28?

Fernanda -
É um filme muito particular, não é uma superprodução. É um elenco muito próprio, mas muito pequeno. Não fala de uma Copacabana turística. É mais um filme do bom cinema brasileiro. Tenho orgulho de dizer isso. Não sei se é o melhor ou o pior, mas é mais um bom filme do cinema brasileiro. Espero que pelo menos a chance da distribuição nos dê pelo menos três ou quatro semanas. Às vezes você quer ver um filme brasileiro bom e, no fim de uma semana, ele não é mais encontrado em lugar nenhum, pois some do mapa. Espera-se cinco, seis, até sete anos para fazer um filme e ele desaparece em cinco dias. Este é um problema doloroso. Por onde "O Outro Lado da Rua" passou foi muito bem recebido. Em Berlim, tivemos uma recepção extraordinária. Vamos esperar. Mais uma vez esperando.

O jornalista Marcelo Bartolomei viaja a convite da organização do 8º Cine PE - Festival do Audiovisual
 

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