"O Mistério do Samba" mostra beleza das coisas simples
MIGUEL ARCANJO PRADO
da Folha Online
O documentário "O Mistério do Samba" estréia nesta sexta-feira (29) nos cinemas como um retrato simples e poético da Velha Guarda da Portela. Dirigido por Lula Buarque de Hollanda (sobrinho de Chico Buarque) e Carolina Jabor (filha de Arnaldo Jabor), a obra foi produzida pela cantora e compositora Marisa Monte, ao lado de Hollanda e Leonardo Netto.
| Bruno Veiga/Divulgação |
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| Marisa Monte canta com Monarco, na quadra da Portela, no filme "O Mistério do Samba" |
Durante seus 88 minutos, o longa faz com que a platéia adentre pela porta da frente no cotidiano da comunidade da agremiação carnavalesca da Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval e do samba carioca, em Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio.
Enquanto os personagens surgem com seus casos pitorescos e histórias de sambas do passado, um clima de melancolia fica no ar.
"Não sei se a palavra é melancolia, mas é fato que eles são saudosos. O cara é da Velha Guarda da Portela: ele é velho, tem uma estrada de vida longa, sofrida, cheia de dificuldades e de decepções. Tem sofrimento, sim, até pela proximidade da morte, que deve mexer muito com eles; mas, sem tristeza não tem samba bom", diz Carolina Jabor à Folha Online.
Leia reportagem sobre o show que reuniu Marisa Monte e Velha Guarda da Portela
"Minha inspiração é mulher"
O filme também tem alegria. Lula Buarque de Hollanda faz questão de dizer onde: "Mulher, meu filho, minha inspiração é mulher", fala, sorrindo, à reportagem, garimpando uma das melhores frases do filme. E emenda: "Jogar pedrada no marido deve ser muito divertido também", ao recordar de uma das cenas de ciúmes contadas em "O Mistério do Samba".
O filme foi feito em dez anos, desde 1998, quando Marisa Monte resolveu resgatar sambas esquecidos para seu disco "Tudo Azul". Até o chamado da cantora amiga, os dois diretores sequer freqüentavam ocasionalmente a quadra da escola azul e branca. Mas então como veio a intimidade para um registro tão genuíno como o apresentado no filme? É Jabor quem responde.
"O contato começou com o pessoal da Velha Guarda, através da Marisa, para depois passarmos a freqüentar a Portela e Oswaldo Cruz. Com o passar do tempo, éramos recebidos sem que eles percebessem a câmera. O Monarco [sambista] falava: 'A Carol não pára de filmar'", recorda.
"A aproximação da Marisa com a Portela foi algo muito orgânico. Foi um desenvolvimento natural do trabalho dela. Acho que o filme vai dar uma nova dimensão para a Velha Guarda da Portela", diz Hollanda.
Choro e samba
A idéia de que aquele registro deveria ser transformado em um longa-metragem foi tomada pela dupla há apenas cerca de dois anos. "Tinha muita coisa bonita. O Lula falou que tinha que ser longa", lembra Jabor.
A turma retratada fez questão de assistir ao filme antes do grande público. "A Tia Surica já viu duas vezes e chorou direto. Ela sempre me fala que não vai chorar mais, mas não acredito", conta Hollanda.
"Já a Tia Eunice fica falando o tempo todo: 'é isso mesmo!', como se desse uma autenticação para o filme", completa sorrindo Jabor, que diz não saber sambar direito, jogando a peteca para o colega de trabalho: "Eu arrisco, mas o Lula fez aula e tudo!".
| Bruno Veiga/Divulgação | ||
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| Marisa Monte e Zeca Pagodinho cantam com a Velha Guarda da Portela, na quadra de Oswaldo Cruz, zona norte do Rio, em cena do documentário "O Mistério do Samba", que estréia nesta sexta-feira (29) nos cinemas |



