Ilustrada
27/08/2008 - 11h01

"O Mistério do Samba" mostra beleza das coisas simples

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MIGUEL ARCANJO PRADO
da Folha Online

O documentário "O Mistério do Samba" estréia nesta sexta-feira (29) nos cinemas como um retrato simples e poético da Velha Guarda da Portela. Dirigido por Lula Buarque de Hollanda (sobrinho de Chico Buarque) e Carolina Jabor (filha de Arnaldo Jabor), a obra foi produzida pela cantora e compositora Marisa Monte, ao lado de Hollanda e Leonardo Netto.

Bruno Veiga/Divulgação
Marisa Monte canta na quadra da Portela no filme "O Mistério do Samba"
Marisa Monte canta com Monarco, na quadra da Portela, no filme "O Mistério do Samba"

Durante seus 88 minutos, o longa faz com que a platéia adentre pela porta da frente no cotidiano da comunidade da agremiação carnavalesca da Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval e do samba carioca, em Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio.

Enquanto os personagens surgem com seus casos pitorescos e histórias de sambas do passado, um clima de melancolia fica no ar.

"Não sei se a palavra é melancolia, mas é fato que eles são saudosos. O cara é da Velha Guarda da Portela: ele é velho, tem uma estrada de vida longa, sofrida, cheia de dificuldades e de decepções. Tem sofrimento, sim, até pela proximidade da morte, que deve mexer muito com eles; mas, sem tristeza não tem samba bom", diz Carolina Jabor à Folha Online.

Leia reportagem sobre o show que reuniu Marisa Monte e Velha Guarda da Portela

"Minha inspiração é mulher"

O filme também tem alegria. Lula Buarque de Hollanda faz questão de dizer onde: "Mulher, meu filho, minha inspiração é mulher", fala, sorrindo, à reportagem, garimpando uma das melhores frases do filme. E emenda: "Jogar pedrada no marido deve ser muito divertido também", ao recordar de uma das cenas de ciúmes contadas em "O Mistério do Samba".

O filme foi feito em dez anos, desde 1998, quando Marisa Monte resolveu resgatar sambas esquecidos para seu disco "Tudo Azul". Até o chamado da cantora amiga, os dois diretores sequer freqüentavam ocasionalmente a quadra da escola azul e branca. Mas então como veio a intimidade para um registro tão genuíno como o apresentado no filme? É Jabor quem responde.

"O contato começou com o pessoal da Velha Guarda, através da Marisa, para depois passarmos a freqüentar a Portela e Oswaldo Cruz. Com o passar do tempo, éramos recebidos sem que eles percebessem a câmera. O Monarco [sambista] falava: 'A Carol não pára de filmar'", recorda.

"A aproximação da Marisa com a Portela foi algo muito orgânico. Foi um desenvolvimento natural do trabalho dela. Acho que o filme vai dar uma nova dimensão para a Velha Guarda da Portela", diz Hollanda.

Choro e samba

A idéia de que aquele registro deveria ser transformado em um longa-metragem foi tomada pela dupla há apenas cerca de dois anos. "Tinha muita coisa bonita. O Lula falou que tinha que ser longa", lembra Jabor.

A turma retratada fez questão de assistir ao filme antes do grande público. "A Tia Surica já viu duas vezes e chorou direto. Ela sempre me fala que não vai chorar mais, mas não acredito", conta Hollanda.

"Já a Tia Eunice fica falando o tempo todo: 'é isso mesmo!', como se desse uma autenticação para o filme", completa sorrindo Jabor, que diz não saber sambar direito, jogando a peteca para o colega de trabalho: "Eu arrisco, mas o Lula fez aula e tudo!".

Bruno Veiga/Divulgação
Marisa Monte e Zeca Pagodinho cantam com a Velha Guarda da Portela, no filme "O Mistério do Samba"
Marisa Monte e Zeca Pagodinho cantam com a Velha Guarda da Portela, na quadra de Oswaldo Cruz, zona norte do Rio, em cena do documentário "O Mistério do Samba", que estréia nesta sexta-feira (29) nos cinemas
 

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