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Ilustrada
29/08/2008 - 09h45

Diretor japonês Kitano fala sobre arte em tom piegas

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IVAN FINOTTI
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Veneza

Piegas e um tanto delirante, mas principalmente piegas. O novo filme de Takeshi Kitano, que fecha sua trilogia sobre comunicação e artes (sendo TV e cinema os outros dois temas), indica que o diretor japonês deveria se ater às historias da Yakuza ("Brother - A Máfia Japonesa em Los Angeles", 2000) ou mesmo aos contos de amor ("Dolls", 2002).

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Foi com uma mistura desses dois temas que Kitano levou o Leão de Ouro em Veneza em 1997, com "Hana Bi - Fogos de Artificio". Mas esse novo "Akires to Kame" (Aquiles e a tartaruga) busca um gênero diferente: as artes plásticas.

"Tentei fazer um filme mais sério", contou o diretor após a exibição. "Mas quando faço comédia, o público acha sério. Não sei o que pensar."

Kitano apresenta a história do pintor Machisu em três momentos: infância, juventude e maturidade. A infância de Machisu parece um conto de fadas invertido. Ele é feliz e pinta o tempo inteiro, na aula, em casa, na fazenda. Então tudo começa a dar errado, os bons adultos se suicidam e todos os mais velhos remanescentes são malvados.

Na juventude, Machisu começa a buscar uma linguagem. Não encontra e, quando chega aos 60, interpretado pelo próprio Kitano, fica tentando inventar formas originais de pintar, sem nunca alcançar o sucesso de mercado que busca. Aqui o filme se torna mais delirante, mas não menos bobo.

Na maturidade, Machisu (uma corruptela de Matisse) sacrifica tudo para pintar. Ele não trabalha e acha que sua arte justifica usar sua família. Sua mulher, além de trabalhar fora para sustentar a casa, é sua cobaia nas experiências artísticas.

Quadros próprios

Por ser um pintor amador, o cineasta se sentiu bastante à vontade com o tema. Usou, inclusive, apenas seus próprios quadros na produção. "Tive de pedir vários emprestados dos meus amigos, porque costumo presenteá-los com meus quadros e não tinha número suficiente para o filme", disse Kitano, que nunca vendeu nem tentou vender uma tela. "A verdade é que minhas pinturas não são lá muito apreciadas", disse, num arroubo de sinceridade.

O nome do filme vem de um paradoxo matemático. Aquiles vai apostar corrida com uma tartaruga e lhe dá dez metros de vantagem. Ele corre os dez metros em um segundo, mas a tartaruga corre um metro nesse tempo. Para correr esse metro extra, Aquiles leva um décimo de segundo, mas aí a tartaruga já correu dez centímetros mais. Toda vez que Aquiles chega na tartaruga, ela já avançou um pouquinho mais.

E o que isso tem a ver? Com a palavra, o diretor: "O que tentei notar nesse filme é que não é preciso ser bem-sucedido para fazer algo. Basta gostar". Parece mesmo um conto de fadas. Às avessas.

 

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