Mostra na Pinacoteca traz retratos das baladas dos anos 70 a 90
SILAS MARTÍ
da Folha de S.Paulo
Das hordas de divas e purpurinados que faziam fila todas as noites na porta do Studio 54, em Nova York, só alguns eram escolhidos para entrar na festa. "Por acaso, sempre me chamavam", lembra a fotógrafa Vania Toledo. E ela tinha na bolsa uma pequena Yashica que flagrou gente como Truman Capote, Harper Lee e Andy Warhol em busca do nirvana na pista de dança.
| Vania Toledo/Reprodução |
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| Caio Fernando Abreu abraça Cazuza no camarim de show em São Paulo, em 1989 |
"Eu fiquei muito tímida diante de Warhol, porque ele tinha maquiagem, peruca, era um homem 'fake', mas de ousadia estética enorme", dispara Toledo sobre seu maior ídolo. "Ele me ensinou a liberdade de fotografar com uma câmera qualquer para fazer algo que você possa mostrar com orgulho."
São 150 retratos instantâneos da balada em São Paulo, Rio, Londres e Nova York, ao longo dos anos 70, 80 e 90, que Toledo fez com sua máquina portátil --a mesma que ganhou de Gilberto Gil o simpático apelido Nhá Chica--, que ela mostra a partir de hoje na Pinacoteca do Estado, em SP.
"É a intimidade que poucos fotógrafos têm o despudor de mostrar, porque tem erros, não é germanicamente perfeito", admite Toledo. Mineira de Paracatu, ela se mudou aos 13 para a capital paulista, onde começou a fotografar nos anos 70 para o "Aqui São Paulo", extinto diário de Samuel Wainer. Depois passou por uma porção de lugares, como "Vogue", "Cláudia" e "Interview", a versão brasileira da cultuada revista de Andy Warhol.
Naquele encontro-relâmpago na pista do 54, aliás, o mestre da pop art reclamou à fotógrafa que a sucursal do Brasil sempre atrasava pagamentos à matriz. "Ele era muito materialista, um gênio marqueteiro."
Também é o único que arranca da fotógrafa elogios tão rasgados, já que ela detesta a fama "que distorce tudo". Os retratos que fez do abraço de Caio Fernando Abreu e Cazuza, no camarim, Ney Matogrosso de fio dental na praia, Dina Sfat só de roupão, Rita Lee grávida e outros tantos, se devem, ela diz, à sua grande amizade com quase todo mundo que foi relevante na cultura nessas três décadas.
Em SP, Toledo flagrou a estréia da minissaia na pista da Aquarius, os VIPs da Gallery e os primeiros "punks, insones, drogados e jornalistas" no Madame Satã. No Rio, os músicos da tropicália ensolarada.


