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Ilustrada
09/09/2008 - 09h18

Diretor Enrique Diaz roda a Europa com Lispector

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DANIELA ROCHA
Colaboração para a Folha de S.Paulo, em Bruxelas

Quatro semanas para elaborar um espetáculo com um elenco de 13 atores vindos da Bélgica, França, Portugal e Itália. Esta foi a proposta aceita pelo diretor teatral peruano radicado no Brasil Enrique Diaz, 41: coordenar a 18ª edição da École des Maîtres (Escola dos Mestres), um curso de formação teatral avançada a atores profissionais europeus na faixa de 24 a 32 anos.

Joana Pupo/Divulgação
"Perto do Coração Selvagem"
Maria João Pinho e Corinne Castelli atuam na peça "Perto do Coração Selvagem"

Aos atores, Diaz lançou o desafio de pesquisar o universo da escritora Clarice Lispector e, a partir dele, trazer elementos de cena, idéias, sensações. Apresentado no Théâtre Varia, em Bruxelas, no último sábado, o espetáculo "Perto do Coração Selvagem" será visto hoje no Teatro Quirino de Roma e, na sexta-feira, no Teatro Nacional D. Maria, em Lisboa.

Para a montagem do que chama de "demonstração pública dos alunos", Diaz utilizou a técnica de viewpoints (desenvolvida por Anne Bogart, diretora artística da SITI Company, de Nova York), com improvisação dos atores, de forma intuitiva, e de Tadashi Suzuki, que explora o equilíbrio físico. O resultado é uma encenação em que Lispector tem presença marcante, mesmo com raras menções literais de sua obra.

"Passamos duas semanas sem saber onde estávamos. Parecia uma "caixa de pandora". Nos dez últimos dias, estruturamos o espetáculo a partir dos trechos que os atores elaboraram. Foram eles que criaram rigorosamente tudo, de forma honesta e generosa", explica o diretor, que conta sobre o processo de construção do espetáculo, em que os próprios atores se reciclavam, se apropriavam de trechos de outros do grupo.

"De repente, o que um ator havia descrito nas discussões, era dito em primeira pessoa por outro, dando vida ao espetáculo", afirma Diaz. Segundo o diretor, este trabalho propõe buscar novas poéticas e formatos por meio de jogos entre os atores, com combinação de narrativas pessoais e urbanas, exploração da voz e do corpo.

Ligação Lispector

Para um dos fundadores da École des Maîtres e diretor do Centro de Pesquisa e de Experimentação em Pedagogia Artística, Serge Rangoni, 49, o sucesso desta edição está justamente no trabalho elaborado de direção teatral.

"Enrique Diaz se deparou com uma Europa que não é unida culturalmente. Ele conseguiu uma construção coletiva sem abrir mão do individual. Trouxe uma urbanidade que destaca a singularidade da pessoa, da sua identidade cultural", diz.

Rangoni acredita que a escolha de Clarice Lispector tenha sido muito feliz. "Ela é uma autora que faz a ligação entre o Brasil e a Europa. É sensível e complexa ao mesmo tempo."

Uma das atrizes que se destacam na montagem, a belga Florence Minder, 26, não conhecia a obra de Lispector antes de integrar o elenco de Diaz. "É uma escritora moderna, que trata o universo feminino de forma muito agradável. Para mim, foi uma descoberta."

Segundo a atriz, o diretor tem um papel fundamental na escolha do que os atores fazem. "Com o diretor, tudo muda e vira uma criação coletiva mesmo." Ela afirma que a técnica de viewpoints tem regras, justamente para permitir a liberdade de criação. "Não sabemos como será o próximo espetáculo. Mas essa incerteza é parte da proposta."

 

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