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14/09/2008 - 10h29

Periferia joga duro com "Linha de Passe"

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RAFAEL CARIELLO
da Folha de S.Paulo

Se fosse conduzida por um profissional do marketing político, a sessão extra do filme "Linha de Passe" realizada na última terça-feira no Espaço Unibanco, em São Paulo, poderia ser uma "pesquisa qualitativa".

O resultado diria que os moradores da periferia da cidade, retratados na tela e presentes na platéia, se identificam com a obra de Walter Salles e Daniela Thomas, mas fazem reparos à trama, reclamam da desesperança e são críticos do comportamento dos personagens.

Divulgação
Cena do longa-metragem "Linha de Passe", de Walter Salles, visto por moradores da periferia de SP; veja galeria de imagens do filme
Cena do longa-metragem "Linha de Passe", de Walter Salles, visto por moradores da periferia de SP; veja galeria de imagens do filme

O grupo era formado por cerca de 250 pessoas --estudantes do ensino médio, professores e monitores-- dos bairros de Heliópolis e Grajaú (zona sul), e de Itaquaquecetuba (Grande SP).

Após a projeção gratuita, promovida pela Folha, Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e Espaço Unibanco, os estudantes puderam debater com atores do filme a obra e sua própria realidade.

Maria Emília Oliveira dos Santos, 31, afirmou que o que se passava na tela --a vida de uma mãe solteira, Cleuza, e seus quatro filhos-- é "só o básico". "Acontecem coisas muito piores", disse ela. A monitora também discordou da atriz que interpreta Cleuza, Sandra Corveloni, quanto ao modo como a mãe cria seus filhos.

Severa, disse que a personagem era "muito ausente", influenciando no "descaminho" de seus filhos. Corveloni defendeu que, "para quem cria os filhos sem pai, ela manda bem".

Maria Emília disse depois, à reportagem, que ela já havia se sentido também ausente em relação ao filho, hoje com 16 anos. "Tinha que trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Não conversava com ele, não sabia. Meu filho entrou no meio do crime, quase morreu. Eu chorei o tempo todo durante o filme. Lembrava de tudo o que aconteceu comigo."

Karina Ferreira da Cruz, 21, evangélica, disse achar que "o filme acaba com um ar de derrota". "São coisas que a gente sempre vê sobre a periferia. Por que não mostrar outros pontos de vista? Eu acredito não em um final feliz, mas há outros", disse.

Referindo-se a um dos filhos de Cleuza, um evangélico que entra em crise sobre a sua crença, questionou: "Aquele que ficou descrente, por que não mostrá-lo reconciliado?".

Cerca de um terço da platéia se declarou evangélica, ao ser questionada pelo colunista da Folha Gilberto Dimenstein. Quando instados a dizer se o filme os retratava de forma fiel, balançaram as mãos, em sinal de "mais ou menos".

"No filme, eles tentam forçar que a paraplégica saia da cadeira de rodas", disse Rodrigo Gomes Soares, 17, evangélico. "Em geral, o pastor espera que Deus faça o milagre, e a pessoa ande por vontade própria."

 

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