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29/05/2004 - 04h13

Santiago Nazarian lança seu 2º livro, "A Morte sem Nome"

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MARCELO RUBENS PAIVA
Articulista da Folha de S.Paulo

"Não quero mesmo viver para sempre, apenas experimentar mais uma forma de morrer", conta Lorena, que desde menina queria morrer e perdia a respiração nas refeições. A morte não tem nome. Poderia se chamar depressão.

Esse é o tom do romance "A Morte sem Nome", o segundo publicado do jovem e intrigante escritor Santiago Nazarian, 27.

Com fama de bêbada, maluca e incendiária, seus homens, desde o adolescente Davi, não a comovem. Até seu pai, que confunde seu nome e a chama de Letícia, é incapaz de um contato: "Ele se sentia homem ao me fazer mais criança. Chorando, eu o fazia mais pai".

"Escrevi esse livro em 2000 e 2001, nem pensava em publicar, tanto que escrevi outro ['Olívio'] em seguida. Talvez quem quisesse perturbar fosse um leitor específico, a quem o livro é dedicado. Acho que sempre escrevo pensando numa só pessoa, que varia de livro para livro", diz o autor.

Nazarian é um dos novos talentos que, com João Paulo Cuenca, deixaram a sua marca na 1ª Festa Literária Internacional de Parati, publicando um conto no livro "Parati para Mim".

Seu currículo é incomum: além do premiado romance "Olívio" (Fundação Conrado Wessel de Literatura de 2003), foi barman, estudou piano, fez publicidade, traduções, horóscopo e estuda finlandês: "Fui duas vezes à Finlândia e me apaixonei pela realidade polar, a beleza melancólica, a receptividade desconfiada das pessoas, então quis fazer parte daquele mundo por um tempo".

Ele também escreveu roteiros para disque-sexo aqui no Brasil. "Fiz por um ano, porque precisava de dinheiro. Eram 15 roteiros por semana, e não me tomavam tanto tempo assim. Os roteiros iam para a produtora, que gravava com locutores, e isso ia ao ar por uma operadora de celular."

"A inspiração, na maior parte, vinha do senso comum. Eu não podia deixar de colocar a secretária, o padeiro, o bombeiro, a vizinha. Pornografia mexe com clichês, porque isso é o que excita a massa. Era divertido fazer", conta.

Nazarian escreve bem demais, sabe compor personagens e tem um estilo arriscado e fascinante. Para ele, literatura não é diversão.

"A pior crítica é alguém dizer que achou meu livro divertido. Não busco diversão quando leio. Se quero me divertir, ando de montanha-russa ou vejo um filme de terror. Não sei, talvez seja minha interpretação da palavra diversão como algo mais raso. Acho que a boa literatura tem de despertar reflexões, questionamentos, e isso não é diversão."

Influências? "A única busca consciente que fiz foi por essa virtuosidade, o exagero, no enredo e no estilo, e isso eu vejo como inspiração do romantismo, da música clássica e mais especificamente de Lizst. Ele é meu maior herói."

E tudo se confirma na obra cuja narradora, filha de um vendedor de colchões, só pensa em se matar. O autor a define como uma "suicida serial": "Engoli uma moeda, para que batessem nas minhas costas. Ninguém se importou. O valor era baixo. Esperavam que não entupisse o vaso".

"Tive a idéia dos 'suicídios seriais', e isso poderia ficar um pouco estranho num homem. Talvez minha porção gótica seja feminina ou minha anima seja gótica. Mas sempre pensei em responder que escrevi o livro num apartamento em que a moradora anterior havia se suicidado", diz ele.

A filha única de pais jovens tenta existir segundo as programações da família. Mas tudo se arrasta. Em tudo há blocos de pedra. A paralisia é dominante. Ela se mata e renasce depois de cada capítulo:

"Eu nasci numa noite de chuva. Nasci sobre lençóis brancos. Derramei sangue sobre os azulejos. E meu pai nem percebeu. E morri numa manhã de sol".

O autor explica: "Lorena é minha heroína porque se mata realmente, não blefa e ainda tem esse poder de viver de novo, para provar que quer mesmo se matar". "E tem a curiosidade também. Quem nunca pensou em como seria a sensação de pular da janela do apartamento? Por isso existe bungee jump. Eu satisfiz vários desejos mórbidos nesse livro, renasci como ela e já fiz bungee jump também", afirma Nazarian.

Não, não temos pena de Lorena. Nem há nenhuma pieguice. O autor consegue nos deixar impotentes diante do caos psicológico da personagem.

"Eu costumo dizer que o livro é como aqueles discos de heavy metal que você gira ao contrário e toca mensagens do demônio, é cheio de subtextos, alguns dos quais nem eu entendo."

E, para cada amor desfeito, uma desculpa pela tangente: "De um amor adolescente, eu não quero viver culpada. Sinto muito, Davi, você me encontrou cedo demais".

"A arte sempre se alimenta dos conflitos. Não consigo me lembrar de nenhum grande livro alegre. Pessoalmente, hoje em dia, não sou uma pessoa deprimida. Um pouco melancólico, entediado talvez. Mas é só bater alguma crise para eu enfiar o dedo na ferida e tirar um conto ou um romance", completa o autor.

Avaliação:

A Morte sem Nome
Autor: Santiago Nazarian
Editora: Planeta do Brasil
Quanto: R$ 29,20 (208 págs.)
 

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