Ilustrada
21/09/2009 - 07h20

"Pequenos Burgueses" marcou o início da época de ouro do Oficina

Publicidade

da Folha Online

"Xamã é a função que Zé Celso exerce na comunidade teatral brasileira. Aglutina forças vitais, evoca os deuses e espíritos da devoção dos cidadãos, provoca a libido, incita à desobediência". Aimar Labaki, dramaturgo

A segunda atuação de José Celso Martinez Corrêa como diretor foi com a peça "Os Pequenos Burgueses", do dramaturgo russo Máximo Gorki. O espetáculo tinha no elenco atores como Raul Cortez e Rosamaria Murtinho e marcou o amadurecimento artístico tanto do diretor como do Teatro Oficina, que nasceu como grupo amador criado pelo próprio Zé Celso, Renato Borghi e outros amigos na Faculdade de Direito da USP.

Reprodução
Folha explica a obra do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa
Folha explica a obra do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa

No volume "José Celso Martinez Corrêa", da série Folha Explica, o dramaturgo Aimar Labaki mostra esse que foi o início da época áurea e "adulta" do Oficina, quando o grupo deixou para trás os textos "adolescentes" e amadores.

A estréia ocorreu apenas cinco meses antes do Golpe Militar e foi definida, na época, como "o melhor espetáculo realista do Brasil" pelo crítico teatral Sábato Magaldi.

Leia o trecho abaixo:

*

O BURGUÊS MADURO

O Brasil viveu um período de democracia formal que durou de 1946 a 1964. Menos de 20 anos, mas o suficiente para um salto qualitativo na vida política e cultural do país. Aos "50 anos em cinco" de Juscelino correspondeu uma refundação da arte brasileira - bossa-nova, Teatro de Arena, Oficina, cinema novo, concretismo, tropicalismo.

A burguesia paulista, como parte de sua busca de legitimação, criou instituições que possibilitassem a ela mesma e à classe média acesso a uma produção cultural condizente com sua aspiração à condição de cosmopolita e integrada aos hábitos de consumo cultural do Primeiro Mundo. A Universidade de São Paulo, fundada nos anos 30, formou a mão-de-obra intelectual necessária para embasar, compreender, legitimar e dar visibilidade à produção cultural que surgiria como fruto desse investimento. Dela viriam os grandes críticos dos anos 50 e 60, Decio de Almeida Prado, Antonio Candido, Paulo Emílio Salles Gomes. A partir de 1945, as instituições se multiplicaram: Masp, Bienal, Cinemateca etc.

Pandora aberta, o início dos anos 60 foi de radicalização política. A aventura de Jânio Quadros desembocou na república populista de João Goulart. Experiências como o CPC e o método Paulo Freire cruzavam a linha do permitido no contexto da aproximação tática entre o Partido Comunista e uma suposta fração progressista da burguesia. Que a classe média pregasse para si mesma (por exemplo, fazendo espetáculos no minúsculo Teatro de Arena, abarrotado de estudantes), tudo bem. Dialogar com os operários ou camponeses já eram outros quinhentos réis.

À retórica da esquerda não correspondia uma real correlação de forças que apoiassem as reformas propostas e a revolução subentendida. A vitória dos golpistas de 64 foi fruto desse desequilíbrio.

Pequenos Burgueses estreou em 30 de outubro de 1963, cinco meses antes do golpe. No texto de Máximo Gorki, Zé Celso encontrou o material para mostrar os paralelos entre a Rússia pré-revolucionária e o Brasil, que se acreditava num momento semelhante. As personagens da peça eram pequenos burgueses que se apegavam a seus costumes e crenças sem perceberem que as mudanças na sociedade eram irreversíveis e inevitáveis. Servia como uma metáfora premonitória de qual seria a posição da classe média diante do golpe militar. Mas num primeiro momento, em outubro de 1963, o que se podia ler era apenas a referência ao clima pré-revolucionário.

Foi um momento de dupla maturação. Por um lado, Zé Celso, em sua segunda direção profissional, realizava o que Sábato Magaldi definiria como "o melhor espetáculo realista do Brasil"; o dramaturgo, que havia menos de dois anos achava que não tinha talento específico para a direção e que chegara a convidar Luís Carlos Maciel para dirigir aquele mesmo espetáculo, compreendera e incorporara Stanislavski como nenhum dos estrangeiros tinha feito no Brasil. Por outro lado, um elenco extraordinário, que amadurecera na sala de aula e de ensaios sob a batuta de Kusnet: Renato Borghi, Ronaldo Daniel, Célia Helena, Rosamaria Murtinho, Miriam Mehler, Raul Cortez e Ítala Nandi, entre outros.

A Censura proibiu o espetáculo em 3 de abril de 1964. Assustados com os boatos sobre prisões e listas de procurados, Zé Celso, Borghi e Fernando Peixoto (outra figura central nessa fase do Oficina) se refugiaram num sítio da família de Célia Helena. O teatro, vigiado pelas forças de repressão, foi ocupado da manhã à noite com o curso de Kusnet, que abriu novas turmas. À noite, ensaiava-se Toda Donzela Tem um Pai Que É uma Fera, comédia de Gláucio Gil, escalada para salvar a bilheteria, já que o repertório não mais lhes pertencia. A direção era de Benedito Corsi. Numa substituição de emergência, durante os ensaios, entrou, para ajudar o grupo no momento difícil, o já astro da televisão Tarcísio Meira.

Mas a proibição de Pequenos Burgueses foi suspensa, após batalha judicial e pagamento de um valor considerável à Censura (a liberdade, mesmo relativa, tem seu preço). A crônica da pré-revolução-que-não-aconteceu voltou a cartaz, com sessões abarrotadas. A comédia foi transferida para outra sala, também com estrondoso sucesso.

*

"Folha Explica José Celso Martinez Corrêa"
Autor: Aimar Labaki
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca