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28/09/2008 - 09h29

Cláudia Raia encarna sua versão global de "mutante"

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AUDREY FURLANETO
da Folha de S. Paulo, enviada especial ao Rio

"Esta sou eu: Cláudia. Pernas esticadas, ombros certos." Cruza a sala de espelhos da aula de balé, elegante, quase nas pontas dos pés. "Esta é ela." Cláudia Raia, então, relaxa os ombros e caminha com as pernas levemente abertas, postura que lhe dá um pouco de dor no pescoço desde junho, quando estreou Donatela em "A Favorita".

A personagem dará mais uma de suas viradas na novela das oito: será, de novo, ela mesma. Para entender: Donatela era pobre, fez parte de uma dupla sertaneja, ficou rica, botou mega-hair, perdeu tudo, passou uma temporada na prisão, cortou o cabelo, tentou fugir da cadeia por uma tubulação, adotou uma peruca loira e lentes de contato azuis para se passar por uma mulher que teria sido abduzida por extraterrestres e, agora, deve reaparecer --sem peruca, de cabelo curto-- para a família que a julgava morta.

A "sobrevivente do inferno", como Raia resume Donatela, é o terceiro personagem "dramático" de sua carreira. "É talvez o mais difícil que já fiz", diz ela, que, 41 anos e 11 novelas no currículo, é mais lembrada por papéis cômicos, como Tancinha, de "Sassaricando", e a presidiária Tonhão, do "TV Pirata".

Divulgação
Donatela era pobre, fez parte de uma dupla sertaneja, ficou rica, botou mega-hair, perdeu tudo e passou uma temporada na prisão.
Donatela era pobre, fez parte de uma dupla sertaneja, ficou rica, botou mega-hair, perdeu tudo e passou uma temporada na prisão.

"Qualquer texto que eu pegue na vida, vou achar graça. Porque o meu olhar é de comediante", afirma. Além de Donatela, seus dois outros personagens dramáticos foram em "Engraçadinha" (1995) e em "Torre de Babel" (1998).

Para o primeiro, aliás, Raia fez um teste clandestino, já que o diretor (Carlos Manga) dizia que ela estava longe de ser uma "atriz rodriguiana". "A Denise [Saraceni] me disse: 'Você pagaria o mico de ir à noite de peruca no Projac?'. Eu fiz o teste na surdina. Ele viu e ficou chocado: 'Ela é a "Engraçadinha'". E completa: "A gente é ator. Quer exercitar tudo".

Professor de drama

Para o "exercício" de drama com Donatela, a atriz se inspirou no neo-realismo italiano. "A Donatela tem muito da Anna Magnani e da Sophia Loren nos filmes dramáticos", diz. Também recorreu ao ator e amigo Cacá Carvalho, que, ela conta, classificou o papel como "jóia rara" ao ler a sinopse. Desde o convite, os dois estudam juntos os capítulos e "cada sentimento" da personagem.

"Alugamos uma sala de dança em São Paulo e ficávamos seis, sete horas trabalhando ali dentro. Fazendo corpo, laboratório, o mundo pobre dessa mulher, a coisa country. Criamos o sotaque, que é minha memória do interior de São Paulo...", conta. "A grande sacada [de Carvalho] foi ver a profundidade dela, de uma mulher que não é entendida, extremamente agoniada. Trabalhamos muito a dubiedade", diz.

Com a maratona de Donatela, os encontros passaram a ser via Skype e duram até seis horas nos finais de semana. "Ele diz para eu fazer esse ou aquele sentimento dela, e eu vou anotando. Eu faço. E nunca tá bom, claro. Ele acha sempre que tá tudo ruim. Mas fica orgulhoso de coisas que vê no ar."

A atuação de Cláudia Raia não inclui visão de raio-X, lançar bolas de fogo ou congelar inimigos, mas a atriz vive uma mutação na novela que ajudou a manter distante os reais "mutantes" da novela da Record. "A Favorita" e a mutante de João Emanuel Carneiro ajudaram a garantir média de 38 pontos na Grande São Paulo, entre os dias 8 e 14 deste mês.

O próprio autor Silvio de Abreu, que deu a ela o papel dramático de Ângela em "Torre de Babel", diz que não perde um capítulo de "A Favorita" -mas seu interesse diminui quando Donatela e Flora (Patrícia Pillar) não estão no ar.

"É uma opinião. A novela é mesmo muito focada na trama central. Essa história é tão forte que as pessoas querem ver, e o João não abre mão disso", avalia Raia.

Soneca

Nos últimos dias, a atriz chegou a fazer 12 cenas por capítulo --são, em média, 30 cenas por capítulo. "Tem micos do tipo: eu caio dormindo, e o Edson [Celulari, marido de Raia] me tira de cima do texto feito uma velhinha: "Tá bom, amor. Você não tá decorando mais nada'", conta. "Esse personagem é muito raro, sinto que é meio único na carreira. Mas isso não me faz melancólica", diz.

Restam os fins de noite para estudar os textos porque, quando deixa os estúdios do Projac cedo (cerca de 19h), Raia segue para a aula de balé, na Gávea, perto de sua casa.

Faz uma hora de exercícios de duas a três vezes por semana --é filha de bailarina, dança desde criança-- e alterna aulas de canto, que podem terminar depois das 22h. Quer estar sempre pronta para a possibilidade de atuar num musical.

No dia seguinte, tem de acordar às 7h. "Dá para você melhorar minha olheira no Photo- shop depois?", pede ao fotógrafo, ao fim do dia. Não deu. A Folha não retoca suas fotos.

 

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