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Ilustrada
30/09/2008 - 08h28

Revival teatral reflete crise de dramaturgia

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LUCAS NEVES
da Folha de S.Paulo

A estréia do monólogo "Brincando em Cima Daquilo" em São Paulo, amanhã, dá impulso definitivo à onda de remontagens de textos bem-sucedidos na década de 80 que toma a cena paulistana, depois de passar pelo Rio.

Priscila Prade/Divulgação
Atores Marcelo Médici e Cássio Scapin em cena da peça, que estréia na próxima quinta
Atores Marcelo Médici e Cássio Scapin atuam na peça "O Mistério de Irma Vap" em São Paulo

A peça estrelada por Debora Bloch se junta a "O Mistério de Irma Vap" e "Doce Deleite" no "revival" oitentista --que toma ares de tributo a Marília Pêra, envolvida nas produções originais das três peças.

Dramaturgos ouvidos pela reportagem fazem ressalvas à maré saudosista; produtores contemporizam.

Alcione Araújo, autor dos esquetes de "Doce Deleite", diz que ficou surpreso com o êxito da remontagem protagonizada por Camila Morgado e Reynaldo Gianecchini --29.929 espectadores em quatro meses de temporada carioca, apesar de críticas pouco entusiasmadas da imprensa local. Ele sugere três hipóteses para a boa acolhida: a possível perenidade das histórias, a estagnação na percepção de comédia por parte das platéias ou a regressão do próprio humor brasileiro.

"Com o fim da ditadura e dos antagonismos mais explícitos, o nosso teatro se associou ao entretenimento e deixou de ser uma indagação mais densa sobre o homem no espaço social. As questões políticas e sociais que motivaram a minha geração se tornaram programa de governo; os artistas se desimcumbiram dessa missão [levantar bandeiras político-sociais]".

Rodrigo Marcondes/Folha Imagem
Os atores Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado com a diretora da peça, Marília Pêra
Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado posam com a diretora de "Doce Deleite, Marília Pêra

Para ele, "diante de um horizonte sem grandes nuances", a objetividade do produtor teatral o faz recorrer a títulos que emplacaram no passado. "Hoje, no Brasil, essa ideologia do resultado imediatista vingou, do sindicalismo à vida cultural."

Os autores que poderiam renovar essa engrenagem, observa Araújo, têm as atenções voltadas para outras áreas. "As pessoas que têm algum talento para a escrita e para a narrativa dramática estão optando pela TV ou pelo cinema. O teatro deixou de ser um formulador de idéias, ainda não encontrou uma linguagem que vá mais fundo no homem."

Sem inquietação

O autor e diretor Amir Haddad, responsável pela dramaturgia de "Brincando em Cima Daquilo", faz coro no que se refere à falta de material inédito de qualidade: "Não sinto tendências, modernidade na dramaturgia brasileira atual. Faltam textos novos que a gente se sinta estimulado a montar. A inquietação fica reduzida a alguns núcleos".

Ele insere a crise da cena nacional num contexto global de falência "da dramaturgia do teatro burguês realista". "Era necessário haver um teatro que rompesse a ideologia e falasse da decadência -o que ainda não temos coragem de fazer."

Haddad frisa, entretanto, que a situação brasileira é especialmente grave por causa da "quebra de um pacto social entre artistas, vida cultural e país":

"A partir daí, a produção perdeu muito em qualidade. Passamos a ser terra de ninguém, e assunto nenhum nos parecia suficientemente interessante. Nos internacionalizamos sem nenhum compromisso. Vinte anos de ditadura e mais um período neoliberal violento foram suficientes para acabar com as ligações dos artistas com seu lugar. Isso produziu um empobrecimento geral."

E sobe o tom das críticas. "O sistema de estrelas se implantou sem responsabilidade. A coisa brasileira ficou "farinha pouca, meu pirão primeiro"."

O diretor avalia ser compreensível que produtores busquem montagens que "não sejam investimentos a fundo perdido", mas acha que os das peças de agora erraram a mão:

"Remontar esses textos não significa nada. A remontagem de 'Doce Deleite' é de um vazio de dramaturgia absoluto. E 'Irma Vap' jamais será o acontecimento que foi naquela época [86-97] por causa de dois atores maravilhosos [Marco Nanini e Ney Latorraca]. A da Debora [com dramaturgia dele] é a mais interessante, pois é uma releitura de acordo com os tempos de hoje".

Produtores

A produtora Andrea Francez, de "O Mistério de Irma Vap", discorda. "Os grandes textos têm de ser remontados, como se faz com [William] Shakespeare e [Bertolt] Brecht." Para ela, "sair para pesquisar" novos textos não é tão fácil "quanto se gostaria". "Seria interessante que houvesse um banco de peças na internet."

Eduardo Barata, produtor de "Brincando..." e "Doce Deleite", também julga que "essas dramaturgias não envelheceram". "Várias gerações não assistiram a esses espetáculos. Acho justo remontar para elas."

Saudosismo

Saiba mais sobre as remontagens de sucessos oitentistas:

"Doce Deleite"
Camila Morgado e Reynaldo Gianecchini tomam os postos que eram de Marília Pêra e Marco Nanini na montagem original, de 1981. A comédia musical compila esquetes protagonizados por figuras ligadas ao teatro, da bilheteira à diva
Quando: teatro Raul Cortez - Fecomércio (r. dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, tel. 0/xx/11/3188-4141)
Onde: qui. a sáb., às 21h30; dom., às 18h; até 9/11
Quanto: de R$ 80 a R$ 90
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

"O Mistério de Irma Vap"
Marcelo Médici e Cássio Scapin reencenam a história de uma mansão inglesa assombrada pelo fantasma da primeira mulher de um certo Lord Edgard. Nanini e Ney Latorraca ficaram 11 anos em cartaz (86-97) com a primeira produção, dirigida por Marília Pêra
Quando: qui. e sex., às 21h30; sáb., às 21h; dom., às 19h; até 7/12
Onde: teatro shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, Consolação, tel. 0/xx/11/3472-2229)
Quanto: de R$ 60 a R$ 70
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 10 anos

"Brincando em Cima Daquilo"
Debora Bloch leva à cena três monólogos curtos de Dario Fo e Franca Rame sobre mulheres às voltas com seus desejos. Em 84, Marília Pêra (sempre ela) estrelou o mesmo espetáculo
Quando: estréia amanhã; seg. a qua., às 21h; até 29/10
Onde: teatro shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, Consolação, tel. 0/xx/11/3472-2229)
Quanto: de R$ 65 a R$ 70
Classificação indicativa: não recomendado para menores de 16 anos

 

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